31
Jul 13

Léxico: «recoleta»

Outra ignorada

 

 

      «Explicitamente sobre Ovar, Júlio Dinis escreveu apenas O Canto da Sereia, sobre o Furadouro, falando dos palheiros e das recoletas onde dormiam as famílias dos pescadores» («Os serões na província foram à beira-mar. Júlio Dinis», Raquel Ribeiro, Público, 31.07.2013, p. 29).

      Também aqui os dicionários falham. O Aulete, porém, regista que recoleta é um termo recolhido em Aveiro e é o «barracão, para vivenda, com uma só vertente de telhado». Palheiros há muitos. As recoletas são palheiros térreos e muito pobres.

 

  [Texto 3125]

Helder Guégués às 08:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Como se traduz na televisão

Dragado, calado...

 

 

      O presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, está em Portugal em visita oficial, vi no Jornal da Tarde de ontem. As legendas da sua declaração à imprensa diziam isto: «A visita visa aprofundar as relações comerciais entre os dois países e é por isso importante que o porto de Sines, em Portugal, tenha relações com os portos panamianos, assim que o Canal do Panamá for expandido. Portugal será uma das economias que mais beneficiará pelo acesso direto aos portos com calado suficiente para receber os barcos pós-alargamento, e ser assim um porto de entrada para uma grande quantidade de produtos oriundos do Oriente e da América e destinados ao mercado europeu.» «Portos com calado suficiente»? Alguém devia estar calado, isso sim. O que Ricardo Martinelli disse foi que «Portugal va ser una de las economías que más se va a beneficiar por el acceso directo que tienen sus puertos, la capacidad de tener un dragado suficiente para acomodar los barcos post-panamax [com capacidade para 12 000 a 16 00 contentores]». Calado é a distância vertical entre a parte inferior da quilha e a linha de flutuação de uma embarcação.

 

  [Texto 3124] 

Helder Guégués às 08:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Jul 13

Léxico: «surdolímpico»

Mesmo desde 2000...

 

 

      O lutador Hugo Passos, acabei de ver na televisão, conquistou o ouro nos Jogos Surdolímpicos. É o quarto título consecutivo do português na luta greco-romana, na categoria menos 66 quilos. Quanto à categoria, eu só podia competir na de menos 78 quilos, e surdo sou também eu: então estes jogos tiveram a primeira edição em Paris em 1924 e eu nunca tinha ouvido a palavra? Ah, está aqui uma parte da explicação: «A partir de 2000, os jogos passaram a ser conhecidos pelo seu nome actual “Deaflympics” ou Surdolímpicos, denominação oficial Portuguesa [sic], muitas vezes  erroneamente apelidados de “Olimpíadas dos Surdos”.»

 

  [Texto 3123]

Helder Guégués às 00:30 | comentar | favorito
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30
Jul 13

Sobre «senador», de novo

Com frequência

 

 

      «Ouvir o novo ministro [Rui Machete] classificar as perguntas mais do que legítimas que lhe eram feitas sobre o BPN — perguntas banalíssimas em qualquer país que conheça o significado do verbo “escrutinar” — como uma manifestação da “podridão dos hábitos políticos”, é daquelas atitudes que só mesmo um velho senador do Bloco Central dos interesses, a quem a democracia por vezes enfada, se lembraria de ter» («Machete kills», João Miguel Tavares, Público, 30.07.2013, p. 48).

      Com aspas ou sem aspas, a verdade é que se vai consolidando, de dia para dia, este sentido figurado do vocábulo «senador». Está capaz de ir para os dicionários.

 

  [Texto 3122]

Helder Guégués às 20:46 | comentar | favorito
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Léxico: «rebém»

Bem e rebém

 

      Não me ficou muito no ouvido, mas retive de um anúncio qualquer coisa como «para que não sejas rebém, mas rebelde». Retive apenas, é claro, o que fugia ao trivial, rebém. Foi acolhido por Morais e por Houaiss (como advérbio: duas vezes bem; muito mais, bem mais), mas não, por exemplo, pelo moderno Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, em que figura somente como substantivo, o açoite com que se castigavam os forçados. No caso do anúncio, o prefixo juntou-se ao adjectivo bem no sentido de socialmente irrepreensível ou de classe social elevada. É pena que, em vez de enriquecidos, os dicionários sejam despojados destes vocábulos e acepções.

 

  [Texto 3121]

Helder Guégués às 11:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Sufixos iniciados por z

Quarenta anos


      No primeiro semestre deste ano, foram criadas mais de 20 mil empresas em Portugal, o que representa uma subida de 18 % em relação ao mesmo período de 2012. Uma delas foi a Tales in Details (no rodapé da reportagem no Jornal da Tarde de ontem, lia-se «Tails in Details»), que produz sobretudo artigos para crianças. Mostraram uma almofada em que de um lado o Lobo Mau perguntava: «o que levas na cestinha?» Do outro lado, o Capuchinho Vermelho respondia: «levo bolos para a avózinha!» Assim, com minúsculas e o acento em «avozinha». Há quarenta anos, o artigo único do Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, estatuía: «São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z

 

  [Texto 3120]

Helder Guégués às 08:55 | comentar | favorito
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Léxico: «tramo»

Pode ser

 

 

      O maquinista do acidente de Santiago de Compostela saiu em liberdade condicional. O repórter Manuel Meneses, da RTP, foi ouvir o cidadão comum nas ruas de Compostela. «Acho bem porque, além disso, li hoje no jornal que ele terá dito que julgava que estava noutro tramo da linha.» Em todas as outras ocorrências, foi o vocábulo «troço» que se usou, mas em português «tramo» também é a secção de uma estrada ou via férrea.

 

  [Texto 3119]

Helder Guégués às 08:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Jul 13

Como se fala na televisão

Este não é carnívoro

 

 

      Um pescador, Carlos Ambrósio, de Cascais capturou um tubarão-frade com meia tonelada. A baía de Cascais encheu-se de curiosos. Também eu teria ido lá ver, mas a essa hora estava a visitar o Palácio-Convento de Mafra, talvez a contemplar a cómoda-retrete ou o bacio de prata batida, com as armas reais, de D. João VI. Mais tarde, no Telejornal, a repórter Diana Palma Duarte disse: «Chegou à hora de almoço, mas não serve para consumo. Os banhos foram interrompidos pela grandeza da pescaria, mas não há razões a temer

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que ainda não se avista o tubarão-frade.

 

  [Texto 3118]

Helder Guégués às 08:07 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Jul 13

Prova de avaliação de conhecimentos

E cá, será melhor?

 

 

      «O caracol “é um crustáceo”. E “escrúpulo” significa “pôr-do-sol”. Estes foram alguns dos erros cometidos por candidatos a professores primários, em Madrid, num exame realizado em Março, no âmbito de um concurso de professores. No total, 86% dos candidatos chumbaram num teste com perguntas a que é suposto um aluno de 12 anos saber responder» («“Será esta a melhor maneira de seleccionar professores?”», Andreia Sanches, Público, 27.07.2013, p. 8).

      Ah, está bem, agora os dicionários já registam o verbo «chumbar» como intransitivo... Quanto a é suposto + infinitivo, macaqueado do inglês, já se vê menos, felizmente.

 

  [Texto 3117]

Helder Guégués às 10:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «desorçamentação»

E está na moda

 

 

      «Para a especialista em PPP [Mariana Abrantes de Sousa], um dos principais erros cometidos foi a desorçamentação destes projectos, que levou ao actual endividamento do Estado. Depois, diz, houve “estupidez” e “aproveitamento político”» («“Portugal ainda não aprendeu com as parceiras público-privadas”», Luís Villalobos e Ana Gomes Ferreira, Público, 29.07.2013, p. 14).

      Já está registado, por exemplo, no Vocabulário Ortográfico Português, mas ainda falta em quase todos os dicionários.

 

  [Texto 3116]

Helder Guégués às 08:58 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Jul 13

Uma acepção de «redundância»

Nada supérfluo

 

 

      «Mais, quatro quilómetros antes da mudança nos carris, o mecanismo informático dos comboios de alta velocidade informa o condutor de que deve reduzir a velocidade. E como acontece nos aviões, este tipo de comboios tem um sistema de redundâncias, ou seja, se um sinal falhar, há outro. Também há redundâncias no sistema de travões» («Condutor do comboio descarrilado preso por homicídios por negligência», Ana Gomes Ferreira, Público, 28.07.2013, p. 32).

      Trata-se de um anglicismo semântico. No Merriam-Webster, redundant é o que «serving as a duplicate for preventing failure of an entire system (as a spacecraft) upon failure of a single component».

 

  [Texto 3115]

Helder Guégués às 08:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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