29
Fev 12

«Fita do tempo»

Ora esta

 

 

      Estamos sempre — qual é a dúvida? — a aprender. Numa mensagem de correio electrónico, um militar fala-me da «fita do tempo» de certas actividades. Nunca tinha lido ou ouvido tal expressão. Distraí-me em algum momento, pois Boaventura de Sousa Santos tem, sei-o agora, uma obra com o título A Fita do Tempo da Revolução (Edições Afrontamento). Na sinopse, pode ler-se: «O texto que vos apresento tem um nome estranho, Fita do Tempo. Não é uma metáfora poética sobre o passar do tempo. É o nome militar do registo de operações. Tal como na Marinha há o diário de bordo, no Exército há a fita do tempo. Trata-se do registo das operações que na noite de 24 para 25 de Abril de 1974 derrubaram a ditadura...»

 

[Texto 1158]

Helder Guégués às 17:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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A abreviatura: FFAA

Abreviaturas

 

 

   «As FAA deverão dispor de estruturas, dispositivos e forças em condições de, etc.» E por ali abaixo, dezenas de vezes, FAA. Não pode ser: se dobra o A, de «Armadas», também tem de dobrar o F, de «Força». FFAA. Claro que nunca mais ouvi ou li a expressão «Forças Armadas» que não me lembrasse da «Força Armada» do preclaro VPV.

  «O objectivo era, creio bem, sair das FFAA logo que pudessem» (Os Anos Decisivos: Portugal 1962-1985. Um Testemunho, César de Oliveira. Lisboa: Editorial Presença, 1993, p. 124).

 

[Texto 1157] 

Helder Guégués às 15:59 | comentar | favorito
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«8 p. 100»

Esta é nova

 

 

      Comecei a ler Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro, na 6.ª edição, de 1991, da Livraria Sá da Costa Editora. Lembrei-me do que escreveu aqui Montexto sobre o géografo: «Aproveitemos igualmente nós pelos cabelos esta oportunidade, mas de dizer bem — tão difícil, de rara, — para saudar em Orlando Ribeiro um cientista que era também um óptimo escritor, que se lê melhor e com mais proveito do que muitos da chamada literatura amena. Um prazer lembrar aqui o título Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico.» Logo nas primeiras vinte linhas, vi algo que nunca antes vira: «A sua gente representa cerca de 250 milhões, apenas 8 p. 100 da humanidade em 1,5 p. 100 da superfície emersa do Globo» (p. 1). Caro Fernando Ferreira, já conhecia esta notação?

 

[Texto 1156]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Fev 12

Tradução: «fiscal»

A pressa e tal

 

 

      «Após declarar perante o juiz durante mais de 16 horas, o interrogatório a Iñaki Urdangarín prosseguiu pela noite dentro sob o comando do fiscal anticorrupção» («Resposta evasiva de Urdangarín pode levar infanta ao juiz», Jornal de Notícias, 27.02.2012, p. 29).

      São tão bons tradutores, no Jornal de Notícias, como os da RTP. Não lhes ocorre que o termo «fiscal», entre nós, não se refere a quem exerce funções em tribunais. O fiscal castelhano é o correspondente ao nosso procurador adjunto. Dementres, é melhor frequentarem, se o caso se arrastar, um curso de Espanhol Jurídico. Ora deixem cá ver... Em 30 horas e por 300 e tal euros, podem aprender alguma coisa. Ou gratuitamente, aqui no Linguagista.

 

[Texto 1155]

Helder Guégués às 07:58 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Fev 12

Léxico: «dementres»

Enquanto e não

 

 

      «[...] ou só dementres agora sim nos víamos?» Na última edição da revista Ler, num artigo sobre a obra de Fernando Assis Pacheco, outro Fernando, Venâncio, e cito de cor, afirma que a palavra «dementres», usada pelo autor de Respiração Assistida, nunca antes vira imprensa. Sem contar, suponho, com os dicionários. Nem Fr. Fortunato de São Boaventura. Nem Teófilo Braga. «Emmentes» (sinónimo, sugere Morais, para evitar equívocos com «dementes») cheguei eu a ouvir no Alentejo. Em francês antigo, assim como em castelhano antigo (e, actualmente, sob a forma mientras), também se regista o termo, tudo com origem, tem-se alvitrado, no latim coloquial dum interim.

