30
Jun 13

Nem chefias nem lideranças

Escrito na pedra-sabão

 

 

      O «escrito na pedra» da edição de ontem do Público era uma frase de Jean de La Bruyère (1645-96): «Os lugares de chefia fazem maiores os grandes homens, e mais pequenos os homens pequenos.» Desconfiei daquela «chefia» em tempos de «liderança». Fiz bem em desconfiar. A frase original é esta: «Les postes éminents rendent les grands hommes encore plus grands et les petits beaucoup plus petits.» Ou seja, o eminente tradutor não precisava para nada nem de «chefias» nem de «lideranças».

 

[Texto 3038]

Helder Guégués às 23:33 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Os Kennedy»?!

Custava tão pouco

 

 

      «Seria uma sucessão dinástica — afinal ao jeito dos Kennedy e dos Bush nos Estados Unidos, comentou o conhecido lobbyista Luigi Bisagnani no programa de rádio Un Giorno da Pecora, em que revelou ter havido um jantar na villa de Silvio Berlusconi nos arredores de Milão em que Marina convenceu o seu pai de que ela seria a melhor escolha para dar novo fôlego ao centro-direita italiano» («Depois de Silvio, Marina será o novo rosto da marca política Berlusconi?», Clara Barata, Público, 29.06.2013, p. 22).

      Os plurais dos apelidos continuam errados, não é? Tenho aqui à minha frente As Kennedys ­— sim, lembro-me que já falei nele —, traduzido por Fernanda Pinto Rodrigues (Lisboa: Editorial Minerva, 1971). Segundo parágrafo: «Terá sido uma maldição, a maldição que tem perseguido implacàvelmente todos os Kennedys?» Cara Clara Barata, dou de barato que é como já toda a gente escreve, mas é erro crasso. Emende-se. E «lobbyista» não precisa de ser grafado em itálico. E já está aportuguesado em «lobista», caso não saiba.

 

[Texto 3037]

Helder Guégués às 19:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Adesão/aderência»

Vida e linguagem

 

 

      «Ora, recentemente, o celebrado economista norte-americano afirmou que “a febre do ouro acabou” e tudo indica que tem razão. Primeiro, as cotações do metal precioso não param de cair. Depois, as bases teóricas que explicam esse movimento parecem ter uma aderência à realidade que é incontestável» («Num cenário de cotações em queda, Roubini diz que febre do ouro acabou», José Manuel Rocha, Público, 30.06.2013, p. 20).

      Há muitas confusões no uso destas palavras, parcialmente sinónimas: adesão e aderência. Neste caso concretamente, não é de ligação de superfícies que falamos. Desta preciso em dois tacos que estive esta manhã a colar com UHU, «fixação sem pregos de sancas e rodapés». «Agora com 300 g», que comprei por 4,60 nas Ferragens e Drogaria da Torre, ali na Joaquim Ereira.

      «A felicidade possível ou, o que é mais exacto, os momentos de felicidade na vida humana, só podem encontrar-se, também, nessa absorção do imediato, na adesão à realidade próxima» (Vida e Literatura, Pedro de Moura e . Lisboa: Livraria Bertrand, 1960, p. 346).

 

[Texto 3036] 

Helder Guégués às 17:21 | comentar | favorito

«Tevê» e «TV»

Ora esta

 

 

      Apesar de ver a palavra de norte a sul do País inscrita nas portas de casas de banho, não estranho nem me rala nada que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe a abreviatura WC (ou W. C.). Acho é estranho que não acolha TV nem tevê.

 

[Texto 3035]

Helder Guégués às 12:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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E «buenairense»?

Estamos pois

 

 

      «A lembrança do autor não se esgota nestas assoalhadas, espraiando-se além do programa traçado pela Associação Amigos da Casa de Ernesto Sabato, que tem contado com o apoio do Instituto da Cultura bonaerense, encarregue de organizar as visitas» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 19).

      Não seria melhor «buenairense», mais próximo do próprio topónimo? É a única forma registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E não estamos fartos de saber que «encarregado» e «empregado» são os particípios passados dos verbos «encarregar» e «empregar»?

 

[Texto 3034] 

Helder Guégués às 08:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tampas e alçapões

E o rés-do-chão?

 

 

      «Segundo os herdeiros do escritor, Valle nunca viu inconveniente em dividir o edifício com Ernesto e a respectiva família. E quem diz edifício diz até o telefone. Não raras vezes, os convidados eram surpreendidos por um homenzinho que abria uma tampa e aparecia de auscultador em riste a anunciar que a chamada era para “os de cima”» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 19).

