31
Out 11

Tradução: «spider hole»

Eles talvez saibam

 

 

      Na minha família mais próxima, com tantos homens, só um primo de minha mãe, por sinal o mais franzino, fraca-figura, imbecil mesmo, esteve no Ultramar. Veio incólume da Guiné e o juízo, ao que parece, não está pior do que antes de ter embarcado a defender o império. Ah, mas o intróito vai longo... só estava a pensar que os militares, sobretudo estes que estiveram na guerra, hão-de saber qual a designação portuguesa para spider hole, o buraco de aranha que descobrimos com a captura de Saddam Hussein.

 

[Texto 627] 

Helder Guégués às 23:19 | comentar | ver comentários (10) | favorito
Etiquetas:

Acordo Ortográfico

Séculos de novilíngua, então

 

 

      «Disse-se aqui, na semana passada, que nem Saramago escapava ao acordo ortográfico. Não é verdade. Saramago foi, talvez, um pioneiro das adesões post mortem. Agora vêm outros, aliás com um argumento bastante singelo: o de que “a língua está sempre a mudar”. E assim Camões, Gil Vicente, Camilo e outros mais que se verá estão a ser implacavelmente traduzidos para a novilíngua nacional para venda a preços módicos, nas bancas já a partir de amanhã» («Taprobana, meu», Nuno Pacheco, «P2»/Público, 31.10.2011, p. 22).

      Terá Nuno Pacheco lido alguma vez Camões na ortografia original? Ou Gil Vicente? Ou, mais próximo, mesmo Camilo? E os contemporâneos de Nuno Pacheco, todos nós? Bah, que grande argumento.

 

 

[Texto 626] 

Helder Guégués às 21:01 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas:
31
Out 11

Infinitivo: flexionado ou inflexionado?

«Romance sinfónico», dizem eles

 

 

      Um leitor quer saber o que pensamos aqui sobre o uso do infinitivo pessoal na obra As Luzes de Leonor, de Maria Teresa Horta, de que extraiu o seguinte trecho (que afirma ser «uma amostra bastante representativa [!] das mil páginas do livro»): «Deixando atrás de ti um brevíssimo rasto de cravos e rosas entreabertas, onde no seu perfume de almíscar sempre te descubro pelo avesso da severidade exigida pelas tuas próprias regras. Teimando tu, Leonor, em seguires no trilho oposto ao do teu nascimento, lutando por te tornares mais livre, a viver conforme os estudos e os talentos a que te propões, e dessa maneira a desenhares as emoções e os modos, as dúvidas e as obsessões no mapa onde se inscreve o teu destino: por entre montes e rios, mares e caminhos de ervas daninhas e lírios» (As Luzes de Leonor, Maria Teresa Horta. Lisboa: Dom Quixote, 2011).

 

 

[Texto 625] 

Helder Guégués às 19:48 | comentar | ver comentários (15) | favorito
Etiquetas:
30
Out 11

«Inimigo figadal»

Como esta

 

 

      A confusão não é de hoje, mas agora, aqui à minha frente, preto no branco, ainda parece mais tremenda. Fala-se de reis e aios, e o autor, português, escreve «inimigo fidagal». Por um pouco era «fidalgal», o que não destoaria de tudo o resto. Não, não, não: é figadal que se diz, de fígado, ou seja, profundo, íntimo.

 

 

[Texto 624]

Helder Guégués às 10:01 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas:
30
Out 11

«Chattering classes»

Há sempre pior

 

 

      O autor quer como abreviação de «supermercado» — super. Assim, em itálico. Ora todas as abreviações obtêm, pelo seu mero uso mais ou menos alargado, o estatuto de palavra plena. Como «híper/híperes», como já vimos no Assim Mesmo.

      E a propósito de abreviações vocabulares, lembro-me sempre dos campeões, os Franceses. «Intelectual», por exemplo, fica intello. Por associação de ideias, chego a outra questão: como traduzir a expressão anglo-saxónica chattering classes? Em francês, intellos de gauche; em espanhol, intelectualóides. Quando no Courrier Internacional alguém a traduziu por «intelectuais de esquerda», Pacheco Pereira, abruptamente, zurziu na publicação: «uma enormidade como tradução». Fernando Madrinha, por sua vez, até pelo atabalhoamento do texto, zurziu em Pacheco Pereira. Que diriam ambos se vissem aqui o meu autor a verter por «classes ruidosas»?

