23
Jan 17

Léxico: «fixista»

Querem ver que não existe?

 

      «“Não se pode ser fixista e pensar que há impasses sistemáticos”, insistiu» («Marcelo em cinco passos: à atenção do Governo e do PSD», Helena Pereira, TSF, 22.01.2017, 23h03).

     O Presidente da República estava a usar o termo na sua acepção relativa à biologia ou à apicultura? Ora, nem a uma nem a outra. Logo... (Psiu, não digam ao tal cronista.)

 

[Texto 7428]

Helder Guégués às 21:33 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Os dicionários

Discriminam

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, é verdade, o nome de algumas ordens e congregações religiosas — falemos tão-só das católicas —, mas faltam, como também noutros dicionários, muitas outras, e até estabelecidas em Portugal. Podemos lá ver os Barnabitas, os Beneditinos, os Dominicanos, os Franciscanos, os Lazaristas, os Jesuítas, os Maristas, os Mercedários, os Oratorianos, os Redentoristas, os Teatinos, sim — mas discriminam, entre muitos outros, os Camilianos, os Claretianos ou Cordimarianos, os Combonianos, os Estigmatinos, os Pavonianos, os Xavierianos, e por aí fora. Não está nada bem.

 

[Texto 7427]

Helder Guégués às 10:32 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Os pequenos nadas

Que fazem a língua

 

      O volume 8 da colecção «A casa de quem faz as casas», do Público, está hoje anunciado assim no jornal, página 35: «Vol. 8: João Mendes Ribeiro: Uma Casa Feita de Pequenos Nada». Contado, ninguém acredita. Então agora já não há concordância? Então, se for caso disso, e seja qual for a classe gramatical de um vocábulo, não pluraliza? Isto está mesmo muito mal. Aprendam: «Vasco instala-se numa pensão, vazio pelas saudades da filha que adora, mas dando uma importância, admite que exagerada, aos pequenos nadas» (Amor 5, Paixão 3, Manuel Arouca. Lisboa: Texto Editora, 2003, p. 114).

 

[Texto 7426]

Helder Guégués às 09:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
22
Jan 17

Como se escreve nos jornais

Mais yy

 

      «Em 2007 e no decorrer de uma obra na rede de abastecimento de água à cidade de Beja surgiu, no meio de ossadas do período islâmico, um esqueleto em posição de lótus. Nove anos depois, e pela primeira vez no mundo fora da Índia, foi confirmada a descoberta de um mestre yoga, que aqui chegou vindo do Oriente a pé» («Antes de sonharmos com a Índia, um mestre yoga chegou a Beja. A pé», Carlos Dias, Público, 22.01.2017, p. 12).

      E é assim que se diz em português, «mestre yoga»? Para começar, e sobretudo no Público, devia ser ioga. Seria então «mestre de ioga». Mas isto não será o mesmo que iogue, palavra que também temos?

 

[Texto 7425]

Helder Guégués às 21:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «radiológico»

Grão a grão

 

    «A intervenção em emergências radiológicas ou nucleares está enquadrada pela Directiva Operacional N.º 3, que identifica todas as entidades que devem actuar no terreno, sob comando da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC)» («Como actuar num cenário de contaminação radioactiva a partir de Almaraz», Lucinda Canelas, Público, 22.01.2017, p. 4).

     Também já tenho lido, aqui e ali, «acidente radiológico». Estas «emergências radiológicas» situam-se num ponto muito mais baixo do que um acidente nuclear. Podem acontecer na nossa rua, num serviço de radioterapia ou numa instalação de medicina nuclear. Só que não encontro esta acepção em nenhum dicionário; nem no adjectivo, nem no substantivo, radiologia. Anotem, senhores lexicógrafos: radiológico, de ou relativo a radiação nuclear.

 

[Texto 7424]

Helder Guégués às 20:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
21
Jan 17

Léxico: «supremacista»

Não é preciso mais

 

      «David Duke, 66 anos, liderou o movimento racista nacionalista e supremacista Ku Klux Klan nos anos 1970, abandonando-o uma década depois» («EUA: Ex-líder do Ku Klux Klan saúda posse de Trump», TSF, 20.01.2017, 19h10).