      Já um dia andámos aqui às voltas com a tradução de bulkhead door. Neste caso, a tampa é mesmo rente ao chão, porque se trata de um alçapão. Claro que Maria Ramos Silva podia usar a palavra «alçapão», que significa simultaneamente a abertura no soalho com tampa levadiça e a própria tampa. No intertítulo do texto, lê-se: «Entre a cave e o primeiro andar». Ora, por cima da cave temos o rés-do-chão, não o primeiro andar. Não me digam que também há dúvidas sobre isto.

 

[Texto 3033]

Helder Guégués às 08:14 | comentar | favorito
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30
Jun 13

«Endereço»?

Parecido, e por isso

 

 

      «A alma de reminescências como esta mora entre paredes. Uma das curiosidades é comprovar a obsessiva organização de Sabato, bastando para isso seguir as etiquetas dos caixotes dispersos pelo endereço, como “Cartas e documentos sobre a minha conduta e os meus fundos monetários”» («Ernesto Sabato. Santos Lugares de livros, astrologia e chocolate quente para os amigos», Maria Ramos Silva, «Liv»/i, 29.06.2013, p. 18).

      Hã? «Endereço» a significar «morada» ou «casa»? Há-de ser — afinal Maria Ramos Silva está na Argentina — castelhano, e de forma ínvia. Em português, «endereço» é somente a indicação da morada, não a própria morada. E como «endereço» se pode dizer em castelhano «dirección», que significa tanto a indicação da morada como a própria morada, creio que está explicada a confusão.

 

[Texto 3032]

Helder Guégués às 08:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Jun 13

«Corretor/corrector»

Confusão total

 

 

      Está consumada a confusão total: «De acordo com a polícia, monsenhor Scarano foi o cérebro do plano com a ajuda de um corrector, Giovanni Carenzio, e de um agente dos serviços secretos, Giovanni Maria Zito, que foi suspenso há três meses da AISI, os serviços secretos domésticos italianos. A operação falhou porque Carenzio, o corrector, renegou o acordo, segundo os advogados» («Vaticano. O Monsenhor, o banqueiro e o espião presos por lavagem de dinheiro», Sérgio Soares, i, 29.06.2013, p. 32).

      A imprensa em língua inglesa afirma que Giovanni Carenzio é broker ou financier. Será corretor, financeiro.

 

[Texto 3031]

Helder Guégués às 23:46 | comentar | favorito
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Tradução: «hype»

O meu euro

 

 

     «Bird [director do Media Monitoring Africa] acrescentou que “o hype” em torno de Mandela não permite comparações com Thatcher, “a comparação é entre Mandela e a princesa Diana, e nesse caso houve a cobertura foi frenética [sic]. Naquela altura viram-se rumores semelhantes, não sobre a saúde de Diana mas sobre a forma como ela morreu”» («Obama dispensa “momento fotográfico” com Nelson Mandela», Diogo Vaz Pinto, i, 29.06.2013, p. 34).

      Para Diogo Vaz Pinto, está visto, o termo inglês «hype» é intraduzível. Inadmissível, é o que é. Tem de ser o leitor a completar o trabalho.

 

[Texto 3030]

Helder Guégués às 23:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Jun 13

Ortografia: «ioiô»

Pois enganam-se

 

 

      «Wimbledon. Um iô-iô chamado Michelle Brito» (Cátia Bruno, i, 29.06.2013, p. 51). Porque ora estava a ganhar, ora a perder. (Descrição numa legenda de uma fotografia da tenista: «irregularidade exibicional».) Pois é, mas é ioiô que se escreve. Em inglês é que se escreve com hífen, yo-yo. É muito raro ver a palavra bem escrita, talvez porque ninguém tem tempo para consultar um dicionário.

 

[Texto 3029]

Helder Guégués às 22:48 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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28
Jun 13
28
Jun 13

Não na definição

Dormir em sofás alheios

 

 

      «Um homem, residente em Lisboa, terá aproveitado o couch surfing, moda que se baseia em disponibilizar a própria casa como alojamento a viajantes estrangeiros, para atrair e violar uma turista» («Turista de couch surfing violada em Lisboa», Pedro Sales Dias, Público, 28.06.2013, p. 8).

      «Moda», a meu ver, está ali a mais. Pode estar na moda, mas isso não interessa para a definição. «Staying the night at the home of another person, especially a stranger, for free», lê-se no MacMillan.

 

[Texto 3028]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | favorito
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