30
Set 11

Rosália e Rosalia

Em nome da lei

 

 

      A directora do Pavilhão do Conhecimento, Rosalia Vargas, está a ser entrevistada no Quinta Essência, na Antena 2. A avó materna, espanhola, chamava-se Rosalia. Na escola, passou a ser Rosália. O nome tinha de ter acento! Ainda hoje não consta da lista de nomes admitidos. Poderia ser Rosamar, ou mesmo Rosandra ou Rosanete ou, vá, Rosélia ou Rosina — jamais Rosalia, demasiado castelhano — ou será demasiado galego? E é um nome bonito, que evoca as Rosalias, a festa dos Romanos em que se atiravam flores para cima das campas. Rosas, claro.

 

 [Texto 537] 

Helder Guégués às 23:46 | comentar | favorito
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Como se escreve nos jornais

Sendo assim, preferimos em inglês

 

 

      «“Gosto de receber atenção. Foi por essa razão que aceitei o convite para falar na BBC. Apostar na bolsa é um passatempo, não um negócio. Falo muito e adoro toda a ideia de falar em público.” Depois da enorme polémica gerada em torno das declarações de Alessio Rastani à BBC na segunda-feira, foi com estas palavras que este suposto corretor da bolsa de Londres se desmascarou a si próprio. Ao Daily Telegraph garantiu ontem que mantém “tudo aquilo que disse”, mas que não é um corretor independente, expressão usada pela BBC para o identificar» («Rastani: o falso corretor só queria atenção», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 29.09.2011, p. 24).

      E é assim que se diz em português, cara Catarina Reis da Fonseca? Teria sido preferível, acho eu, ter fingido que se esquecera de traduzir: «I love the whole idea of public speaking.»

 

 [Texto 536] 

Helder Guégués às 13:48 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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30
Set 11

«Tratar-se de»

Ainda vai demorar

 

 

      «Fernanda sempre notou o “sotaque inglês” do vizinho da frente, mas ela e os outros moradores desconheciam que ele era um cidadão norte-americano, apesar da caixa de correio à sua porta com a inscrição US mail denunciar a sua origem. Fernanda e o vizinho do lado Vítor Louçada notaram que Jorge era visitado por “casais de cor, com sotaque inglês”, sobretudo no Verão e em alguns fins-de-semana de aniversários. Supõem que se tratavam de “familiares e amigos”» («O sr. Jorge era um vizinho prestável», Rute Coelho, Diário de Notícias, 30.09.2011, p. 19).

      Um dia, todos os jornalistas — pelo menos eles — saberão que a construção «tratar-se de», quando significa estar em causa, ser o caso de, é impessoal, pelo que o verbo se conjuga na terceira pessoa do singular. Até lá, paciência — e vão-se mas é tratar.

 

 

[Texto 535] 

Helder Guégués às 10:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Set 11
29
Set 11

O que se diz na televisão

Grande piada

 

 

      Humorista que é humorista fala de tudo — mesmo do que não domina. No 5 para a Meia-Noite de ontem, Nilton quis saber o que os seus convidados, Fernando Costa, presidente da Câmara Municipal das Caldas da Rainha, e Cristina Esteves, jornalista da RTP, pensavam do Acordo Ortográfico. Ele tem ideias claras sobre o assunto: «“Zé-povinho” perdeu o IVA, para já... O hífen, o hífen...»

 

 

[Texto 534] 

Helder Guégués às 11:13 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Set 11

Acordo Ortográfico

Para, para, por favor!

 

 

      Juro. A primeira frase pós-acordo que me confundiu mesmo: «No regresso para à entrada e acende um cigarro.» (No prelo.)

 

[Texto 533] 

Helder Guégués às 12:39 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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Léxico: «céfalo-caudal»

Uma lição no centro de saúde

 

 

      As três enfermeiras (uma junta espontânea, propiciada pelo pouco que fazer) viram bem e tiveram uma quase certeza: não era varicela — que tem uma progressão céfalo-caudal. Como toda a gente sabe, aliás. A médica escudou-se num mutismo irritante. «Acha que é varicela?» Não era — mas receitou Zyrtec e Fucicort. Pode ser que faça bem. Já que ninguém sabe o que é, ao menos que desapareça.

 

[Texto 532] 

Helder Guégués às 12:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Set 11

Concordância

É claro que não

 

 

      «Parece que não. Bruce McCall, como tantos bons músicos e comediantes que pensamos ser americanos dos EUA, é canadiano, mais norte-americano ainda do que aqueles estado-unidenses que têm a lata de se dizerem, simplesmente, americanos» («Fora os turistas», Miguel Esteves Cardoso, Público, 28.09.2011, p. 31).

      «Mais uma vez, devemos criar a consciência de que Deus age em nós e nos outros, sem termos que prender-nos ao nosso tempo, aos nossos desejos que pensamos serem os melhores» (Os Jesuítas em Moçambique, 1541-1991, José A. Alves de Sousa. Braga: Livraria Apostolado da Imprensa, 1991, p. 66).

 

 

[Texto 531] 

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (30) | favorito
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27
Set 11

Aposto e pontuação

Há sempre quem

 

 

      «Vítor Serpa, director d’A Bola [,] é também um insigne agente secreto da escola de George Smiley, brilhantemente encarnado por Alec Guinness na BBC e agora redefinido, com o “fulgor baço” de Pessoa, por Gary Oldman, no belo filme de Tomas Alfredson que é Tinker Tailor Soldier Spy» («O faro e a fruta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.09.2011, p. 31). É pouco mas de boa vontade: o aposto vem sempre separado por vírgulas dos demais termos da oração. Claro que o nosso cronista saberá — mas como há quem não saiba, fica a lição.

 

[Texto 530] 

Helder Guégués às 19:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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De «Vietename» a «melhorezinhos»

Então leiam

 

 

      Um artista da escrita escreveu aqui «melhorezinhos», o que me fez lembrar de um caso semelhante de epêntese: nos idos de 1950, escrevia-se correntemente na imprensa portuguesa Vietename. Sabiam? «A crise do Vietename ameaça reflectir-se desfavoràvelmente nas relações franco-americanas», lia-se na edição de 28 de Abril de 1955 do Diário Popular. E lá aparece um desenho do rosto de Ho Chi Minh, «o ditador do Vietename do Norte».

 

[Texto 529] 

Helder Guégués às 12:09 | comentar | ver comentários (9) | favorito
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27
Set 11

Vocabulário Ortográfico Comum

Que voltas vão dar


 

      É notícia de ontem: os lexicógrafos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) estão reunidos em Cabo Verde para definir a metodologia destinada a «consolidar» os dois vocabulários ortográficos já existentes. Gilvan Moller, o director executivo do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), afirmou que «nesta reunião, vamos criar a metodologia para a consolidação dos dois vocabulários que já existem em Portugal e no Brasil num só, a partir de uma base informática comum e usando os mesmos critérios de incorporação das palavras», o que deverá estar pronto até à Cimeira de Maputo, prevista para Julho de 2012.

      Sempre dissemos, os cépticos, que jamais iria haver um vocabulário ortográfico comum — agora talvez tenhamos de passar a dizer: «Vamos ver o que sai.» Quanto a mim, só espero para ver que voltas especiosas vão dar ao conceito de comunidade para o adequarem ao que vão engendrar.

 

[Texto 528]

Helder Guégués às 06:10 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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