31
Jan 13

Léxico: «carrinha celular»

Estamos sempre a tempo

 

 

      «A carrinha celular partiu do Estabelecimento Prisional de Braga, transportando reclusos que seriam julgados no Tribunal de Guimarães e foi já quase a chegar à cidade que, na descida da autoestrada, após o alto da Morreira, na freguesia de Brito, que [sic] o veículo entrou em despiste» («Reclusos e guardas prisionais feridos em acidente na A11», Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 21).

      Só hoje, depois de eu ter feito a sugestão, é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passou a registar a locução carrinha celular.

 

[Texto 2555]

Helder Guégués às 14:32 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas:

Outros em «-cídio»

Incompleto

 

 

      E, a propósito, fui ver como trata o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora os termos terminados em –cídio. Trata mal. Assim, se regista gaticídio, o acto ou efeito de matar gato(s), não regista avunculicídio, a morte do tio materno. Pior ainda: regista animicida, aquele ou aquilo que mata a alma, e não regista animicídio. Chega, como amostra. Para uma pequena lista de termos com este elemento, ver aqui no Assim Mesmo.

 

[Texto 2554]

Helder Guégués às 08:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:
31
Jan 13

Sobre «austericídio»

O contrário do que se pretende

 

 

      «“Este contexto de pressão coletiva, em resultado da política de ‘austericídio’ que o governo e a troika estão a levar à prática, afeta todas as famílias portuguesas. E as mulheres nas famílias são quem mais paga os custos”, afirmou [Ana Gomes], em Bruxelas, em declarações ao DN» («Ana Gomes acusa Governo de “austericídio”», J. F. G., Diário de Notícias, 30.01.2013, p. 12).

      Mau! Mas Ana Gomes não estará a dizer precisamente o contrário do que pretende? Austericídio só pode ser a morte da austeridade, como «homicídio» é a morte de uma pessoa praticada por outra. A eurodeputada socialista queria dizer talvez democídio, que é a morte do próprio povo às mãos do Estado.

 

[Texto 2553]

 

Helder Guégués às 08:09 | comentar | favorito
Etiquetas:
30
Jan 13

Léxico: «baforada»

Inspirar e expirar

 

 

      «Dá uma baforada no cigarro, sai do centro, nem mais uma palavra» («Recordações dolorosas para quem tenta viver com a perda e... a saudade», Luís Godinho e Luís Fontes, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 4).

      Pensamos logo em fumaça, mas esta é a «quantidade de fumo aspirado de uma vez», tal como a passa é o «acto de inalação profunda do tabaco ou droga que se está a fumar», ao passo que a baforada é o «sopro de fumo de cigarro, charuto, etc.» Tudo segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas torço o nariz àquele «acto de inalação». Não chegava «inalação», que já é o acto ou efeito de inalar?

 

[Texto 2552]

Helder Guégués às 19:15 | comentar | ver comentários (5) | favorito
Etiquetas:

Tombuctu e Bamaco

Gostam mais do bambara

 

 

      «O presidente da Câmara de Tombuctu, Halley Ousmane, que se encontra em Bamaco, considerou o incêndio como um “verdadeiro crime cultural”» («Destruição de manuscritos no Mali é “crime cultural”», Catarina Reis da Fonseca, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 24).

      Na rádio e na televisão, só se ouve Timbuktu. No nome da capital, fazem sempre gala de usar o k. Respeitam mais o bambara do que o português.

 

[Texto 2551]

Helder Guégués às 17:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

«Chancelada pela Editorial Caminho»

Também está bem

 

 

      «Segundo Irene Fialho, com esta edição, chancelada pela Editorial Caminho, “não se pretende empreender qualquer tipo de estudo crítico sobre a biografia, a personalidade ou a escrita de Eça de Queiroz”» («Cartas trocadas entre Eça e mulher em livro», Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 49).

      O habitual é escrever-se «com chancela da editora X», mas é outra forma, igualmente correcta, de o dizer.

