31
Jul 11

Ensino e literatura

Uma barbaridade

 

 

      «Um dos primeiros comentários foi o que a presidente da Associação de Professores de Português entendeu fazer, salvo erro no dia seguinte a serem conhecidos os resultados. Comentário a todos os títulos lamentável, porque uma classe (a de professores de Português – a nossa língua!) não pode rever-se nas observações quase indigentes que foram feitas sobre o facto de os professores continuarem a “perder” muito tempo a dar textos literários (que, subentende-se, não serviriam para nada – quando servem para aprender a pensar, senhora presidente da associação, e aprender a sentir, e a saber o que tem sido e é a cultura portuguesa!) como, entre outros, O Auto da Alma, de Gil Vicente, ou Padre António Vieira» («Há que deixar de manipular os resultado e os factos», Helena Carvalhão Buescu, Público, 31.07.2011, p. 54).

      O excerto é suficiente para mostrar, mais uma infausta vez, a que estado chegou o ensino. Como se pode prescindir da literatura no ensino e aprendizagem da língua? Já vêem a gravidade da afirmação, mormente vinda de quem vem, nada mais que a presidente da Associação de Professores de Português.

 

 

[Texto 361]

Helder Guégués às 17:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Pôr a leitura em dia»

Agora é assim, Filomena Araújo?

 

 

      Lá ficámos a saber, mesmo sem nos interessar minimamente, que Luís Marques, director-geral da SIC, voltou a escolher o Algarve para uns dias de férias em Agosto. As páginas dos jornais têm de aparecer escritas, seja lá com o que for. Isto, todavia, já nos interessa: «Nas férias, Luís Marques aproveita sempre “para colocar a leitura em dia”, o que não consegue fazer durante o resto do ano» («Luís Marques dedica-se à lavoura», Filomena Araújo, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 51). Ainda virá alguém lembrar-nos que o giro tem consagração legal.

 

[Texto 360]

Helder Guégués às 09:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Aspas

A importância das aspas

 

 

      «De acordo com Ferreira de Oliveira, que falava durante a apresentação de resultados semestrais da companhia, as estações que encerraram eram de pequena dimensão e não conseguiram atingir a rentabilidade necessária para continuar a operar. Uma realidade que está a preocupar o presidente da Galp. “Há estações de serviço a morrer em Portugal”, conclui» («Galp já encerrou 17 ‘bombas’ este ano por causa da crise», Ana Baptista, Diário de Notícias, 30.07.2011, p. 33).

      A jornalista teve receio de que o pobre e ignorante leitor supusesse, pela leitura do título, que se tratava de engenhos explosivos, pelo que, ad cautelam, usou as aspas. Com as aspas, a acepção mudou logo, não é?

 

[Texto 359] 

Helder Guégués às 09:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Jul 11

Tradução: «bruschetta»

De Itália para o Ribatejo

 

 

      Mais ou menos ao mesmo tempo que eu estava a ver no Ipad que a sardinha começa a ser usada na «alta cozinha» (o prato de Henrique Sá-Pessoa, com a sardinha salpicada com pão alentejano tostado no forno, parecia apetitoso) e me ria por ver que um repórter da RTP tinha ido entrevistar o «sushiman Aguinaldo Ferreira» (como se lia no rodapé e se ouviu a repórter, mas na verdade o nome é Agnaldo), um leitor de Queijas acabava de ver um episódio do programa MasterChef e escrevia-me: «A certa altura, num “desafio” em que o ingrediente principal era o pão, um dos concorrentes falou em bruschetta, sendo advertido por um elemento do júri para o facto de em português haver uma palavra para esse prato: torricado.»

      José Pedro Machado, por exemplo, apenas regista o vocábulo torricado (ou torriscado) como adjectivo: «que se torriscou; excessivamente torrado (falando-se de fatias de pão); crestado, queimado pelo calor». Na Wikipédia, porém, lê-se que «o torricado é um prato típico da região do Ribatejo, tradicionalmente associado ao trabalho do campo, especialmente dos trabalhadores vitícolas e aos pescadores dos valados do Tejo da área da Azambuja. Consiste numa forma prática de cozinhar o pão, torrando-o e untando-o de azeite e alho, de forma a acompanhar bacalhau ou sardinhas assadas, embora também seja usual como acompanhamento de carne». Ora, bruschetta (já muito empregado na sua forma aportuguesada, brusqueta) é a «fetta di pane abbrustolito condita con olio, sale, aglio». Parece-me, pois, bem que se use «torricado» em vez da palavra italiana. E o facto de a proposta vir de alguém ligado à gastronomia deixa-nos algumas esperanças.

