19
Ago 17

Como se fala na TVI24

Antes surdo

 

      À porta do Estádio da Luz, para «conferir o ambiente» para o primeiro dérbi da época, entre o Benfica e o Belenenses, estava a repórter da TVI24 Catarina Cardoso. Com muitos adeptos por ali, quase todos ventrudos, e não por acaso com cervejas na mão, escolheu o indivíduo vestido de forma mais vistosa: «Fale-me desta indrumentária.» E isto duas vezes: «indrumentária» «indrumentária». E é assim a inducação dos jovens jornalistas.

 

[Texto 8098]

Helder Guégués às 20:52 | comentar | favorito
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Léxico: «vagomestre»

Vago, mestre, muito vago

 

      Guiné, Guerra Colonial. Aparecem-me aqui num texto dois furriéis, um deles com a especialidade de vagomestre. Já não recordava exactamente o que significava a palavra, e por isso consultei o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «sargento responsável pela alimentação numa unidade». Confere com o contexto da obra. Contudo, se consultarmos o Dicionário Aulete, ficaremos com menos certezas: «suboficial do exército francês, encarregado de distribuir a correspondência enviada aos soldados». A etimologia, de facto, conduz-nos a esta definição. Tratar-se-á de uma especificidade portuguesa?

 

[Texto 8097]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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18
Ago 17

«Pastel/pastelão»

O tamanho conta

 

      «A aparência do dito salgado lembra uma empada em ponto grande, mas o sabor remete-nos para sensações únicas e deliciosas. Trata-se de um pastel redondo, de massa folhada com recheio de carne picada» («Frigideiras, receita com mais de 200 anos», Secundino Cunha, «Sexta»/Correio da Manhã, 11-17.08.2017).

      É o que leio por aqui e por ali, que a frigideira é um grande pastel de massa folhada. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, porém, é um «pastelão de carne, ovos e farinha, especialidade de Braga». Evidentemente, «pastelão» é aumentativo de «pastel», mas por algum motivo se diz que aquela especialidade de Braga é um grande pastel, e não um pastelão. É que este termo também designa, como aquele dicionário regista, e nem todos o fazem, o «prato confeccionado com ovos, cebola e aproveitamento de carnes ou peixe que vão a fritar». Sucede o mesmo com o par empadão, que não é aumentativo de empada em todas as acepções. É curioso que os dicionários registam pastelão/pastel/pastelinho, mas empadão/empada/---. Pois, nada. Chegou-nos de Espanha a empanada, que é uma grande empada, e a empanadilha, que é uma empanada pequena.

 

[Texto 8096]

Helder Guégués às 07:50 | comentar | favorito
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17
Ago 17

«Bilião/mil milhões»

O futuro mal traduzido

 

     «Diz a sabedoria popular que “somos o que comemos”, mas sabia aquilo que escolhemos para as nossas refeições pode influenciar o futuro do planeta? A Associação Portuguesa de Nutrição acaba de lançar um ebook – um livro digital – sobre alimentação sustentável» («O futuro do planeta pode estar no seu prato», Sara Beatriz Monteiro, Rádio Renascença, 9.08.2017, 11h45).

      Fui ver esse livro, do qual respigo esta frase, a primeira: «Em 2050, a população será superior a 9 biliões e, como tal, será necessário produzir mais 60% de alimentos.» Tantos? Ainda recentemente revi um texto em que se afirmava que um relatório das Nações Unidas estima que a população mundial alcance os 9,6 mil milhões em 2050, e pareceu-me tudo correcto. Senhores responsáveis da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), em Portugal, dizemos, neste caso, milhares de milhões, não biliões. Não têm de quê.

 

[Texto 8095]

Helder Guégués às 07:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Ago 17

«Os seis tropas»!

Irra!

