21
Fev 17

«Grão-mufti/grande mufti»

Tête de bois

 

      «“A mais alta autoridade sunita do mundo não me fez essa exigência. Por isso não vejo que tenha qualquer razão para... Mas não é grave, transmita ao grand mufti os meus respeitos mas não me vou tapar”, disse Marine Le Pen ao membro do gabinete do xeque Abdelatif Derian» («Marine Le Pen recusa usar véu islâmico no Líbano», TSF, 21.02.2017, 12h17).

      O jornalista tinha duas maneiras de acertar em português — deixou em francês. É grão-mufti ou grande mufti. Também ajudava que todos os dicionários registassem — como faz o Aulete — o vocábulo «grão-mufti».

 

[Texto 7496]

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Churra mondegueira»

Até à extinção

 

      «Segundo o seu presidente [Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela], Manuel Marques, em 2012 havia cerca de 120 mil ovelhas das duas raças autóctones de cujo leite é feito o queijo com denominação de origem protegida (DOP): “bordaleira” e “churra mondegueira”. Hoje, são 75 mil as cabeças existentes» («Queijo da Serra em risco. Há cada vez menos ovelhas», Rádio Renascença, 21.02.2017, 10h13).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não é o único, regista churro e bordaleiro, sim, mas não mondegueiro, e, logo, também não acolhe «churro mondegueiro». É triste: ainda esta raça acaba e nem chegou a estar nos dicionários! A mondegueira é a que vive nas faldas da serra da Estrela. Meu Deus, quantas palavras fora dos dicionários, quanto conhecimento!

 

[Texto 7495]

Helder Guégués às 11:03 | comentar | favorito
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«Luz», uma acepção

Na sombra

 

      «Mais de oito mil portugueses produzem luz para autoconsumo» (Ana Brito, Público, 20.02.2017, p. 18). Luz por electricidade é usado todos os dias e por quase todos os falantes — e não está nos dicionários. Não devia estar?

 

[Texto 7494]

Helder Guégués às 08:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
20
Fev 17

«Cabelo», uma acepção

Por um cabelo

 

      «Os fugitivos, que continuam a monte, recorreram à técnica do cabelo, em que se utiliza um fio metálico. Com esse fio, terão serrado duas barras de ferro, passando para o exterior da cela» (Rita Soares, noticiário das 7 da manhã, Antena 1). Ou cabelo americano: «Na noite do passado domingo, no Estabelecimento Prisional do Linhó, evadiram-se os primeiros reclusos de 2007. Os dois cidadãos brasileiros serraram as grades com um cabelo americano, nome dado a um fio de corte, e com ajuda de cordas passaram os muros» («Prisões. Carregueira é o único estabelecimento sem fugas», José Bento Amaro, Público, 14.01.2007, p. 3). Nos dicionários, nem rasto.

 

[Texto 7493]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Sobre «holograma»

E não só

 

      «[Jean-Luc Mélenchon] Estava em Lyon a falar para alguns milhares de apoiantes quando, com o toque num botão, surgiu também em Aubervilliers, Paris, a 500 quilómetros. Sob a forma de holograma, como a princesa Leia no primeiríssimo Guerra das Estrelas» («A campanha faz-se por holograma», Sábado, 9.02.2017, p. 23). Vejamos a definição de holograma no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «ÓPTICA registo, em chapa fotográfica, dos efeitos da sobreposição de duas ondas emanadas da mesma fonte luminosa, uma directa e outra reflectida pelo objecto fotografado, o que dá uma ilusão de relevo, quando iluminado por um feixe de raios laser». Ora, é claro que falta aqui uma acepção, precisamente a usado no artigo da Sábado. O Dicionário da Real Academia Espanhola resolve tudo com mais concisão: «1. Placa fotográfica obtenida mediante holografía. 2. m. Imagen óptica obtenida mediante holografía.»