 

 

[Texto 358]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Jul 11
30
Jul 11

Infinitivo pretérito

Quando, exactamente?

 

 

      «Relendo o número 13 [de A Bem a Língua Portuguesa], de Janeiro-Fevereiro de 1972, lembrei-me de lê-lo e comentá-lo com o meu pai. Como jovem arquitecto naval, ele tinha desenhado vários cacilheiros e fascinava-o a dificuldade de arranjar palavras portuguesas para ferry-boat. Cacilheiro era uma solução engraçada mas desgraçadamente local. Como chamar as ferribotas com outros destinos que não Cacilhas?» («O canal da Manga», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.07.2011, p. 31).

      Quando é que Miguel Esteves Cardoso leu o boletim da SLP ao pai? Em 2011, tempo da escrita, ou antes? A dúvida levou-me a pesquisar na Internet. Cá está: Joaquim Carlos Esteves Cardoso † 1994. A crónica começa assim: «A Bem da Língua Portuguesa: assim se chama, com justiça, o Boletim [sic] da Sociedade de Língua Portuguesa. Esta semana um amigo nosso deu-nos uma dúzia deles.» (Se escreveu a crónica no domingo, 24, quer dizer que lhos tinham oferecido nesse mesmo dia, porque a semana começa no domingo. Logo, em princípio, se não é ficção, terá sido na semana anterior. Mas a questão não é esta.) Como está escrito, o leitor é levado a pensar que, relendo agora, em Julho de 2011, o boletim n.º 13, se lembrou de o ler ao pai — o que sabemos ser impossível porque este já faleceu. Ora, só podemos concluir que o tempo verbal não é o correcto. Correcto seria ter usado o infinitivo pretérito impessoal: «lembrei-me [então] de o ter lido e comentado [antes] com o meu pai».

      «Lembrei-me de ter lido nos jornais locais que o grande ator e sua companhia davam espetáculos em Lima» (Solo de Clarineta, Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1984, p. 334).

 

 

[Texto 357]

 

Helder Guégués às 13:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Jul 11

O valor dos nomes

Perto ou longe

 

 

      Os nomes valem o que valem. Ao comando do exército prussiano (ou «prusso», como leio aqui e também é correcto mas pouco empregado) estava o marechal Blücher, que queria que a que ficou conhecida como Batalha de Waterloo ficasse conhecida como Batalha de La Belle Alliance. Wellington, à frente do exército anglo-holandês, insistiu em manter o seu hábito de nomear as batalhas em função do lugar onde tinha pernoitado na véspera.

      Há uma polémica, virulenta e escarninha, de Camilo, de que me recordo apenas vagamente, sobre determinada livraria (de Viterbo?) não estar localizada onde o nome fazia supor que devia estar. Alguém se lembra em que obra se encontra? E alguma vez teremos toda a obra de Camilo digitalizada e disponível na Internet?

 

 

[Texto 356] 

Helder Guégués às 15:14 | comentar | ver comentários (16) | favorito
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«O Público errou»

E voltou a errar

 

 

      Página 32 da edição de hoje do Público: «No texto “Pouca obra para um projecto ambicioso”, publicado ontem no Local Lisboa, saiu incompleta a frase “Os custos mensais de funcionamento da estrutura da Frente Tejo rondam os 60.000 euros por mês”.» Está a revelar-se uma vocação, isto de não perderem uma oportunidade de errar.

 

 

[Texto 355]

Helder Guégués às 11:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Jul 11

Uma frase

Economiza, pá

 

 

      Como me apareceu aqui uma semelhante, escrita por um filósofo, retomo a frase já analisada no Assim Mesmo: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se podem ver fazer nos circos» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 3.05.2011).