 

[Texto 623]

Helder Guégués às 07:34 | comentar | ver comentários (8) | favorito
Etiquetas:
29
Out 11

«Billion, trillion, quadrillion»

Olhe que não

 

 

      «Nada como os noticiários para nos alargar a cultura. Há vinte anos, só os historiadores sabiam relacionar algum facto com Sarajevo: “Aquela cidade onde começou a I Guerra Mundial, um tiro num arquiduque que acabou em 19 milhões de mortos…” Depois, os telejornais com tiros de snipers habituaram-nos à cidade que todos já sabemos capital da Bósnia. Os noticiários alargam-nos a geografia, é um cortejo de desgraças mas como tem homens dentro podem ser emocionantes como a música e as imagens desesperadas de Emir Kusturica (para falar num filho de Sarajevo). Os últimos tempos, porém, ensinam-nos coisas secas. Há poucos anos, até jornalistas obrigados a ter cuidado para não passarem por pública ignorância escorregavam no billion americano, que traduziam por bilião. Hoje, graças aos empréstimos da troika e à recapitalização da banca, todos sabemos que mil milhões é uma coisa, e coisa de nove zeros, e que seria um manifesto exagero dizer que o banqueiro Fernando Ulrich aceitava receber como reforço de capitais 1,717 biliões. É só 1,717 mil milhões. Bilião, já sabemos todos, tem entre nós 12 zeros, e quando o dizemos é o que os americanos chamam trillion. Isso para vos dizer que os noticiários destes dias ensinam-nos coisas desnecessárias. Como número demasiado, para mim, basta o 22 que Cavaco leva na comitiva. É coisa já da ordem a que os americanos chamam quadrillion (15 zeros)» («A comitiva em forma de exagero», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 56).

      Quase todos os dias vejo o contrário. Não, Ferreira Fernandes, nem todos sabemos.

 

 

[Texto 622] 

Helder Guégués às 00:47 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas:
29
Out 11

Como se escreve nos jornais

Saudades da picada

 

 

      Em Castelo Branco, um militar reformado matou um vizinho com vários tiros de uma carabina 1.22 modificada. Parece. Os jornalistas já estão a abandonar o «presumível», mas restam-lhes outras formas de lavar as mãos. «O suspeito, que vivia com uma a [sic] companheira, está à guarda da Polícia Judiciária até ser presente hoje ao Tribunal Judicial de Castelo Branco» («Ex-militar mata vizinho a tiro por causa do ladrar do cão», Célia Domingues, Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 20). Mas isto foi no fim, porque no parágrafo anterior há mais certezas: «O autor dos disparos é militar reformado do Ultramar e terá ainda sido agente da PSP.» Stress pós-traumático, aposto. Carabina, munições, dois punhais... Só faltavam os turras para torrar com as Armalites, as Kalashnikovs, as Shpagins...

 

 

[Texto 621] 

Helder Guégués às 00:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
Etiquetas:
28
Out 11

Como se escreve nos jornais

Está feito — e mal

 

 

      «No final do próximo mês, o Comité Intergovernamental da Convenção da UNESCO fará a sua deliberação oficial quanto à candidatura do fado a Património Imaterial da Humanidade, mas ontem o organismo fez já um parecer positivo à candidatura do fado, tendo esta sido mesmo distinguida como exemplo de boas práticas, a ser seguido por outros Estados membros [sic] que queiram apresentar uma candidatura ao mesmo programa» («Candidatura do fado considerada exemplar», João Moço, Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 46).

      «Fazer uma deliberação»? «Fazer um parecer»? Podemos, ao menos, variar os verbos?

 

[Texto 620]

 

Helder Guégués às 23:51 | comentar | favorito
Etiquetas:

Ortografia: «homem-forte»

Não estará só

 

 

      «Daniel B. Burke, veterano dos media nos EUA, foi um dos homens-fortes responsáveis pelo crescimento da indústria televisiva americana» («Um grande líder dos media e um visionário dos negócios», Diário de Notícias, 28.10.2011, p. 43).

      Com tantos e tais homens compostos — homem-bom, Homem-Deus, homem-orquestra, homem-rã, homem-sanduíche ­—, como já uma vez tive oportunidade de dizer, estranho é que não esteja já dicionarizado. («Media» sem aspas nem itálico é que continua a causar-me engulhos. Ainda por cima, a palavra é dispensável.)

 

[Texto 619] 

Helder Guégués às 23:28 | comentar | favorito
Etiquetas:
28
Out 11

«Dicionário Luís de Camões»

Só agora

 

      Na segunda quinzena de Novembro, a Caminho lança o Dicionário Luís de Camões, fruto de cinco anos de trabalho de uma equipa coordenada por Vítor Aguiar e Silva. Já tardava.  (E vai mesmo chamar-se Dicionário Luís de Camões? É que a editora já tem o Dicionário de Camilo Castelo Branco e o Dicionário de Eça de Queiroz...

 

[Texto 618]

Helder Guégués às 23:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas:
27
Out 11
27
Out 11

«Bill of Rights»

Creio que não

 

 

      Posso não estar a lembrar-me bem, mas creio que nunca antes vi a expressão Bill of Rights traduzida. Creio mesmo que em Direito Comparado é sempre assim que se usa. Agora vejo-a aqui vertida para «Carta dos Direitos». Numa das tais coincidências espantosas, ontem mesmo ouvi na Antena 1 que se está a comemorar a ratificação do Bill of Rights. Estariam a referir-se, sei agora, ao ciclo de conferências «O que é a América hoje?», que está a decorrer na Casa da Música.

 

 

[Texto 617] 

Helder Guégués às 23:17 | comentar | ver comentários (6) | favorito
Etiquetas: