31
Mai 13
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Mai 13

Léxico: «carrocho»

Lá num covão da serra de S. Macário

 

 

      Apesar de ser a aldeia com mais cabras em todo o País (3000 cabras para 40 habitantes), Covas do Monte, no concelho de S. Pedro do Sul, tem um queijo tradicional, hoje quase desconhecido, feito de leite de vaca, chamado carrocho. No programa Portugal em Directo de ontem, ficámos a saber como se faz: «Deitava-se [o leite] dentro de uma panela, a ferver com uma pouca de água, e depois aquilo coalhava. Ficava da forma do tacho em que estivesse. Depois deitava-lhe um bocadinho de azeite. Saía, depois quando estivesse cozido, coalhava, tirava-o fora, punha num prato e cortava às fatiinhas» (José da Cruz, presidente da junta de freguesia). «Isso aqui atrasado», disse o Sr. José da Cruz, «essa gente utilizava muito isso.» «Aqui atrasado» — José Leite de Vasconcelos também recolheu esta expressão: «aqui há um tempo».

 

[Texto 2905]

Helder Guégués às 08:48 | comentar | favorito
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30
Mai 13

Léxico: «caraquenho»

Isso está certo

 

 

      «Com as ossadas levadas para a salinha de estar, para a velha senhora continuar a ver a telenovela preferida, esta história sórdida ganharia a generosidade dos bandidos caraquenhos e bêbados baianos. Na despensa, é só uma história de netos rascas» («As ossadas da avó? Ao pé das cebolas...», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 56).

      Não há erro nenhum, pois não, caraquenho é o natural ou o habitante de Caracas.

 

[Texto 2904]

Helder Guégués às 15:06 | comentar | favorito
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«Procureur de la République»

O Sr. Moulin é procurador

 

 

      «Alexandre D. também é francês e, ao ser apanhado pela polícia em casa de uma amiga, em la Verrière (Yvelines), “reconheceu logo os factos”, disse, em conferência de imprensa, o procurador, que referiu “uma vontade de matar muito evidente” da parte do suspeito» («Jovem que atacou soldado em Paris converteu-se há pouco ao islão», Albano Matos, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 31).

      «Procurador», vá lá. Claro que ajuda — ou é determinante? — que no original seja «procureur de la République».

      «Alexandre D., 22 ans, suspect de la tentative d’assassinat du militaire samedi à La Défense, a été arrêté ce mecredi à 6h10 devant le domicile de l’une de ses amies à La Verrière (Yvelines). Pour le procureur de la République de Paris, François Molins, ce jeune homme originaire de Trappes et converti à l’islam «à la fin de sa minorité», a «agi au nom de son idéologie religieuse contre un représentant de l’Etat», ce qui relève de l’incrimination terroriste» (in Libération).

      Mas agora reparem: no jornal português lê-se «la Verrière»; no francês, «La Défense». Tem de haver sempre qualquer erro ou gralha ou distracção.

 

[Texto 2903]

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Mai 13

«Empregado/empregue»

É esse o escopo

 

 

      «De sorriso no rosto, CR7 dá mostras que não por [sic] mal empregue o tempo que esteve na sala de espectáculos de Lisboa, aproveitando o resto da folga concedida pelo Real Madrid. [...] Quanto a Rihanna também não desiludiu na hora de fazer pose e fez-se fotografar ao lado do internacional com a famosa duck face (forma dos lábios)» («Rihanna recebe Ronaldo nos bastidores do concerto em Lisboa», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 30.05.2013, p. 53).

      Empregue, diga-se lá o que se disser, não é particípio passado, mas apenas presente do conjuntivo. E o objectivo de nos fazer falar e escrever em inglês prossegue. Duck face é intraduzível, não querem ver?

 

[Texto 2902]

Helder Guégués às 08:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mai 13

«Quinhungueiro», conhece?

A hora da urologia

 

 

     É verdade que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe alguns regionalismos angolanos. Mas não muitos e não este, que Óscar Ribas registou no seu dicionário: quinhungueiro, que é o «que tem quinhunga. Aquele que não sofreu o corte do prepúcio. Incircunciso. Embora a amputação do prepúcio liberte o pénis da formação do esmegma, afecta, por outro lado, a sensibilidade da glande, pelo que outros povos estão abandonando essa prática milenar, a cuja regra Cristo não escapou» (p. 344).

      Não sei se Óscar Ribas escreveu o verbete em tempos pré-sida, mas parece que a «evidência» médica actual (que a todo o momento pode ser a oposta...) é de que a circuncisão diminui o risco de infecção pelo VIH.

 

[Texto 2901]

Helder Guégués às 16:11 | comentar | ver comentários (4) | favorito

Regionalismos angolanos

Línguas da terra

 

 

      Acabei agora mesmo de receber pelo correio um exemplar do Dicionário de Regionalismos Angolanos, de Óscar Ribas (Luanda: Ministério da Cultura, 2009, 430 pp.). Só 8 euros!? Não é nenhuma obsessão, mas vamos lá de novo ao verbete «efundula»: «Ritual de puberdade ou de nubilidade feminina. O mesmo que efico entre os Gambos, ehico entre os Muílas, e essuco entre os Dimbas e Ximbas» (p. 144). Bem, o homem sabia alguma coisa, pois não cai nos dois erros habituais quando se trata de gentílicos. Lamentavelmente, de «muchique» (ou vocábulo de grafia aproximada) nada consta.