 

[Texto 1154]

Helder Guégués às 22:21 | comentar | ver comentários (11) | favorito
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Língua e racismo

Estáquio vs. D’Elboux

 

 

      «O Dantas é um cigano! O Dantas é meio cigano! O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!» Se fosse hoje e estivesse no Brasil, Almada Negreiros arriscava-se a levar com um processo em cima. «O Ministério Público Federal (MPF)», lê-se no Estadão, «entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para tirar de circulação o Dicionário Houaiss, um dos mais conceituados. A publicação conteria, em uma das acepções da palavra cigano, expressões “pejorativas e preconceituosas” e praticaria racismo. A Justiça não se manifestou.» Ao menos isso. «Para o procurador Cléber Eustáquio Neves, o texto afronta a Constituição e pode ser considerado racismo. “Ao se ler em um dicionário que cigano significa aquele que trapaceia, ainda que se deixe expresso que é pejorativo, fica claro o caráter discriminatório da publicação.” A advogada Sonia Maria D’Elboux, especialista em direitos autorais, discorda da ação. “A Justiça não pode apagar a História. É natural que um grande dicionário registre esse significado.”»

 

[Texto 1153]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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A etimologia

Aplacar as iras

 

 

      A etimologia... A quem ocorre, perante a palavra «duvidar», por exemplo, que parte de duo, tal como «duelo», «dualismo», «dobro», «dúplice»? «Pacare», escreveu Elviro Rocha Gomes na comunicação «O Homem e a Língua» (separata da revista Labor, n.os 284 e 285, 1970, p. 12), «significava aplacar e agora significa pagar; deve ser porque quem paga aplaca as iras do credor.»

      Elviro Rocha Gomes, professor, poeta, escritor, tradutor e um grande divulgador da poesia alemã entre nós, também lembrou, neste texto de uma conferência no Círculo Cultural do Algarve, que até «no que diz respeito a antropónimos, a língua mais uma vez se impõe ao homem, como o provam os numerosos Lisboas, Portos, e o Dr. Paulo Quintela, que se assina assim mas é Paulo Pires, natural de Quintela».

 

[Texto 1152] 

Helder Guégués às 19:37 | comentar | favorito
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28
Fev 12

Requerimentos e contestações

Estamos em tribunal

 

 

      Desta vez, foi a jornalista Isabel S. Costa, da RTP, que acompanhou o caso de Iñaki Urdangarín, genro do rei de Espanha. O advogado, Mario Pascual Vives, declarou que o duque de Palma «atendió a todos los requerimientos que le formularon por parte de la Casa de su Majestad el Rey». Nas legendas, apareceu: «respondeu a todos os requerimentos». Ficámos também a saber, pelas legendas, que o genro do rei de Espanha «conseguiu contestar completamente a todas e cada pergunta que lhe foram fazendo».

 

[Texto 1151]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Fev 12

Léxico: «pistolo»

Onde está?

 

 

      «Se apenas dispunha desse recurso, se não trazia no bolso um daqueles pistolos com que nas feiras, quando havia zaragata, os homens se matavam uns aos outros, estavam liquidados» (Bichos, Miguel Torga. Revisão de João Vidigal. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2010, 4.ª ed., p. 37).

      A única acepção, nos poucos dicionários que acolhem o vocábulo, que encontro é a de cunha de ferro para rachar pedra, termo colhido no Fundão. «Ah, o patrão não ter um trabuco dos tais!»

 

[Texto 1150]

Helder Guégués às 22:22 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Saiu bem

Con coraje, con tesón

 

 

      Raquel Gomes, jornalista da RTP, continua a acompanhar o caso de Iñaki Urdangarín, genro do rei de Espanha. A tradução das declarações do advogado à porta do Tribunal de Palma de Maiorca saiu bem, vá lá. O duque de Palma continua «con coraje, con tesón y con ganas de poderse explicar», disse o advogado, Mario Pascual Vives. Não traduziram, como receei, por «tesão», mas por «determinação». E vai haver acareação? «No lo sé. Las decisiones las tiene que tomar su señoría.» «Meritíssimo», muito bem.

 

[Texto 1149]

Helder Guégués às 09:47 | comentar | favorito
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27
Fev 12

Como se fala na rádio

C’est dommage

 

 

      Ana Maria Ramos no noticiário das três da tarde de ontem na TSF: «O menino amante da música [Maurice André] assume a paixão pelo trompete e após dois anos de solfejo, o pai coloca-o nas aulas de um amigo, Monsieur Léon Barthélémy, músico do Conservatório, seguidor do mestre Merri Franquin, com quem o jovem aprende a ler pautas e a comprar livros como método de estudo. Quatro anos depois, o tutor convence o pai de Maurice à criança abandonar o trabalho na mina e a mandá-lo para o Conservatório na capital francesa.»

      Além de tudo o resto, nem a pronúncia da palavra francesa «monsieur» sai já escorreita da boca dos jornalistas.

 

[Texto 1148] 

Helder Guégués às 00:29 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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