05
Dez 16

Léxico: «angelino»

Se não temos, pedimos

 

      Ora cá está uma questão linguística com que nunca tinha deparado: qual o gentílico da cidade americana de Los Angeles? Diga-se, antes de mais nada, que nem a todos os topónimos corresponde necessariamente um gentílico. A origem não é espanhola? É: Los Ángeles. (Talvez, não se sabe exactamente, El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Ángeles del Río de Porciúncula.) Então, procuremos — já que em português nada está registado — no Dicionário da Real Academia Espanhola. Há duas cidades com este nome: uma nos Estados Unidos e outra no Chile. Para ambas, o gentílico castelhano é angelino. Será este que usarei sempre que for necessário, até porque temos o adjectivo angelino, próprio de anjo, angelical.

 

[Texto 7303]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | favorito
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Léxico: «turbo-hélice»

Cá, nem uma

 

      «O acidente ocorreu às 16h19 (menos uma hora em Portugal continental), na localidade de Segurilla (Toledo), por razões que ainda não são conhecidas. Foi um pastor que se encontrava na zona que deu o alerta. Quando os bombeiros chegaram ao local, o aparelho (um turbo-hélice Beechcraft King Air 90) estava em chamas» («Quatro espanhóis morrem em queda de avioneta que vinha para Cascais», Alexandra Campos, Público, 5.12.2016, p. 10).

      Está certo. É interessante esta forma de dizer, em vez de «um avião com turbo-hélice». Turbo-hélice, diga-se, não está nos dicionários gerais da língua publicados em Portugal. O VOLP da Academia Brasileira de Letras, pelo contrário, regista tanto aquela como turboélice, em que o h etimológico desaparece, à semelhança de muitas outras, como «lobisomem», «desonra», «inábil», por exemplo.

 

[Texto 7302]

Helder Guégués às 09:11 | comentar | favorito
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04
Dez 16

Erro de tradução?

Um pénis na tradução

 

      Claro que, quando se ouve rádio, portuguesa ou espanhola, nos arriscamos sempre a ouvir disparates e erros. Foi, pelo menos isso, na rádio espanhola que hoje ouvi isto: «Una transexual con pene de escayola tuvo engañada a su esposa durante 17 años.» Pesquisei na Internet e vi, com espanto, que a notícia foi pela primeira publicada no El País em 23 de Novembro de 1996. A escayola espanhola é exactamente a nossa escaiola, pelo que o mais provável é estarmos perante um erro monumental de tradução da jornalista, Isabel Ferrer de sua graça, que estava então em Leicester (já sabem: lê-se /lɛstə/), onde tudo aconteceu. Em 1996! Depois, a cada dez anos, é republicada como coisa nova. O gesso é um material duro, sim, mas altamente friável, e durante dezassete anos em uso... Em tribunal — ah, sim, até porque se trata de uma herdeira rica —, a esposa enganada alegou que sempre julgara que o pénis do marido «era pequeño o deforme pero no artificial». Que gesseiro inepto e grunho, porra!, então enjorca um falo mal-amanhado e fá-lo pequeno a ponto de parecer deformado?!

 

[Texto 7301]

Helder Guégués às 22:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Union Jack/Union Flag»

Olha o bandeiral

 

    Não diz muito respeito a nós, a não ser nas traduções, provavelmente, mas só hoje é que soube — ouvi na Rádio Nacional de Espanha — que as designações por que é conhecida a bandeira da Grã-Bretanha não são, como se julga, exactamente sinónimas. A Union Jack é apenas a bandeira que se usa no âmbito naval; a Union Flag é a que se usa em terra. O Flag Institute afirma que é uma ideia recente, mas já se sabe que convém estar a par.

 

[Texto 7300]

Helder Guégués às 21:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «déprime», de novo

Mas isso é em Espanha

 

      Lembram-se de aqui ter perguntado qual a melhor tradução de déprime, um termo coloquial francês? Vá lá, não sejam mentirosos. Vejam aqui. Bem, hoje lembrei-me de que em Espanha os mais jovens usam, coloquialmente, a abreviação vocabular depre para significar depressão. Tengo la depre.