 

[Texto 7492]

Helder Guégués às 08:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Fev 17

«Responsável/responsabilizado»

A verdade judicial

 

      «Morreu o homem responsabilizado pelo primeiro atentado ao World Trade Center.» É o título de uma notícia de ontem na TSF. No fundo, é uma forma mais subtil de dizer que Omar Abdel-Rahman é, mesmo depois do julgamento, o alegado autor do primeiro atentado ao World Trade Center, em 1993. Para o jornalista, o Xeique Cego não é o responsável, antes o homem responsabilizado por esse acto violento, o que é muito diferente. É a verdade judicial.

 

[Texto 7491]

Helder Guégués às 12:28 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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18
Fev 17

Erros a toda a hora

Lampreias e dedais

 

      Acabo de ler que o dedal sai do Monopólio depois de votação na Internet. Ora esta... Mas está bem, tudo acaba, e com certeza os mais novos nem sabem o que é um dedal (thimble, para a legião de anglófonos que nos segue). Ao menos foi por votação. Pode acaso dizer-se o mesmo da saída dos revisores dos jornais? Só se foi por votação dos accionistas, que os leitores não foram ouvidos. Nem quando os corrigimos. Ainda hoje, em certo noticiário da televisão, afirmaram que a lampreia é um peixe (e ontem, vimo-lo aqui, que o teredem é um insecto), e aos reparos só respondem: «Ah, vamos tomar nota.»

 

[Texto 7490]

Helder Guégués às 17:52 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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Léxico: «zamaque»

Para mim, já é

 

      No ano passado, a Associação Empresarial Ourém-Fátima, em parceria com o Santuário de Fátima e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, lançou um terço comemorativo do centenário das aparições de Fátima. Por todo o lado leio que é composto «por contas em vidro soprado, produzidas artesanalmente na Marinha Grande, passador e crucifixo em zamak com acabamento de cobre e prata e corrente e arame em latão prateado». Para isto é que precisamos da colaboração dos lexicógrafos: já sabemos que vem do alemão Zink-Aluminium-Magnesium-Kupfer, mas nós estamos em Portugal. Seja zamaque.

 

[Texto 7489]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Diagnóstico: contracção, e grave

Batem grave, gravemente

 

      Só prò caso de ser preciso, prò caso de não saberem — se fizermos a contracção, o acento é grave. Já se sabe o que acontece a quem anda à chuva...

 

[Texto 7488]

Helder Guégués às 12:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Dotado ao abandono»!

Jornalismo ao abandono

 

      «Foram pintadas as paredes, reforçadas as fachadas, reunidos e restaurados os azulejos — centenas deles encontrados na Feira da Ladra. Tudo devolvido ao Pavilhão Carlos Lopes. Catorze anos depois de ter sido dotado ao abandono, o pavilhão reabre hoje, após um ano de obras de reabilitação que trouxeram de volta “a dignidade ao espaço”, encerrado desde 2013 por falta de condições de segurança. Di-lo Vítor Costa, director-geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), entidade encarregada da reabilitação» («Até na Feira da Ladra havia pedaços do Pavilhão Carlos Lopes», Margarida David Cardoso, Público, 17.02.2017, p. 18).

      Já aqui tínhamos visto outra versão avariada (e o autor ficou furioso), «devotado ao abandono». Claro que «dotado ao abandono» é muito, mas muito pior.

 

[Texto 7487]

Helder Guégués às 11:46 | comentar | favorito
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Como se escreve nos jornais

Estranhas ocorrências

 

      «De acordo com uma fonte da GNR, o alerta para o crime foi dado por volta das 20:15h desta sexta-feira e do incidente resultaram duas vitimas [sic], uma mortal e outra ferida. O estado de ambas ainda não é conhecido» («Famalicão. Homem mata mulher e tenta suicidar-se», Sol, 17.02.2017).

      O jornalista também ignorava o estado da GNR, que já se encontrava no local (logo depois do jornalista?).

 

[Texto 7486]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | favorito
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