31
Mar 13

Léxico: «laustíbia» e «chicuelina»

Em muito poucos

 

 

      «“Não quero!”, berrei, e ia para lhe dar uma laustíbia. [...] Depreende-se disto que fui leitor assíduo da folha, mas na primeira oportunidade fiz uma chicuelina ao Joe Louis: entrei na Casa do Soldado e paguei-lhe a conta do mês, que somava dois dólares e vinte e cinco cêntimos, dando ordens ao cabo para dizer ao Joe Louis que o pai enviara de Hampton uma certa quantia» (Walt ou o Quente e o Frio, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Livraria Bertrand, 2.ª edição, [1979], p. 66).

      Nenhuma delas está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E, se a primeira apenas a vi duas vezes na minha vida, a segunda é relativamente comum.

 

[Texto 2726] 

Helder Guégués às 11:16 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Outra vez as aspas

Rodeados de água

 

 

      «Estes prédios devolutos integravam as “ilhas” da Tapada, Maria Vitorina, Capela e Olímpia, habitadas até ao inverno de 2000, quando ocorreram fortes derrocadas que ameaçaram a segurança das dezenas de famílias que ali residiam, entre os Guindais e as Fontainhas» («Derrocada nos Guindais obriga a demolir casas devolutas», Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 24).

      Ficamos a saber: se for a porção de terra emersa rodeada de água, é sem aspas; se for o conjunto de casas pobres, é com aspas. Na lógica dos jornalistas.

 

[Texto 2725]

Helder Guégués às 11:10 | comentar | favorito

«Interarmas»?

Hum...

 

 

      «Nesse sentido, o acordo autoriza “represálias vigorosas” que levarão a Coreia do Norte a “lamentar amargamente” qualquer ação provocadora, como avisou o chefe do Estado-Maior Interarmas sul-coreano, general Jung Seung-Jo» («Pyongyang ameaça atacar terra natal de Obama», Albano Matos, Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 24).

      Creio que é a segunda vez que vejo o termo «interarmas», que até parece português, mas nunca se sabe. Bem, mas antes isto do que traduzirem à letra chief of the Joint Chiefs of Staff.

      Nos nomes chineses e coreanos em que haja um elemento composto, o segundo termo costuma ter inicial minúscula: Tsé-tung, Kai-chek, En-lai...

 

[Texto 2724]

Helder Guégués às 10:45 | comentar | ver comentários (3) | favorito
31
Mar 13

«Bagos de borracha»

Chumbada de... borracha

 

 

      «A polícia garante que “foram emitidas ordens [de paragem] aos suspeitos” e que foram efetuados dois disparos de shot gun “para o ar, com recurso a munições menos letais”, ou seja, bagos de borracha» («Polícia sob ameaça atinge jovens a tiro», Luís Fontes, Diário de Notícias, 22.03.2013, p. 21). Se há bagos de chumbo, natural é que houvesse bagos de borracha.

      «Havia gente que gritava e depois deram outro tiro. À esquerda estralejaram ramos dilacerados, mas nenhum bago de chumbo o atingiu desta vez» (Objecto Quase, José Saramago. Lisboa: Editorial Caminho, 1984, p. 123).

 

[Texto 2723]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
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30
Mar 13
30
Mar 13

«Quando são perguntados...»

Este não emendaria Vieira

 

 

      Deputado social-democrata Leitão Amaro, ontem na Assembleia da República: «Quando são perguntados sobre os vossos compromissos, não respondem. Ficou claro: vocês só têm um projecto: chegar ao poder. O Partido Socialista, senhoras e senhores deputados, o Partido Socialista só tem um projecto: chegar ao poder, fazer em cada segundo, mesmo que seja o contrário do que disseram ontem, mas o que lhe pareça mais popular e mais atractivo para os votos.»

      Infelizmente, cinca ali na troca de pronomes — «o maior escândalo da língua portuguesa», nas palavras de Montexto —, pois junta na mesmíssima curta frase «vossos» e «respondem». Enfim, ninguém é perfeito, e mesmo a muitos dos que se ocupam das letras «soa mal» o que está correcto. Já se habituaram e não sabem o que é certo e o que é errado.