 

[Texto 2550]

Helder Guégués às 10:29 | comentar | favorito
Etiquetas:

Léxico contrastivo: «guria»

Brasileirismo

 

 

      «“Os primeiros a sair tentavam puxar quem estava lá dentro. Apareciam mãos, braços na porta entre a cortina de fumaça. Puxamos várias pessoas. Eu, inclusive, puxei uma guria pelos cabelos. Foi um caos, o maior desespero”, contou o estudante de medicina, [sic] Murilo de Toledo Tiecher, ao jornal Zero Hora» («Quatro detidos e muitas dúvidas no inquérito à tragédia no Brasil», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 23).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista o termo, usado no Brasil, é a «criança do sexo feminino» ou a «namorada». No caso em apreço, não é. Segundo o Dicionário Houaiss, é a «moça com quem se namora; namorada, garota». Nas mesmas circunstâncias, um jovem português diria rapariga, miúda, talvez garina.

 

[Texto 2549] 

Helder Guégués às 10:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Léxico: «branquela(s)»

Devia estar

 

 

      «Abebe Selassie é o escurinho, como o outro da troika é o careca e nem sei a qual dos dois branquelas me refiro, confundo-os (daí a escolha do sindicalista em especificar Selassie, o mais nítido dos três)» («Sei lá se é racismo? Sei, não é!», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 56).

      Com tantos termos pejorativos e ofensivos nos dicionários, este não está dicionarizado. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

      «Cercados por grades, pelo medo, cercados pela espera, para todos os lados dos poucos lados para onde nos podemos virar, merda pelos cantos que ninguém limpou, um cheiro constante eterno, mijo, suor que já não se lava, passos nos corredores, quem vem lá, basta ouvir um portão abrir e logo quem vem lá, sempre a mesma pergunta, todos os dias, todos os minutos que ouvimos com estrondo, badaladas de ferro nas têmporas, quem vem lá, o padre finalmente, o Américo que chama para nos alinharmos, outro russo, ou outro que não sendo russo é como se fosse, mais um preto, ciganada, um branquelas magrito, um gordo de bigode que não se percebe se é branco ou mulato ou monhé, um gordo de bigode que não gostou que o gajo de trás lhe buzinasse no semáforo, trazia um ferro ali à mão, o gajo de trás não volta a buzinar, ia atrasado para o emprego e podes apostar que o despediam se não tivesse ido a enterrar no dia seguinte» (Canário, Rodrigo Guedes de Carvalho. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, pp. 60-61).

 

[Texto 2548]

Helder Guégués às 09:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

O AOLP90 à medida

Corte e costura

 

 

      «O fato de a jovem ser menor faz que não seja responsabilizada criminalmente» («Adelaide Ferreira ouvida por juiz», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 18).

      Com um acordo à medida, aparecem mais fatos que nunca. Essa é que é essa. Mera gralha? Dantes nunca se via.

 

[Texto 2547]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:

Léxico: «homicídio oblativo»

Mesmo para ateus

 

 

      «No caso da morte dos filhos, ela é encarada pela mãe como um homicídio oblativo, ou seja, é visto como uma prova de amor, é um homicídio de misericórdia, para poupar os filhos a um sofrimento insuportável» (psiquiatra Pedro Afonso, em declarações ao Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 12).

 

[Texto 2546]

Helder Guégués às 09:44 | comentar | favorito
Etiquetas:
30
Jan 13

Léxico: «precatório-cheque»

Já não há

 

 

      «Mas, ontem à tarde, quando se apresentou na agência da Caixa Geral de Depósitos (CGD) de Moscavide para levar [sic] o dinheiro, o advogado de Elvas soube que a conta indicada no precatório cheque emitido pela 8. [sic] Vara Criminal de Lisboa, onde decorre o processo, estava vazia. [...] Hugo Marçal saiu ontem de Oliveira do Bairro, onde agora reside, com o objetivo de levantar o precatório cheque na secretaria do tribunal e depois ir ao banco sacar o dinheiro. [...] Ou seja, os precatórios cheques haviam desaparecido dando lugar aos documentos únicos de cobrança (DUC). [...] Antes, o tribunal passava o precatório cheque para ser levantado no banco» («Tribunal devolve 10 mil euros a Marçal em cheque careca», Licínio Lima, Diário de Notícias, 29.01.2013, p. 17).

      Não é por ter deixado de existir que não merece estar dicionarizado. Em alguns acórdãos e diplomas legais, surge hifenizado, precatório-cheque, que é como se vê num decreto de 1918: «Os depósitos obrigatórios serão levantados por meio de precatórios-cheques, assinados pelas autoridade que tiverem jurisdição sôbre os depósitos, nos termos das leis e segundo a constituição dos mesmos depósitos.»

 

[Texto 2545] 

Helder Guégués às 09:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: