31
Jan 12

Tradução: «agent en faction»

Sr. agente

 

 

      Uma mulher foi raptada numa rua de Paris. A guardar a cena do crime, fica, durante toda a noite, um agent en faction. «Agente de vigia», verteu o tradutor. Não diríamos melhor de plantão, porque estar de plantão é estar de vigia? Ou só na esquadra é que um agente está de plantão?

      «A porta da antecâmara abre-se e o agente de plantão acode, espavorido» (Uma Aventura Inquietante, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1981, p. 78).

 

[Texto 1046]

Helder Guégués às 20:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Five-dollar words»

Caro Paulo Rangel, se nos lê

 

 

      «Costumo ler», escreve-me Francisco Agarez, «com atenção os artigos de Paulo Rangel no Público, às terças-feiras. Acho-os inteligentes, estimulantes e globalmente bem escritos, pese embora alguma propensão para o “falar caro”. É rara a semana em que não tropeço num sinal dessa propensão. Hoje, por exemplo, escreve o articulista no parágrafo 2. do seu artigo [«Em defesa de mais liberdade para os deputados», p. 28]: “Alguns, mais maquiavélicos, chegaram a insinuar que se curava de uma manobra de facção, industriada por nostálgicos de Sócrates, que querem atrapalhar a liderança de Seguro.” É da minha vista ou nada autoriza esta utilização de “se curava” em vez de “se tratava”?»

      Eu não usaria, é o que posso dizer. E também noto essa escusada propensão — que tem cura. Faz-me lembrar uma personagem de um livro de um autor norte-americano que estou a ler: He also used the big words, the five-dollar words...

 

[Texto 1045] 

Helder Guégués às 11:54 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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«Ângelus»

Porque não?

 

 

      «O Papa Bento XVI libertou ontem duas pompas [sic] brancas perfeitas, símbolos da paz, após o Angelus — mas as pombas, talvez num mau presságio, recusavam-se a deixar a janela do Papa e partir para os céus de Roma levando a esperança da paz» («Vaticano. Pombas da Paz não queriam deixar o Papa», Público, 30.01.2012, p. 16).

      Também esta, reparem, está aportuguesada, ou semiaportuguesada: Ângelus, como se lê no Dicionário Houaiss.

 

[Texto 1044]

Helder Guégués às 11:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Vala comum»

Na fossa

 

 

      Rosa Veloso, anteontem, de Madrid: «Familiares dos vencidos sabem apenas que estão por recuperar mais de 100 mil corpos sepultados em fossas comuns de toda a Espanha, isto com base numa lista fornecida pelas câmaras municipais e outras organizações públicas consultadas pelo juiz Garzón quando em 2008 decidiu investigar os crimes do regime fascista.» E, qual causídica, mas aqui está correcto: «Contudo, duas associações de extrema-direita decidiram processar o conhecido juiz, acusando-o de prevaricação por vulnerar a lei de amnistia de 1977, aprovada durante a transição para a democracia, isto é, pré-constitucional.» Uma escolha de palavras que não seria a minha: «organizações públicas» e «associações de extrema-direita».

      Vala comum: sepultura onde se enterram em conjunto muitos cadáveres. Também há fossas sépticas.

 

[Texto 1043]

 

Helder Guégués às 11:11 | comentar | favorito
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«Corpus» oral

Estamos quase lá

 

 

      Da entrada de hoje do Ciberdúvidas: «Já fazia falta um dicionário com entradas áudio, como o Macmillan online. Perguntas que nos chegam sobre a pronúncia em português europeu de palavras tão frequentes como rosa, prestação, rubrica, espetador, caracterizar, subsídios, icebergue, beisebol, coeficiente, enredo, retórica, etc., etc., ficavam respondidas num abrir e fechar de olhos, ou seja, num clique. Está lançado o repto ao ILTEC.»