 

[Texto 7299]

Helder Guégués às 09:13 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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03
Dez 16

Tradução: «ressenti»

Há-de chegar lá

 

      Só temos dificuldade, ainda que momentânea, em traduzir ressenti quando nos surge numa frase assim: «[…] ils expriment leurs ressentis, leurs émotions, leurs sentiments […]». Em rigor, nem é dificuldade, apesar de não a encontrarmos senão no Petit Robert (2014)1, mas a sensação de que é desnecessário. E, no entanto, outros vocábulos assim, como vécu, chegaram aos dicionários de referência (o que não se pode afirmar que o Petit Robert seja). Claro que temos muitos termos assim, duplicações desnecessárias.

 

[Texto 7298]

 

      1 «Impression ou sensation, physique ou mentale, que l’on éprouve.»

Helder Guégués às 17:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «ítalo-suíço»

Até nisto erram

 

      «Este filho de mãe italiana suíça e de pai catalão foi eleito pela primeira vez por Evry, município popular a Sul de Paris, aos 23 anos, e demonstrava já as suas ambições. Dizia não querer observar “o camarim presidencial a partir da [sic] orquestra na qual esperam que eu me mantenha à espera da minha vez”. Em 2001, foi eleito presidente da câmara de Evry» («Valls, o ambicioso que quer modernizar a esquerda», Público, 3.12.2016, p. 25).

      Dizem que sabem, mas depois, afinal, não sabem. Então na formação de adjectivos pátrios o elemento ítalo- não se liga com hífen à palavra seguinte? A mãe de Manuel Valls é ítalo-suíça.

 

[Texto 7297]

Helder Guégués às 12:06 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Léxico: «sobreporta»

É muito raro

 

      «No lugar da moradia cor-de-rosa, com janelas de guilhotina, frescos e azulejos centenários e sobreportas em [sic] vidro no interior, vai surgir um prédio de seis pisos com cinco apartamentos com a entrada principal virada para a Rua da Lapa e outro apartamento independente cuja entrada se faz pela Rua São João da Mata» («Sobre os escombros da icónica moradia da Lapa, Aires Mateus evita regressar ao passado», Jéssica Rocha, Público, 3.12.2016, p. 19).

      Sobreporta. É a bandeira ou parte superior da porta, e termo que raramente aparece. Não está registado em todos os dicionários.

 

[Texto 7296]

Helder Guégués às 10:41 | comentar | favorito
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02
Dez 16

Tradução: «boulette»

Não parece difícil

 

      «Em francês, chama-se boulette às bolas de pêlo regurgitadas pelas corujas e outros animais noctívagos depois de ingerirem, por exemplo, um rato. E em Manger, também há boulettes: algum do papel que entra na boca dos intérpretes para ser mastigado é depois devolvido ao exterior e serve para fazer pequenas esculturas ou bolas que frequentemente acabam no chão» («Comer a realidade com Boris Charmatz», Gonçalo Frota, Público, 2.12.2016, p. 28).

      Chama-se boulette... Bem, boulette é simplesmente «bolinha», «bola pequena» (e, na culinária, «almôndega»), por isso se lhes chamarmos bolinhas em português está tudo bem.

 

[Texto 7295]

Helder Guégués às 21:03 | comentar | favorito

Léxico: «aparta-vacas»

Nem ainda hoje

 

    «Mesmo os mais leigos distinguem as velhas máquinas a vapor americanas das europeias. As americanas têm uma chaminé invulgarmente alta e larga, um pavilhão (cabine) bastante grande e possuem na frente o típico cows away (aparta-vacas). “Constam na nossa memória colectiva pelos filmes de índios e cowboys — mas na América, não em Trás-os-Montes”, diz o presidente da APAC» («Linha do Tua vai ter um comboio dos filmes de índios e cowboys», Carlos Cipriano, Público, 2.12.2016, p. 20).

    No Assim Mesmo, tratei desta questão. Nos dicionários está, passados vários anos, tudo igual: nem afasta-vacas nem limpa-trilhos.

 

[Texto 7294]

Helder Guégués às 20:34 | comentar | favorito