      Correcto é, como vimos então, com o verbo na 3.ª pessoa do singular. Observem, contudo, que não é necessário, nesse tipo de estrutura, incluir o verbo “fazer”, pois ele está subentendido pelo contexto. Outra vez e melhor: «Inicialmente, a definição de “malabarismo” remetia apenas para a prática de determinados movimentos de contorcionismo e de jogos de grande destreza física como, por exemplo, manejar vários objectos ao mesmo tempo, como se pode ver nos circos.» Aliás, até o plural é escusado: «como se pode ver no circo».

 

[Texto 354] 

 

Helder Guégués às 00:14 | comentar | favorito
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28
Jul 11

Léxico: «abatis(es)»

Mais para trás  

 

 

      «Uma das técnicas utilizadas pelos guerrilheiros para dificultar o avanço das tropas portuguesas era derrubar árvores sobre picadas, os abatises» (Guerra Colonial: um repórter em Angola, Carlos de Matos Gomes e Fernando Farina. Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 55).

      Palavra quimbunda? Ná. Portuguesa, importada de França: de abatis (ou abbatis), «obstacle artificiel formé d’arbres abattus». É, com mais rigor, o obstáculo defensivo feito de troncos e galhos aguçados de árvores abatidas, destinado a dificultar o avanço do inimigo. Para o Dicionário Houaiss, o primeiro registo na língua é de meados do século XIX, erro óbvio que atribuo à variante antiga do vocábulo ser «abatiz(es)». Assim, talvez «abatis» tenha sido usado pela primeira vez no século XIX, mas encontraremos «abatiz» uns bons séculos atrás. Não raro, a intuição anda muito longe da academia...

 

 

[Texto 353] 

Helder Guégués às 23:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Etimologia: «britânico»

Nem eles saberão

 

 

      Li algures, não sei onde: «The Britons (meaning ‘painted ones’, as they painted themselves blue) fought in the sea to prevent the landing, accompanied by huge dogs.» Sabia, caro Francisco Agarez? Bem, mas isto não nos interessa muito: somos «lusos», como os jornais gratuitos não se cansam de nos lembrar. Recebemos o vocábulo «britânico» do latim, britannĭcus.

 

 [Texto 352] 

Helder Guégués às 19:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Jul 11

Concordância

Ora toma: verbo identificacional

 

 

      Filomena Crespo não se conteve: «Isto hoje não é difícil. Pode baralhá-la um bocadinho, mas não é difícil.» «Qual destas frases é que está gramaticalmente correcta? «a) O que o turista pretende é apenas informações. b) O que o turista pretende são apenas informações.»

      «Dra. Sandra, ajude-nos lá nesta resposta. Será que está correcta, não está correcta...» «A frase correcta é a frase B: “O que o turista pretende são apenas informações.” No nosso Jogo da Língua de hoje, mais uma questão sintáctica. Regra geral, o predicado concorda com o sujeito. Portanto, o sujeito desencadeia a concordância verbal. Mas quando nós estamos perante o verbo “ser” identificacional, que é o caso, há uma regra sintáctica da língua que diz: o sujeito concorda com o elemento... o verbo, aliás, o verbo “ser” vai para o plural se houver um elemento no plural, mesmo que seja o predicativo do sujeito, que é o caso. “Informações” não é o sujeito da frase. “Informações” é o predicativo do sujeito. Mas como estamos perante o verbo “ser” identificacional, o verbo ser vai concordar, neste caso é uma excepção na língua, concorda com o predicativo do sujeito. Querem mais exemplos? “A vida não são rosas” e não “a vida não é rosas”. “A vida”, que é o sujeito, perde aí o... o... autoridade sobre a concordância. “A vida não são rosas.” “O casamento não são rosas”. “O que o turista pretende são informações.” Alínea b).»

      Não há unanimidade em relação a esta questão, apesar do que possa parecer. Queiram ver as páginas 22 e 23 da Sintaxe Histórica, aqui ao lado, e as páginas 558 e seguintes da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 37.ª ed., 2002).

 

[Texto 351] 

Helder Guégués às 16:06 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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