30
Nov 13

«Sol/sol»

Sob o jugo da ortografia

 

 

      «Alisto-me na congregação da preguiça colectiva e, qual lagarto ao Sol, espreguiço-me por entre milhares de corpos caiados por loções que conspurcam a camada do ozono e as minhas narinas. Alheio-me do bulício mergulhando no romance histórico Under the Yoke, sob a pena do pai da literatura búlgara, Ivan Vazov» («Uma pequena península do tamanho da Humanidade», Ireneu Teixeira, «Fugas»/Público, 30.11.2013, p. 30).

      Há pessoas — logo por azar, aquelas que mais escrevem — que nunca sabem quando é que o astro-rei é grafado com minúscula e quando é grafado com maiúscula. Pode não ser muito grave, decerto, mas é um erro.

      «No primeiro domingo que pude sair sòzinho fui por Lordelo abaixo, com todas as cautelas para não escorregar ou cair, descansando como lagarto ao sol, fui passar em frente da casa para farejar, para imaginar como entrar em contacto com a E. C. que eu via todos os dias, tão bonita e tão proporcionada, passar para cima e voltar a casa num ar saudável de saia escocesa e camisola, com um bom sapato de golf comprado no Harrods» (O Mundo à Minha Procura, vol. 1, Rúben A. Lisboa: Livraria Portugal, 1966, p. 167).

 

  [Texto 3608]

Helder Guégués às 17:04 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Léxico: «menorá»

Está bem

 

 

      «Este ano, por coincidência de calendários, o Dia de Ação de Graças celebrou-se na mesma data do feriado judaico do Hanukkah. E não faltou logo quem aproveitasse a ocasião para ter ideias originais, como Asher Weintraub, um menino de 10 anos, natural de Nova Iorque, que criou uma menorá em forma de peru (Menurkey) para pôr em cima da mesa da família» («Vento e frio no dia em que os EUA dão graças», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 29.11.2013, p. 25).

      Muito bem. Não está em todos os dicionários. Não está, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

  [Texto 3607]

Helder Guégués às 10:37 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «coprólito»

Excremento

 

 

      «O local, que foi identificado pelos paleontólogos em Chañares, na Argentina, tem 235 milhões de anos e foi casa de banho de dinossauros, como atestam os 30 mil coprólitos (os cocós fossilizados) ali encontrados» («Descoberta ‘casa de banho’ de dinossauros», Diário de Notícias, 29.11.2013, p. 27).

   Um termo científico, «coprólito», explicado por um termo infantil, «cocó»... Não ocorreu ao jornalista o vocábulo «excremento», que era o que se exigia ali.   

 

  [Texto 3606]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | favorito
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Ortografia: «primeira-dama»

Ora esta

 

 

      «Maria Cavaco Silva voltou a marcar presença na feira anual de solidariedade Rastrillo, para ajudar a instituição Novo Futuro. A primeira dama só faz compras nesta época em bazares de Natal e explicou o que esta feira tem de especial» («Primeira dama vai ter Natal mais poupado», A. L. S., Diário de Notícias, 29.11.2013, p. 53).

      Creio que é a terceira vez que estou a falar disto, desta tontice. Com a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, no Diário de Notícias algumas palavras perderam, indevidamente, o hífen. Esta, primeira-dama, é uma delas. Ó A. L. S., veja lá isso melhor.

 

  [Texto 3605]

Helder Guégués às 09:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Nov 13

«Que me impus»

Menos caracteres

 

 

      «O jejum que se autoimpôs», perguntou Bernardo Mariano a Pedro Burmester, «foi ab initio pensado para durar enquanto durassem as funções de Rui Rio à frente da Câmara?» («“A gestão de Rui Rio primou pela ausência de uma política cultural”», Diário de Notícias, 29.11.2013, p. 56).

      Se soubesse e quisesse, gastava menos caracteres: «Passava da meia-noite quando cheguei a casa um pouco enervada com a disciplina sobre-humana que me impus para não dizer coisas inconvenientes – estavam a merecê-las, eu é que ando sem pachorra e perdi toda a gracinha» (Domínio Público, Paulo Castilho. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011, p. 142).

 

  [Texto 3604]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Nov 13
29
Nov 13

«Tratar-se de»

Mais uma vez

 

 

      «Certo é que se tratam de “fotos turísticas simples”: “A mulher que posa frente a um monumento para afirmar ‘estivemos aqui’”, descreve. “Mas se olharmos mais de perto”, acentua, “descobrimos sempre coisas intrigantes”. Que voltas terá dado a vida do Nuno Ferreira que não se chama Nuno Ferreira? É isso que interessa a Kristoffer [Sandberg]. Mas não só. Quer partir daquele percurso com rostos mas sem nomes verdadeiros e uma história definida para, através dele, descobrir mais vida» («Kristoffer descobriu em Lisboa uma vida em fotos e faz dela um filme», Mário Lopes, Público, 29.11.2013, p. 31).

     Caro Mário Lopes, a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular.

 

 

  [Texto 3603] 

Helder Guégués às 10:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Nov 13

«Reverenda»

Pois claro

 

 

      «O exemplar leiloado pertencia à Old South Church de Boston, uma congregação que remonta a 1669 — Benjamin Franklin recebeu o baptismo nesta igreja — e que chegou a possuir cinco dos 11 exemplares existentes do chamado “Bay Psalm Book”. Um deles está hoje na Biblioteca do Congresso, outro na Universidade de Yale, em New Haven, e um terceiro na Universidade Brown, em Providence. O quarto mantém-se na Old South Church, que conservava ainda dois exemplares. Mesmo assim, a reverenda Nancy Taylor, que dirige actualmente a igreja e tomou a decisão de vender o livro de salmos, foi duramente criticada por vários fiéis» («Primeiro livro impresso nos EUA vendido por dez milhões de euros», Luís Miguel Queirós, Público, 28.11.2013, p. 31).

 

  [Texto 3602]

Helder Guégués às 23:00 | comentar | favorito
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Sobre «hemistíquio»

Alguém sabe?

 

 

      Creio que nunca tinha visto o conceito de hemistíquio em relação a metade de um versículo bíblico. Mesmo os dicionários referem-se apenas a metade de um verso alexandrino ou, por extensão de sentido, a cada uma das duas partes de qualquer verso dividido pela cesura. Contudo, em francês, segundo o Trésor, aqui ao lado, por extensão de sentido também é o «élément de six syllabes quelconques, soit dans un décasyllabe césure 4//6, soit dans une période en prose».

 

  [Texto 3601]

Helder Guégués às 22:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «arilo»

Andou lá perto

 

 

     A repórter da RTP Ana Sofia Rodrigues entrevistou ontem para o Portugal em Directo dois produtores de romã do Algarve. Um deles, José Gamboa, demonstrou (!) como se faz sumo de romã (não aconselho, é um pouco amargo) e ia dizendo: «Ela é cortada como se fosse uma laranja e espremida como se fosse uma laranja. Os grãos, que têm o nome próprio de ariscos, são completamente esmagados.» Não chamam, não senhor. Mas quente, quente: arilo. A parte comestível da romã (só 50 % do peso do fruto) é composto por 80 % de arilo, que é a parte carnuda, vermelha, e por 20 % de semente, que é a parte lenhosa.

 

  [Texto 3600]

Helder Guégués às 16:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Nov 13

Ortografia: «homem-forte»

Assim mesmo

 

 

      «Agora, a filha de 29 anos do magnata Silvio Berlusconi é a ponta de lança no afastamento do CEO e vice-presidente dos rossoneri, 40 anos mais velho e homem-forte do antigo primeiro-ministro e magnata italiano durante a ascensão do clube milanês ao topo europeu» («Berlusconi entrega Milan nas mãos da filha Barbara», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 37).

      Em 2010, terminava desta forma um texto no Assim Mesmo: «E justifica-se o hífen neste caso? Não configura um sentido diferente da simples adjunção dos vocábulos “homem” e “forte”? Como entre “braço-direito” e “braço direito”. Está aí a resposta.» Chegou a hora: por sugestão minha, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe agora o vócabulo composto homem-forte: «indivíduo que detém poder real e desempenha uma função de topo no meio em que se move».

 

  [Texto 3599]

Helder Guégués às 16:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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