      Já fazia falta um dicionário com entradas de áudio? Mas já tínhamos outros... Quanto ao repto ao ILTEC, bem, já tem um corpus oral, e a ferramenta, o Spock, o que no Ciberdúvidas sabem, pois a hiperligação remete para ali. Hão-de querer dizer que o ILTEC devia alargar o corpus oral. Podia. Devia. Entretanto, devia também corrigir algumas das transcrições e, quando o contexto é demasiado pequeno, alargá-lo, para tornar perceptível o vocábulo pesquisado. O conceito é muito melhor do que o da Forvo, pois são dadas pronúncias em contexto real, não condicionado.

 

[Texto 1042]

Helder Guégués às 10:26 | comentar | ver comentários (19) | favorito
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«Fãs incondicionais»

Não me condiciones

 

 

      Rosa Veloso, ontem, de Madrid: «José Mourinho raramente sai de casa fora das deslocações do futebol. Ontem à noite, abriu uma das poucas excepções, melhor, a única em mais de ano e meio que vive em Madrid. Ele e a mulher, fãs incondicionáveis da actriz Eunice Muñoz, foram vê-la na peça onde contracenou com Maria José Paschoal, O Cerco a Leningrado, no Teatro Belas-Artes.»

      Não é assim, cara Rosa Veloso. Incondicional, isto é, que não está sujeito a qualquer condição ou restrição. E quem diz «fã», é claro, diz «sequaz», «adepto», «partidário»: «Modesto servo de Deus, partidário incondicional do coronel, modelo de fé cristã e de civismo grapiúna, padre Afonso pecava pela gula, comia por um regimento» (Tocaia Grande, Jorge Amado. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 46).

 

 

[Texto 1041] 

Helder Guégués às 09:17 | comentar | favorito
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Não lhe agradecemos

Qual o objectivo?

 

 

      «Simão é o aluno mais novo da turma. “Gosto de estudar chinês, é cansativo, requer muita paciência, mas lá se vai...”, diz descontraído ao P2. Para acrescentar: “Tem de se praticar muito. O mais difícil é escrever os caracteres.” E o que é um “caractere” (carácter)? [...] Neste caso, explica, estamos a falar de “chinês língua”, mas se pensarmos em “chinês pessoa”, então “ainda temos de juntar a esse ‘caractere’ mais um outro, o de ‘pessoa’”» («Isto para mim não é chinês», Rita Pimenta, «P2»/Público, 30.01.2012, pp. 6-7).

      Todo o empenhamento da jornalista foi reproduzir a pronúncia errónea do vocábulo, e, como não estamos na rádio, de caminho ensina a escrever mal. E, claro, também ensina a despontuar as frases.

 

[Texto 1040]

Helder Guégués às 00:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Jan 12

Os Feteiras

Ora muito bem

 

 

      «Mas não só da política se alimenta a verdadeira telenovela da vida dos Feteiras» («Lúcio Feteira. Um super-homem português esquecido», Nuno Ramos de Almeida, «Liv»/i, 28.01.2012, p. 8).

 

[Texto 1039]

Helder Guégués às 00:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Jan 12
30
Jan 12

«Batique» e não «batik»

Escolhem o pior

 

 

      «No artigo intitulado Black Fashion Power, Dolivo chega mesmo a explicar como os Obama [sic], referência da “black-geoisie” a quem faz sucessivos elogios, conseguem vestir integrando “todos os códigos brancos” sem deixar de manter a sua ligação à comunidade negra através de elementos étnicos, como as conchas que Michelle tantas vezes usa em colares e as aplicações em batik de alguns dos seus vestidos» («Moda Obama. Jornalista da Elle acusada de racismo», «P2»/Público, 30.01.2012, p. 22).

      É a segunda vez, numa semana, que vejo o termo. Contudo, há muito que o aportuguesamento batique anda por aí.

 

[Texto 1038]

Helder Guégués às 23:52 | comentar | favorito
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