 

[Texto 2722]

Helder Guégués às 07:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Mar 13
29
Mar 13

Ortografia: «Perúgia»

Está mal

 

 

      «O Supremo Tribunal de Itália anulou ontem a absolvição da americana Amanda Knox e do italiano Raffaele Sollecito pela morte de Meredith Kercher, uma estudante britânica, em 2007, em Perúgia» («Knox vê anulada absolvição por morte de amiga», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 25).

      Nem mais. Perúgia, pois claro, e não Perugia nem Perúsia. Contudo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, em que abundam os aportuguesamentos toponímicos, sobre «perusino» diz-se que é «relativo ou pertencente a Perúsia (actual Perugia), antiga cidade da Etrúria (Itália), ou que é seu natural ou habitante».

 

[Texto 2721]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | favorito
28
Mar 13
28
Mar 13

Ortografia: «alto-duriense»

Também têm culpa

 

 

      Ontem à tarde, passei perto do Mercado de Benfica e reparei num cartaz em que se anunciava uma «feira de produtos transmontanos e altodurienses». Errado, e a culpa é em parte dos dicionários. É em vão que procuramos a palavra no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo. «Note-se que às locuções toponímicas, como a quaisquer locuções do vocabulário comum, não se aplica o hífen: Alto Alentejo, Alto Douro, Beira Alta, Costa do Sol, Entre Douro e Minho, etc. Mas escreveremos alto-alentejano para designar o habitante do Alto Alentejo, como alto-duriense, baixo-alentejano, etc., das respectivas regiões» (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XIII, p. 204).

 

[Texto 2720]

Helder Guégués às 06:34 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Mar 13

Tradução: «wind chime»

Ainda não está

 

 

      Estava à espera de encontrar no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o vocábulo «espanta-espíritos», que oiço e leio tantas vezes, mas não. «Sino de vento», como acabei de ver, não me parece um termo muito feliz para traduzir wind chime. Mas, enfim, há-de haver quem pense o contrário.

 

[Texto 2719]

Helder Guégués às 11:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «ázimo»

Vá lá

 

 

      «Judeus ortodoxos participaram, no domingo, no mayim shelanu, uma cerimónia em que recolhem água de uma nascente natural, perto de Jerusalém. A água é utilizada para fazer matza, o pão ázimo tradicional para ser comido durante o período judaico da Páscoa, que começa na segunda-feira. Durante este período é proibido aos judeus consumir qualquer produto com fermento. A Páscoa celebra a fuga dos judeus do Egito antigo, como descrito no Livro do Êxodo» («Mayim shelanu: a Páscoa judaica», Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 6).

      Quase milagroso, como se lembraram do termo. Conhecendo-os como nós os conhecemos, mais natural era que traduzissem o inglês unleavened. Vá lá. Há ainda a variante asmo, como lembrei há sete anos no Assim Mesmo.

 

[Texto 2718]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Mar 13

«Camauro» e «portenho»

Tu quoque

 

 

      «Eu sei que alguns — que já lhe tinham lido várias obras antes de Ratzinger ter escolhido o “camauro” com bordas de arminho e souberam, então, relacionar os pensamentos do filósofo bávaro com o vestuário litúrgico — sorriem, agora, com as minhas esperanças nos sapatos cambados do porteño» («Qual a gama dos BMW para o Estado?», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 27.03.2013, p. 56).

      Para quê as aspas em «camauro», que até está — e nem era preciso — nos dicionários gerais da língua portuguesa? E mais: para quê porteño, se se usa aportuguesado, portenho, há muito? Lá está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que remete para «buenairense».

 

[Texto 2717]

Helder Guégués às 09:12 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Mar 13
26
Mar 13

«Obra-prima/obra-mestra»

Prima de primeira

 

 

      João Gaspar Simões — autor injustamente esquecido, e de quem tenho ali três obras que me ofereceram recentemente e que aguardam vez para as ler — distinguia («mau grado a significação idêntica dessas expressões», acrescentava) entre obra-prima e obra-mestra. Castelhanismo ou não, o certo é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe o vocábulo «obra-mestra», embora remeta, e bem, para o verbete «obra-prima».

 

[Texto 2716]

Helder Guégués às 20:12 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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