 

      A propósito do recente atropelamento («abalroamento», gostam os jornalistas de dizer) de seis militares de uma patrulha antiterrorista em Levallois-Perret, no subúrbio parisiense, disse Rosário Salgueiro, correspondente da RTP em Paris, a quem com certeza ensinaram que se deve evitar repetir palavras e expressões num texto: «Está aberto o inquérito antiterrorista pelo Tribunal Central de Paris ao atropelamento dos militares, esta manhã, em Levallois-Perret, uma localidade a meia hora da capital francesa. […] Autoridades e testemunhas indicam o acto deliberado contra os seis tropas de infantaria.» E sempre assim até ao fim, ora «militares», ora «tropas». Não diga «os tropas», Rosário Salgueiro. Sei lá, é como se umas vezes dissesse «pronto» e noutras, para não se repetir, dissesse «prontos». Nem mais.

 

[Texto 8094]

Helder Guégués às 07:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Ago 17

Léxico: «recandidato»

Esta também é nova

 

   Pela primeira vez numa corrida autárquica, estou a ouvir uma palavra quase todos os dias: «O recandidato [Paulo Vistas] disse ficar triste com as declarações de Isaltino Morais, depois de no passado ter combatido a seu lado “as insinuações” e “os boatos”, e que todas as candidaturas devem cumprir o que está na lei» («Paulo Vistas acusa Isaltino de querer condicionar poder judicial», Rádio Renascença, 9.08.2017, 22h24). Temos de estar sempre atentos, porque a cada ano que passa há sempre novidades. A propósito dos incêndios também é assim. Este ano, já repararam?, apesar de quase não termos País, porque ardeu todo, poucas vezes ouvimos a palavra «ignição», que já esteve em grande voga.

 

[Texto 8093]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | favorito
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14
Ago 17

Como falam os políticos

Ao lado

 

      Estão presos uns meses, ou até apenas detidos umas horas, às vezes levam somente umas quantas bastonadas — e ficam logo especialistas em Direito. Assim: «Provavelmente o senhor juiz [Nuno Cardoso], perante essa relação de amizade, talvez tivesse sido bom ter-se declarado incompatível» (Isaltino Morais, a propósito da rejeição da sua candidatura por irregularidades na apresentação das listas de candidatos). Ter-se declarado incompatível... O Dr. Isaltino Morais queria dizer que o magistrado devia ter pedido escusa do processo. De facto, ao tribunal não basta ser imparcial, é preciso parecê-lo.

 

[Texto 8092]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | favorito
13
Ago 17

Como se escreve nos jornais

Os dias e o jornalismo do fim

 

      Ah, como é delicado e compassivo o pessoal do Correio da Manhã, meu Deus! Mais uma vítima mortal de um acidente na estrada, com direito a fotografia do morto e dos veículos envolvidos. Na legenda, isto: «Carro onde seguia a vítima mortal enfaixou-se na traseira do camião do lixo». Não tem muito que pensar, não é? Estrada, faixa de rodagem... «Regressei de Tete ao fim da tarde. Prostrado. Ainda por cima, na Avenida do Aeroporto, um carro vindo da esquerda enfeixou-se no meu» (Os Dias do Fim, Ricardo de Saavedra. Lisboa: Casa das Letras, 3.ª ed., 2014, p. 149).

 

[Texto 8091]

Helder Guégués às 18:31 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «guardar-se de»

Antes holicismo

 

      Estava aqui a pensar se guardar-se de não seria cópia do francês se garder de. Aqui em Stendhal, leio: «Elle se garda de répondre, etc.» Mas não, pois até nas Ordenações Afonsinas o encontro. (E lá está a numeração romana, que as professoras primárias ignoram: título LXIIII, v. g.)

 

[Texto 8090]

Helder Guégués às 08:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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12
Ago 17

Léxico: «arear»

Muita areia

 

      Volto a trazer para aqui uma notícia sobre o abastecimento de água em Almeirim. «Colapso de furo, que areou, deixou água canalizada de Almeirim com cor acastanhada» («Avaria na rede de água afetou 14 mil pessoas», José Durão, Correio da Manhã, 9.08.2017, p. 18).

     Nunca tinha visto o verbo arear em contextos semelhantes, mas suponho que está correcto, pois é uma das acepções registadas nos dicionários.

 

[Texto 8089]

Helder Guégués às 08:32 | comentar | favorito
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