25
Jun 17

Léxico: «iaveísmo/iaveísta»

Ganha Jeová

 

      «A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro, na história da relação de Iavé com Israel. Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT”» («Um investigador original», Frei Bento Domingues O.P., Público, 25.06.2017, p. 31).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece iaveísmo e iaveísta, e é pena. Ficam a perder os pobres partidários do tetragrama hebraico Iavé, tanto mais que jeovista e jeovismo estão naquele dicionário. Muitas pontas soltas.

 

[Texto 7946]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | favorito
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24
Jun 17

Léxico: «caralhota»

Comprido como um

 

      «Caralhotas é a designação popular para os borbotos das camisolas. Como os restos que ficavam nos alguidares onde era preparada a massa do pão faziam lembrar borbotos, foi dada há longos anos essa designação aos pequenos pães feitos a partir desses restos. As caralhotas são bolas de pão caseiro, cozidas em forno de lenha» («Caralhotas», «Radar terra a terra»/Diário de Notícias, 24.06.2017, p. 13).

      Desconhecia o vocábulo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o como regionalismo: «pão cozido em forno de lenha, típico da região de Almeirim». Mas será um regionalismo, se é usado somente em Almeirim? Não é antes um localismo? Seja como for, o termo tem outros sentidos: em Miranda do Corvo e na zona da Lousã, é o nome que se dá a uma espécie de ameixa comprida. Ou registam todas as acepções ou não registam nenhuma.

 

[Texto 7945]

Helder Guégués às 23:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «achista»

Ofereço-lhes este

 

      «Estava toda a gente em choque, a pensar como foi possível, será engano?, e já havia tudólogos e achistas em ação desenfreada» («E todos deixaram passar a ambulância», Ana Sousa Dias, Diário de Notícias, 24.06.2017, p. 56).

    Aqui falámos do termo tudólogo, e aqui do vocábulo achismo, que, por minha sugestão, foi registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Sendo assim, falta dicionarizar agora achista.

 

[Texto 7944]

Helder Guégués às 22:55 | comentar | favorito
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Como se escreve nos jornais

Dolorosamente chamuscados

 

   Venceu o 89.º Concurso de Quadras do Jornal de Notícias, e reza assim: «Nesta noite tão tripeira,/Um mistério aconteceu:/Tu, pulavas a fogueira,/Quem se queimava, era eu...» O JN também não deixa de sair chamuscado ao publicar tal qual a quadra, assinada com o pseudónimo Dorido. O jornal não tem revisor? Não sei como não se envergonham — e logo na capa.

 

[Texto 7943]

Helder Guégués às 15:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Jun 17

Como falam os políticos (alguns)

Ciganos, jesuítas...

 

      O subprefeito Maugiron, que fora falar com Julien Sorel a casa do padre Chélan, ficou surpreendido por encontrar alguém mais jesuíta do que ele, e tentou em vão arrancar-lhe algo de mais preciso. Na era do politicamente correcto, já não podemos falar assim. Ou podemos? O eurodeputado socialista Manuel dos Santos, que chamou cigana a uma colega, acha que sim: «Afinal há mesmo racismo em Portugal: chamar a alguém “cigano(a)” é considerado um insulto e serve para construir narrativas.» A uma correligionária... Para ficar no mesmo nível, cabe-nos perguntar se não tem já idade para ir tratar das galinhas (a narrativa do idadismo).

 

[Texto 7942]

Helder Guégués às 20:55 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «britango»

Origem obscura...

 

      «Quer observar o britango e a águia perdigueira? Pode fazê-lo nas Arribas do Douro» (Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 22.06.2017, 16h53). Vamos antes observá-los no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A última, águia-perdigueira, não a regista. Ao britango (Neophron percnopterus), descreve-o assim: «ave de rapina da família dos Accipitrídeos, tem plumagem branca, com a extremidade das asas negras, cauda longa e cuneiforme e face amarela; abutre-do-egipto». A etimologia, garante-nos este dicionário, é de origem obscura. Não é: está muito bem estabelecido que o étimo é árabe. Aliás, outro nome por que é conhecida esta ave, abanto, também é de origem árabe, e, nesta acepção, aquele dicionário nem sequer a regista. E não é branco, branco, mas branco-sujo, e devia dizer-se que é o abutre mais pequeno da Europa. É a ave que figura no logótipo do Parque Natural do Douro Internacional.

