28
Fev 14

«Se la mataba a golpes»

Aqui, já a sono solto

 

      «As armas iniciais não permitem matar o animal solto. A caça ou era despenhamento ou era captura num alçapão, ou em redes e laços. Uma vez a peça feita prisioneira, matavam-na às pancadas» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 81).

      Se la mataba a golpes. O tradutor quis forçosamente que ao plural do castelhano correspondesse um plural em português. Mas dizemos nós acaso assim, «às pancadas»?

 

[Texto 4150]

Helder Guégués às 20:41 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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«Desde un principio»

Assim falava a velha Zefa

 

   «O homem desde um princípio é um animal muito dado a fazer armadilhas» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 81).

   Assim também falava a velha Zefa, uma espanhola com mais de sessenta anos de permanência em Portugal. (Quantas saudades!) Palavras portuguesas, tudo o resto puro castelhano. «El hombre desde un principio es un animal muy tramposo.» Nós também temos tramposos, mas são piores do que estes.

 

[Texto 4149]

Helder Guégués às 20:25 | comentar | favorito
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«Algunos resultaban útiles»

Um pouco mais, e ficava igual

 

      «Estes fantásticos projectos de conduta eram insensatos e torpes. Mas, à força de ensaiar muitos, alguns resultavam úteis e ficavam fixados como aquisições prodigiosas» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 80).

   Reparem: «alguns resultavam úteis». É, como costuma dizer Montexto, castelhano com palavras portuguesas. «Algunos resultaban útiles». Nós não dizemos assim, e a culpa não é minha.

 

[Texto 4148]

Helder Guégués às 18:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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«Anatomía de sus entresijos»

Frio, muito frio

 

      «Agora que já levamos um longo espaço de tempo a contemplar de dentro o facto da caça, que aprendemos a anatomia dos seus esconderijos, em suma, que temos desta realidade uma visão suficientemente saturada, podemos determinar que papel compete à razão na caça que o homem pratica» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 78).

      Se não tivermos o original à nossa frente, só podemos encolher os ombros. A «anatomia dos seus esconderijos»? Podia ser, mas não é. No original, «anatomía de sus entresijos». É em sentido figurado, pois claro, mas a palavra escolhida não pode estar completamente arredada, como não está em castelhano, da anatomia. A palavra portuguesa exactamente correspondente é «entrefolhos».

 

[Texto 4147]

Helder Guégués às 18:02 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Posição dos clíticos

Em tudo

 

      «Substituída a peça pela sua imagem fotográfica, que é um fantasma, toda a arte venatória torna-se um espectro» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 74). «Sustituida la pieza por su imagen fotográfica, que es un fantasma, la venación entera se espectraliza.»

      Na tradução, na língua, tudo são pormenores e em tudo se tem de pensar. O ouvido, e mais o ouvido de um poeta, exige ali a próclise do pronome, é essa a tendência quando o sujeito da oração contém o numeral ambos ou um pronome indefinido como todo, tudo, alguém, outro, qualquer, etc.

 

[Texto 4146]

Helder Guégués às 07:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Fev 14

Tradução: «arisco»

Não me parece nada bem

 

      «O que ele busca é ganhá-la ele, vencer com o seu próprio esforço e destreza o animal áspero [bruto arisco], com tudo o que se lhe junta depois: a imersão na campina, a salubridade do exercício, a distracção do seu trabalho, etc.» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 76).

  Eis aqui um claríssimo exemplo de uma desnecessária e mesmo contraproducente fuga à letra do original. Também temos, e é imediatamente mais compreensível no contexto, «arisco». E «con todos los aditamentos que esto lleva a la zaga» foi pobremente traduzido por «com tudo o que se lhe junta depois». A tão expressiva locução a la zaga exigia aqui um equivalente igualmente expressivo.

 

[Texto 4145]

Helder Guégués às 06:46 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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27
Fev 14

Tradução: «link»

Não há outros

 

    «Isso tinha sido um forte elo de ligação entre eles, no início de se conhecerem» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 90).

    Há-os expressivos, sem dúvida, mas não este. É uma redundância ou pleonasmo vicioso. Basta «elo», porque não os há sem ser de ligação. «That had been a powerful link between them, when first he and Charlotte had come together.»

 

[Texto 4144]

Helder Guégués às 23:25 | comentar | favorito
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Tradução: «keypad»

Eu não

 

      «— Um teclado — murmurou, reparando no retângulo de metal com teclas — e uma câmara de videovigilância por cima da porta. O Bristow não mencionou a câmara. Talvez seja nova» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 83).

      Quem é que, vendo isto (ou algo semelhante, pois há vários modelos), diz «um teclado»? Eu não. Na página seguinte, já foi traduzido por «teclado com código». É, mesmo que tenha as teclas na parede, uma fechadura com código.

      «“Keypad,” he muttered, noting the metal square inset with buttons, “and a camera over the door. Bristow didn’t mention a camera. Could be new.”»

 

[Texto 4143]

 

Helder Guégués às 22:58 | comentar | favorito
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Tradução: «Georgian»

Infelizmente, fora dos dicionários

 

      «Aqui e ali havia leões de mármore e placas de latão, com nomes e credenciais profissionais; viam-se lustres a cintilar através das janelas dos andares de cima e uma porta estava aberta, deixando ver um chão de ladrilhos aos quadrados pretos e brancos, pinturas a óleo em molduras douradas e uma escadaria do período georgiano» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 81).

      Nem todos faríamos o mesmo: «Coorkman, num artigo publicado em The Years Work in the Theatre (1948-1949), mostra como o autor de Lady Frederick continuava a escrever em pleno período jorgiano do teatro inglês peças em estilo inequivocamente do período eduardiano, ou seja, ao gosto do teatro do fim do século XIX» (Novos Temas, Velhos Temas, João Gaspar Simões. Lisboa: Portugália Editora, 1967, p. 17).

      E, enfim, talvez pudéssemos aspar a palavra «período». «Here and there were marble lions and brass plaques, giving names and professional credentials; chandeliers glinted from upper windows, and one door stood open to reveal a checkerboard floor, oil paintings in gold frames and a Georgian staircase.»

 

[Texto 4142]

Helder Guégués às 22:30 | comentar | favorito
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Nem «flirt» nem «flirtar»

Mas Garrett não lhe resistiu

 

      «No entanto, ficou satisfeita ao poder ilibar Strike de qualquer intenção de a namoriscar» (Quando o Cuco Chama, Robert Galbraith. Tradução de Ana Saldanha, Maria Georgina Segurado e Rita Figueiredo. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2013, 2.ª ed., p. 80). No original: «She was pleased, however, to acquit Strike of any flirtatious intent.» Nada de especial, certamente, mas não poucos tradutores não prescindiriam do termo inglês.

 

[Texto 4141]

Helder Guégués às 22:09 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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27
Fev 14

Tradução: «hueco»

Cayó al vacío por el hueco

 

      «Impelido pela razão, que é um vento formidável — “espírito” quer dizer vento —, o homem está condenado a progredir e isto significa que está condenado a afastar-se cada vez mais da Natureza, a construir no seu oco [hueco] uma sobrenatureza» (Sobre a Caça e os Touros, José Ortega y Gasset. Tradução de José Bento. Lisboa: Edições Cotovia, 2004, 2.ª ed., p. 55). «Pela sua parte, a razão que veio preencher o oco [hueco] deixado pelos instintos evanescentes fracassa na tarefa de levantar a peça receosa» (idem, ibidem, p. 59).

   Pode ser mais do domínio da subjectividade, mas creio que não traduziria por «oco» em nenhuma das ocorrências. Nem talvez por «vazio» (e Ortega y Gasset também usa vacío nesta obra).

 

 [Texto 4140]

Helder Guégués às 10:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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