28
Fev 13

Como se escreve nos jornais

Eu não usaria

 

 

      «Marcelo Rebelo de Sousa, que acompanhou a onda de estudantes até à porta, diria depois à SIC que os jovens da JSD deviam ter saído da sala antes de Passos para formarem uma espécie de cordão de defesa e abafarem o protesto. Mas ontem isso acabou por não acontecer porque o próprio Passos, numa imagem de bravata, quis enfrentar o protesto — como que o desvalorizando» («Primeiro-ministro recebido por estudantes de Direito com coelho enforcado», Maria Lopes, Público, 28.02.2013, p. 9).

      Há-de ser a parte de opinião... Não será excessivo usar a palavra bravata ­— ameaça arrogante; fanfarronice; bazófia; jactância — neste contexto?

 

[Texto 2641]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Ortografia: «shakespeariano»

Alguma dúvida?

 

 

      «No Corriere della Sera, o historiador Ernesto Galli della Loggia vai mais longe. “Querer mandar para casa uma classe política inteira não será um objectivo político (...) e também um ambicioso programa eleitoral?” Perante uma classe política “fechada na impotência do seu fingido poder”, não será este “bufão shakespeareano, na sua loucura, o único capaz de dizer o que os outros não podem dizer?”» («Beppe Grillo ocupa a cena e diz: “Bersani é um morto que fala”», Jorge Almeida Fernandes, Público, 28.02.2013, p. 21).

      Errado. É shakespeariano, com i, como se pode confirmar em qualquer dicionário.

 

[Texto 2640] 

Helder Guégués às 10:17 | comentar | favorito
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28
Fev 13

«Um multiplex/dois multiplex»

Não é assim, não

 

 

      «A cidade de Guimarães, que no ano passado foi Capital Europeia da Cultura, deixou de ter exibição comercial de cinema. Os dois multiplexes que serviam a população – o Guimarães Shopping, com seis ecrãs, e o Espaço Guimarães, com cinco – foram fechados por falta de energia» («Capital Europeia da Cultura 2012 está sem cinema», Público, 28.02.2013, p. 29).

      Erradíssimo. Sr. jornalista, veja, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: multiplex é nome masculino de 2 números. Assim, diz-se um multiplex, dois multiplex.

 

[Texto 2639]

Helder Guégués às 10:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Fev 13

«Manif»? «Manifs»?

Estava aqui a pensar

 

 

      «A ameaça que alguns elementos radicais têm lançado nas redes sociais de divulgar na Internet fotos com nomes, dados pessoais e moradas dos agentes da investigação criminal da PSP – incentivando à vingança contra aqueles que dizem ser “infiltrados” da polícia nas “manifs” – vai ter uma resposta firme da polícia, garantiu ao DN uma fonte da hierarquia da PSP» («PSP vai processar quem divulgar moradas e nome dos agentes da ‘manif’», Rute Coelho, Diário de Notícias, 18.11.2012, p. 23).

      Aqui, porque aparecem singular e plural, é flagrante: não se pode dizer que, grafada desta maneira, seja palavra afeiçoada ao português. Há muito que propus que esta redução vocabular se escrevesse manife/manifes, tal como profe/profes. Dá-se o infeliz caso de o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora as registar tal como surgem no texto acima. Não chega envolvê-las no cordão sanitário das aspas: é preciso expurgar a escrita destas formas.

 

[Texto 2638]

Helder Guégués às 21:16 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «subtexto»

Deixem-me adivinhar: vem do inglês

 

 

      «MacFarlane, cujo humor politicamente incorrecto gera tantos milhões quanto divide opiniões, foi o anfitrião da cerimónia de domingo, em Los Angeles. Desde o Dolby Theatre viu-se MacFarlane cantar We saw your boobs (“vimos as tuas mamas”) e enumerar actrizes que se despiram no ecrã, assistiu-se à rábula em que confundia Jamie Foxx com Eddie Murphy (subtexto, “os pretos são todos iguais”) ou à confissão de que o actor que melhor entrou na cabeça de Lincoln não foi Daniel Day-Lewis, vencedor do Óscar de Melhor Actor, mas John Wilkies Booth (exactamente, o homem que assassinou aquele Presidente americano)» («Seth MacFarlane: grosseiro ou vítima de quem quer moralidade no humor?», Mário Lopes, Público, 27.02.2013, p. 24).