 

[Texto 7941]

Helder Guégués às 11:26 | comentar | favorito
22
Jun 17

Palíndromos e outras miudezas

Mata o bicho

 

      No Mata-Bicho de ontem: «O Facebook está cheio de gente que apela a que mandem a malta do IRS ou os presos a ir limpar as matas.» Malta do IRS... Somos todos, incluindo eu, João Quadros, Bruno Nogueira... Não, foi provavelmente erro de leitura. Por azar, não se trata de um palíndromo. É antes a malta do RSI, o rendimento social de inserção. É menos gente, mas sim, ainda chegava para limpar algumas matas. Não se iludam: gosto muito do Mata-Bicho e apreciei a sugestão: «Eu tenho uma ideia melhor, que é — ponham os presos a limpar a malta do Facebook.»

 

[Texto 7940]

Helder Guégués às 14:03 | comentar | favorito
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Tradução: «downburst»

Explosão atmosférica

 

      «No esclarecimento ao primeiro-ministro, o IPMA também levanta a hipótese — em que agora trabalha e que constará de um relatório que deverá estar pronto na sexta-feira — de que ocorreu um fenómeno meteorológico chamado downburst já durante o incêndio e que pode ter acelerado a sua propagação. Trata-se de uma massa de ar descendente, que chega até ao solo e se espalha de forma radial, causando ventos fortes. Uma vez chegada ao chão, essa descarga de ar dispara para todas as direcções. Parece um tornado, mas não é» («Afinal, como começou o incêndio?», Teresa Firmino e Andrea Cunha Freitas, Público, 22.06.2017, p. 2).

      Não existirá um termo português para designar o fenómeno? Uma coisa é a facilidade em usar apenas um termo, assim como a relativa conveniência de ser o mesmo seja para um meteorologista português seja para um meteorologista chinês; outra, bem diferente, é, na divulgação dos conhecimentos, a necessidade de usar termos portugueses.

 

[Texto 7939]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (17) | favorito
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Léxico: «mesofótico»

Não a conhecem

 

      «O intercâmbio teve como objectivo descrever a distribuição dos recifes mesofóticos (situados na chamada zona de penumbra, a estreita faixa de oceano que fica entre 45,5 e 152,5 metros) da ilha, comparar a sua saúde e conectividade (física, genética e ecológica) com os do golfo do México e o sudeste dos Estados Unidos» («Cubanos e norte-americanos, juntos, na investigação a recifes», Rádio Renascença, 21.06.2017, 23h42).

      Esqueçam: não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nem noutros dicionários que consultei. Está explicado no artigo: são zonas de penumbra ou meia-luz. Se fosse uma palavra inglesa, já estava nos nossos dicionários.

 

[Texto 7938]

Helder Guégués às 10:03 | comentar | favorito
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21
Jun 17

Como escrevem os jornalistas

E a vida continua

 

     «Com pouco espaço para explanar a linha de monocarril pela densa malha urbana da cidade, a solução encontrada foi fazer passar o comboio por um conjunto de edifícios. Com efeito, a Linha 2 do Chongqing Rail Transit (CRT) atravessa o sexto piso de um bloco de apartamentos em Liziba» («E se o metro lhe entrasse pela casa dentro?», Motor 24, 21.06.2017).

     O jornalista — ou quem escreveu isto — sabe vagamente que há assim um verbo — mas qual? Errou logo na segunda letra: não é explanar, que significa tornar claro, explicar em pormenor, mas espraiar, isto é, alargar, estender. Mas que interessa, não é?, os leitores estão tão entretidos com o Facebook, que nem dão pelo erro.

 

[Texto 7937]

Helder Guégués às 22:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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