27
Ago 16

Léxico: «pescódromo»

Nada de correr

 

      Em Lavos, na Figueira da Foz, numa antiga marinha fizeram um lago de pesca — o pescódromo. Há-de ser nome de influência brasileira, pois no Brasil o sufixo grego -dromo desligou-se claramente da sua significação original. É uma boa utilização dos salgados, os terrenos vizinhos do mar. Já sabem: trinta plataformas, para sessenta pescadores em simultâneo, e com douradas, robalos, tainhas, pargos, sarguetas, enguias, entre outras espécies à disposição.

 

[Texto 7042]

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26
Ago 16

Como se escreve nos jornais

Da incompetência

 

      «As provas dos problemas mentais de Wood também nunca foram apresentadas pela sua primeira advogada — apesar de ele inicialmente ter sido levado para um hospital psiquiátrico, onde um neuropsicólogo o considerou incompetente para ser julgado, não conseguia compreender o seu caso. Mas passados 15 dias foi mandado para a prisão e considerado apto para ser julgado» («Jeff Wood não puxou o gatilho mas tem execução marcada no Texas», Clara Barata, Público, 19.08.2016, p. 18).

    «Incompetente para ser julgado»? «Apto para ser julgado»? Os tribunais é que são competentes ou incompetentes para julgar. A aptidão é para outros domínios.

 

[Texto 7041]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
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25
Ago 16

Canhão ou cana da Nazaré

4,1 na escala de Richter

 

      Na sexta-feira passada, estava em Cascais e senti o sismo com epicentro (aqui) a cerca de 80 quilómetros a oeste de Peniche, no canhão da Nazaré. Só não sabia era que se pode também dizer cana — canhão ou cana da Nazaré. Mas há mais: em certos dicionários não está registada a acepção; noutros, não se percebe que esse vale pode estar situado no mar. Mais espantoso, porém, e louvável, é que se não use o termo inglês correspondente, que eu nem vou lembrar.

 

[Texto 7040]

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24
Ago 16

Como se escreve por aí

A sério?

 

      Aqui uma infeliz julga que se escreve «Ortega & Gasset». Há-de ser uma jovem superformada de agora, habituada a ler listas bibliográficas infidáveis, em que se usa o e comercial (ampersand, para a legião de anglófonos que nos segue) para indicar dois autores de uma mesma obra, como, por exemplo, Masters & Johnson. Mas não: Ortega y Gasset, filósofo espanhol, era só um.

 

[Texto 7039]

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23
Ago 16

Chulipas (só a imagem, sem cheiro)

Chulipas (1).JPG

      Já aqui falámos de chulipas, as travessas dos caminhos-de-ferro, e da sua curiosa etimologia, o termo inglês sleeper. Neste caso, estão a ser usadas para fazer o pavimento do quintal de uma moradia que foi restaurada, em Cascais. Talvez o proprietário seja um ferroviário nostálgico. Com o cheiro a óleo queimado que delas emana...

Helder Guégués às 19:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «contra-ordenação»

Ou estamos enganados?

 

   «Ontem, a GNR faz saber que, para além das 11 detenções, identificou até agora 319 pessoas e registou 872 autos de contraordenação por incumprimento do Decreto-Lei n.º 124/2006 (que estabelece as medidas e acções a desenvolver no âmbito do Sistema Nacional de Defesa da Floresta)» («Um em cada cinco incêndios é intencional. Há 50 detidos até agora», Andreia Sanches, Público, 19.08.2016, p. 7).

    E eu que pensava que o Público não seguia as regras do Acordo Ortográfico de 1990... Eu sei, eu sei: esta é uma questão menor, e há-de dever-se a negligência da jornalista. O que interessa é que haja — fora dos jornais — um meio no qual se possa chamar a atenção para estes e outros casos, alguns verdadeiros atentados à língua, e isso é tudo graças à Internet. Devemos lembrá-lo nem que seja uma vez por ano, nesta data, Dia do Internauta. 

[Texto 7038]

Helder Guégués às 07:38 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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22
Ago 16

«Cranioencefálico», de novo

É muito difícil...

 

      «Estava desfigurado, com uma hemorragia interna, e
 o diagnóstico feito no raio-X: um traumatismo crânio-encefálico» («“Porque têm imunidade podem andar a espancar pessoas?”», Ana Dias Cordeiro e Mariana Oliveira, Público, 19.08.2016, p. 6).

      Artigo que contou ainda com a colaboração de Bárbara Reis, mas nem por isso foram evitados erros. É — já o vimos tantas vezes — cranioencefálico. O texto, contudo, apresenta outras anomalias. Por exemplo, desde quando se diz assim em português?: «Dele continua a guardar-se a mesma imagem do rapaz meigo e sorridente, como na fotografia que a namorada carrega consigo

 

[Texto 7037]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | favorito
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21
Ago 16

Léxico: «descarbonização»

Nunca antes ouvi

 

      «“Queremos que as pessoas andem cada vez mais de bicicleta, deixando o automóvel e permitindo a descarbonização do centro da cidade porque não nos podemos esquecer que a prática da actividade física é o instrumento mais barato de saúde pública”, disse ao PÚBLICO o presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis, Hermínio Loureiro» («Câmara de Oliveira de Azeméis cria serviço de bicicletas eléctricas», Cristiana Faria Moreira, Público, 17.08.2016, p. 19).

 

[Texto 7036]

Helder Guégués às 12:50 | comentar | favorito
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20
Ago 16

Um sufixo emprestado

Caso, escândalo

 

      «Ron Arad admite que o que o atraiu neste projecto foi justamente a memória do escândalo de Watergate, que levou à demissão de Nixon e instituiu a palavra “gate” (portão ou barreira) como sufixo dos mais variados tipos de escândalos e controvérsias, dentro e fora dos Estados Unidos» («Watergate Hotel reabre com alusões ao escândalo», Público, 16.08.2016, p. 29).

      É verdade que este sufixo emprestado, -gate, tem esse significado, mas também é bom lembrar que, semanticamente, esse elemento nada tem que ver com o sentido originário do elemento -gate de Watergate.

 

[Texto 7035]

Helder Guégués às 08:25 | comentar | favorito
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19
Ago 16

Sobre «tanque»

A razão de um nome

 

      «O fabrico do navio terrestre começou. A bem do secretismo, os operários receberam instruções para se lhe referirem como “tanques de água”, e sugerirem vagamente que eram cisternas gigantescas destinadas ao sequioso teatro de guerra da Mesopotâmia. Em resumo: tanques ficaram; e tanques se chamam, até em russo» (O Fator Churchill, Boris Johnson. Tradução de José Mendonça da Cruz. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2015, p. 199).

 

[Texto 7034]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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18
Ago 16

«Islamófobo/islamofóbico»

Ou nenhum deles

 

      «Segundo um estudo da Univ. Estadual da Califórnia baseado em dados do FBI, nos últimos anos houve em média 12,6 crimes islamófobos por ano nos EUA» («Imã e assistente mortos em Queens. Há quem culpe o ambiente político», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 15.08.2016, p. 27).

      Não serão antes «crimes islamofóbicos»?

 

[Texto 7033] 

Helder Guégués às 07:00 | comentar | favorito
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