 

[Texto 2637] 

Helder Guégués às 17:13 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Léxico: «ex»

Esqueçam as aspas

 

 

      «A loura bonita e “ex” de Brad Pitt está a ser acusada de não socializar com os outros actores durante a rodagem do filme baseado no livro The Switch, do escritor Elmore Leonard. A acusação, neste meio, nunca tem rosto» («Jennifer Aniston: acusam-na de não “socializar”», Público, 27.02.2013, p. 35).

      Para quê as aspas, podemos saber? Por ser coloquial, querem ver? Nem precisava, mas por acaso está dicionarizado.

 

[Texto 2636]

Helder Guégués às 17:06 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Mulher/esposa»

Respeitinho

 

 

      «A semelhança entre as teses de mestrado do vereador da Câmara de Viseu e da sua esposa estão a gerar polémica e já há quem defenda a demissão de Guilherme Almeida dos cargos que ocupa. O autarca é líder do PSD local e é apontado como um dos candidatos do PSD à sucessão de Fernando Ruas na câmara» («Vereador de Viseu tem tese parecida com a da mulher», Sandra Rodrigues, Público, 27.02.2013, p. 15).

      Não é muito comum, nos jornais, usar-se o termo «esposa» em vez de «mulher», sobretudo num contexto como este.

 

[Texto 2635]

Helder Guégués às 16:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «parola»

Fiquemos à parola

 

 

      Hoje, ouvi na rádio uma parte de uma reportagem em directo da última audiência geral de Bento XVI. A certa altura, alguém usou, o que é natural, pois estava a falar italiano, a palavra «parola». Pois bem, nós também a temos (emprestada pela língua italiana), e ainda não saiu dos dicionários.

      «— Que pretendeis de mim, Gomes Bochardo? Falai prestes, que estou de afogadilho e nada azado para muita parola» (A Última Dona de S. Nicolau, Arnaldo Gama. Porto: Casa Editora de A. Figueirinhas, Lda., 1937, p. 14).

 

[Texto 2634]

Helder Guégués às 16:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Se não/senão»

Vejamos se ainda se lembram...

 

 

      Será assim? «Acusar-se Carlos Azevedo de assédio homossexual é-me difícil se não impossível de compreender. Essas coisas, recomenda a prudência que se pratiquem às escondidas e na intimidade (embora eventualmente se executem às claras e na praça pública)» («Bispo Carlos Azevedo: um testemunho», Henrique Manuel Pereira (professor na Universidade do Porto), Público, 27.02.2013, p. 43).

      Ou assim? «É extremamente difícil, senão impossível, em muitos casos, distinguir o autor pelo estilo das pequenas composições de redondilha. Por isso, a tendência para as incorporar, salvo apocrifia declarada, é desculpável» (Álvaro J. da Costa Pimpão, na introdução às Rimas de Camões. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, p. xxxix).

       Todas as respostas aqui: «Tradução: “Sinon”», o quinto texto mais comentado do blogue.

 

[Texto 2633]

Helder Guégués às 16:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Fev 13

Sobre «benjamim»

Alvíssaras

 

 

        Não, pelo que vejo, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, mas no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado escreveu: «Benjamim, adj. e s.» Será o único dicionário a fazê-lo? Um substantivo adjectivado, isto é, tomado, empregado como adjectivo, não é assim tão raro, mas muito menos, como sabemos, do que a substantivação de um vocábulo pertencente a qualquer das restantes nove classes gramaticais. Montexto já aqui afirmou saber, pela leitura de Jorge Daupiás, que Arnaldo Gama o empregara como adjectivo. Não apenas ele; também Silveira Bueno reparou. Eis o passo: «Camilla, o seu beijinho, a filha benjamim já o pozera nos apuros que sabemos quando elle teve de partir para o Roussillon; e mais tarde, quando a trouxe de Encourados para Areias, também lhe não tirou poucas noutes de somno, por se lhe ter despertado a consciencia de que a filha estava finalmente mulher» (O Sargento-Mór de Villar, 1.º vol., Arnaldo Gama. Porto: Tipografia do Comércio, 1863, p. 14).

 

[Texto 2632] 

Helder Guégués às 13:07 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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