 

[Texto 2900]

Helder Guégués às 15:36 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «superlua»

Ou perigeu

 

 

      «Nesse dia [23 de Junho] vai ser possível contemplar a maior e mais brilhante lua cheia do ano, que vai ser entre 14% maior e 30% mais brilhante do que o habitual. [...] Se a meteorologia ajudar e não houver nuvens a cobrir o horizonte, será motivo para vir à janela espreitar a superlua, como é conhecido este fenómeno» («Maior e mais brilhante lua do ano a 23 de junho», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 27).

      Superlua ou, como é mais conhecido, perigeu. Mas poderá ver-se se não houver nuvens no horizonte ou no céu?

 

 [Texto 2899]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Um toque de italiano

O sabor seria o mesmo

 

 

      «Mario De Biasi foi o grande repórter fotográfico do levantamento de Budapeste, em 1956, mas foi outra foto sua que me ficou estampada na memória. De Biasi é o autor da foto que teve o mesmo papel das alcachofras alla giudia, os contos de amores difíceis de Italo Calvino e as cores velhas de Roma – o de formar a minha ideia de Itália» («Olhares em vias de extinção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 56).

      Até na poesia de Jorge de Sena há alcachofras à judia. Porquê só umas tinturas de italiano? Já agora, carciofi alla giudia. Ou a frase toda: «De Biasi è l’autore della foto che ha avuto lo stesso ruolo dei carciofi alla giudia, di storie d’amore difficile da Italo Calvino e dei colori vecchi di Roma – per formare la mia idea di Italia.» Ou toda a crónica: «Mario De Biasi è stato il grande fotoreporter della sollevazione di Budapest nel 1956, ma, etc.»

 

 [Texto 2898] 

Helder Guégués às 11:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mai 13

«Retrete à turca»

Já vi, em Portugal

 

 

      «No sábado, segundo contou às autoridades, terá dado à luz quando estava na casa de banho, com sanitários à turca (ao nível do chão), tendo o bebé caído» («Bebé retirado com vida de um cano de esgoto», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 25).

      «A senhora viu? Espreitou? Não sabia que se chamam retrete à turca. Talvez seja mais limpeza, talvez, mas também se entopem. Aquilo é mesmo só pra se fazerem as necessidades. A gente o banho toma-o nos nossos quartos porque às vezes nem lá se pode entrar» (Este Verão o Emigrante là-bas, Olga Gonçalves. Lisboa: Moraes Editora, 1978, p. 135).

 

[Texto 2897] 

Helder Guégués às 11:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Mai 13

«O facto de»

Então, se é assim...

 

 

      «Por Charlie Sheen ter delapidado com escândalos o seu patronímico de duas gerações e por os nomes “latinos” serem hoje mais aceites nos EUA, assistimos a este regresso ao passado, oportunista como deve ser para quem está no mercado da fama» («O artista antes conhecido como Sheen», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 56).

      Estão a ver como Ferreira Fernandes não precisou de usar a muleta «o facto de»? Pois é. Por outro lado, porque há quase sempre outro lado, as aspas em «latinos» eram escusadas. Carlos Estévez não é um nome latino, ou seja, usado num país cuja língua deriva do latim e que foi influenciado pela civilização mediterrânica?

 

[Texto 2896]

Helder Guégués às 14:49 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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28
Mai 13

«Verdade verdadinha»

Os nossos queridos diminutivos

 

 

      «Verdade, verdadinha, a Noruega teve de fazer 32 poços para conseguir descobrir as suas reservas [de petróleo]», disse Ferreira de Oliveira, vice-presidente da Galp. («Só falta encontrar crude em Portugal», Diário de Notícias, 28.05.2013, p. 33).

      Expressão curiosa, não é? Como curiosas são as expressões «franqueza franquezinha» e «certeza certezinha». Nem sempre aparecem separadas por vírgulas.

  1. «E, verdade verdadinha, antes obedecer aos astros do que a outros. A nossa obediência aos astros é a um tempo involuntária e heróica. Involuntária, porque a vontade é a deles, e heróica, porque não há-de ser vencida pela dos humanos» (Nome de Guerra, José Almada Negreiros. Lisboa: INCM, 1986, p. 199).
  2. «– A sério, a sério, que não és capaz? Tens a certeza, Abel? A certeza certezinha?» (Contos da Montanha, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, 2.ª ed., p. 110).
  3. «E formulei-me a proposição debaixo de tais palavras, visto que sou animal de ar livre, de claridade, dos primeiros impulsos, da franqueza franquezinha, e dado o meio em que vivemos porque me sinto deslocado e fora do tempo» (Estrada de Santiago, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, 1985, p. 57).

 

[Texto 2895]

Helder Guégués às 14:21 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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