    Nem supremacista nem supremacismo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora ambos — o suficiente, como bem sabemos, para gente menos esclarecida argumentar que não existem.

 

[Texto 7423]

Helder Guégués às 22:26 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «tetrápilo»

Vão desaparecendo

 

      «O tetrápilo — palavra que deriva do grego e que é usada para designar uma estrutura com quatro portas ou portões — é uma construção típica da arquitectura clássica, algo que os romanos podiam erguer nos cruzamentos de vias importantes. O de Palmira já não tinha paredes nem cobertura, mas era extremamente cenográfico (como toda a cidade, aliás)» («Palmira perdeu mais dois monumentos», Lucinda Canelas, Público, 21.01.2017, p. 27).

    Que tem quatro portas. Desconhecida do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Registada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras. Assim se vão perdendo as palavras.

 

[Texto 7422]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
20
Jan 17

Léxico: «mariofania»

Há, mas nos italianos

 

      «Fátima é local da teologia e da mariologia, da liturgia oficial, mas também da devoção mais popular e pessoal. Assim é, igualmente, na arte: locus da arte mais espontaneamente popular (de que será o mais atilado exemplo a Capelinha das Aparições), e da refinada arte mais afastada, contudo, dos olhares das massas. O exemplo paradigmático dessa realidade pode colher-se, com efeito, nas obras dos autores que tomamos para reflexão final: Teixeira Lopes e Ferreira Thedim» («Um lugar ligado à arte», Marco Daniel Duarte, Público, 9.08.2007, p. 23).

      Está na generalidade dos dicionários, como no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «ramo da teologia cristã que se dedica ao estudo das questões relativas à Virgem Maria, mãe de Jesus». Se até é nome de uma disciplina, convém estar nos dicionários. Mas este dicionário não acolhe, por exemplo, o vocábulo mariofania, que leio em muitas obras sobre Fátima. Ora, somos o Altar do Mundo e a palavra está fora dos nossos dicionários? Se queremos ver a definição, temos de consultar dicionários de italiano. Ora esta!

 

[Texto 7421]

Helder Guégués às 23:54 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «documentarismo»

Em nome do pai

 

      «O pai do documentarismo, Robert J. Flaherty [1884-1951], dizia provocatoriamente que às vezes é preciso mentir, distorcendo uma coisa para a revelar na sua verdadeira essência» (A Senhora de Maio, António Marujo e Rui Paulo da Cruz. Lisboa: Temas e Debates, 2017, p. 14).

     Sim, está em alguns dicionários, mas não no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, contudo, acolhe documentarista. No Dicionário Aulete, por exemplo, diz-se que é a «prática de fazer documentário».

 

[Texto 7420]

Helder Guégués às 21:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
19
Jan 17

«Em vez de/ao invés de»

Donald, o Tuiteiro

 

      «Donald Trump enganou-se ao mencionar a filha numa publicação no Twitter esta segunda-feira e acabou por fazer elogios a uma desconhecida, que em resposta lhe dirigiu palavras duras. […] “Ivanka Trump é ótima, uma mulher com caráter e classe”, dizia a publicação. O problema é que, ao invés de mencionarem a empresária Ivanka Trump – que usa a conta @IvankaTrump no Twitter – o quiroprático e o presidente dos Estados Unidos marcaram Ivanka Majic, uma britânica que usa a conta @Ivanka» («Novo erro de Trump no Twitter: confundiu a filha com outra mulher», Diário de Notícias em linha, 17.01.2017, 19h38).

      Não íamos querer saber disto, de certeza, se também o jornalista não se tivesse espalhado. Na locução prepositiva ao invés de está subjacente uma ideia de oposição, o que não se verifica no sentido do texto. A locução prepositiva adequada é uma destas duas: em vez de ou em lugar de.

 

[Texto 7419]

Helder Guégués às 15:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,