31
Mar 14

Títulos de doidos

Não havia necessidade

 

 

      «Esta BD foi adaptada ao cinema por Bertrand Tavernier, que coassina também o argumento com os seus dois autores. O respetivo filme, Palácio das Necessidades, título português inenarrável para o original Quai d’Orsay, está já em exibição em Portugal» («A diplomacia francesa passa da BD para o cinema», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 31.03.2014, p. 46).

     Aqui tem razão, caro Eurico de Barros. Inenarrável, mas quero ir ao cinema ver este filme.

 

[Texto 4313]

Helder Guégués às 23:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Heraclito

Ou 33

 

 

      «Um ministro dos Negócios dos [sic] Estrangeiros francês, Alexandre Taillard de Worms, que é um furacão humano e uma metralhadora verbal, é viciado nas citações de Heráclito e tem uma gaveta cheia de marcadores de tinta fluorescente, para sublinhar tudo o que lhe passa pelas mãos» («A diplomacia francesa passa da BD para o cinema», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 31.03.2014, p. 46).

      Ainda bem que o ministro não é português, para não termos de o ouvir dizer «Heráclito» a cada passo. «Heráclito» é grave — apesar de esdrúxulo. Heraclito, caro Eurico de Barros, diga Heraclito.

 

[Texto 4312]

Helder Guégués às 23:46 | comentar | favorito
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Léxico: «lolita»

Homessa

 

 

    «A imagem funciona em todas as direções. Procurar ter lolitas é perigoso. Não deveríamos ser inflexíveis, até aos 16 anos das manequins. Não devemos assobiar para o lado e fomentar algo que seja negativo. A nossa obrigação é não fomentar» (Tó Romano, director da agência de modelos Central Models, entrevistado por Carla Bernardino para o Diário de Notícias. «“Procurar ter ‘lolitas’ é perigoso, não deveríamos ser flexíveis”», 31.03.2014, p. 56).

   Carla Bernardino, que ideia infeliz foi essa de grafar em itálico a palavra? Diacho, homessa. Não me parece mal essa derivação imprópria, que já sucedeu com dezenas de outros vocábulos — embora se veja muitas vezes com maiúscula —, mas nada justifica o itálico.

 

[Texto 4311] 

Helder Guégués às 23:14 | comentar | favorito
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Boa oportunidade

Para estar calado

 

 

      «E o Senhor desceu sobre o monte Sinai, no mesmo cume do monte, e chamou a Moisés ao mais alto dele.» Assim escreveu António Pereira de Figueiredo. Agora, até os professores universitários pedem (ou mandam?): «Não quero isto assim. Tudo com maiúsculas, como estava.» Não se meta nisso, disseram-lhe, e acho que não foi com mesuras, rapapés, salamaleques, vénias ou subserviência. Embrulha.

 

[Texto 4310]

Helder Guégués às 22:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sorte e azar

Pois podia

 

 

      «Ensaios clínicos randomizados.» Pois. Por volta das 6 da tarde, reparei que a minha filha estava a ver uma série no Canal Disney em que entram duas gémeas, Liv e Maddie. Os pais estavam a mostrar-lhes um quadro que elas tinham feito quando eram mais pequenas em que se podia ler «sisters by chance, friends by choice». O tradutor verteu, enigmaticamente (canhestramente?), para «irmãs por sorte, amigas por escolha». Azar, sorte. Sorte também significa «acaso», é verdade, mas para quê complicar? Claro que a definição de «jogo de azar» que lemos nos dicionários — «jogo cujo resultado depende exclusivamente da sorte, etc.» — padece do mesmo mal. O mundo podia ser melhor.

 

[Texto 4309]

Helder Guégués às 20:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Sor», uma variante

Há escolha

 

 

      Hoje de manhã ouvi, na rádio Cadena SER, o programa Hoy por Hoy, de Pepa Bueno e Gemma Nierga. A entrevistada era uma monja contemplativa, ou de clausura, a dominicana Sor Lucía Caram. Uma monja muito especial, na verdade, e talvez pouco contemplativa afinal, ou não seria conhecida como monja cojonera. Também em português temos soror, sóror e sor. E, mais espantoso, ainda as podemos encontrar nos dicionários mais recentes.

 

[Texto 4308]

Helder Guégués às 19:40 | comentar | favorito
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Ortografia: «deleção»

Sem desculpa

 

 

   Não, Sr. Dr. ***, é deleção que se escreve, e não, como fez, «delecção». Desta vez, nem sequer há a desculpa de que em inglês é assim, porque é deletion, do latim deletĭo, ōnis, «destruição, eliminação».

 

[Texto 4307]

Helder Guégués às 16:14 | comentar | favorito

«Papanicolau»

Dr. Pap

 

 

      De vez em quando, vejo-o erradamente escrito; agora, acabo de ler exame de Papanicolaou. Sim, já vi as mais desvairadas coisas, e uma delas era previsível: Papa Nicolau. Houve vários papas com este nome, mas ninguém imagina São Nicolau I, por exemplo, entre duas orações, a colher esfregaços cérvico-vaginais em mulheres desconfortavelmente deitadas em camas ginecológicas. Vem do nome do médico grego Παπανικολάου, transcrito como «Papanicolau». Mas «Papanicolaou» estará mesmo certo? A letra o não faz ali falta. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, acabei de o confirmar, está grafado com minúscula inicial, «papanicolau», o que não estará errado se não lhe antepusermos «exame de».

 

[Texto 4306]

Helder Guégués às 14:33 | comentar | favorito
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Talvez se perceba...

... mas será a palavra mais adequada?

 

 

      «Mas o preconceito da propriedade da esquerda sobre a democracia não tem qualquer razoabilidade objectiva quando se olha para além do acanhado horizonte ibérico. Na génese dos regimes demo-liberais — sobretudo no mundo de língua inglesa, de onde realmente são originários — não existe qualquer monopólio da esquerda nem da direita. A democracia emergiu nessas paragens como “obra comum de partidos rivais”— uma expressão feliz de Raymond Aron, que lamentava nem sempre isso ser entendido na sua França natal (também ela fértil em arcaísmos rivais). […] Outro contributo decisivo, certamente involuntário, foi dado pelo arcaísmo de Álvaro Cunhal — que deixou bem claro que a democracia tanto pode ter inimigos à direita como à esquerda, vá-se lá saber quais são os piores» («Sobre Adolfo Suárez e uma entrevista de Durão Barroso», João Carlos Espada, Público, 31.03.2014, p. 45).

 

[Texto 4305]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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31
Mar 14

Sobre «fixer»

Não é para dar ideias

 

 

      Ontem de manhã ouvi, na rádio Cadena SER, o programa A vivir que son dos días, de Javier del Pino. A conversa era sobre o trabalho dos correspondentes, com a presença de alguns, como Gervasio Sánchez, Rosa María Calaf, Marta Herrero, etc. E, a torto e a direito, usaram a palavra inglesa fixer, que é o nome por que se designa na gíria jornalística, nos países de língua inglesa, a pessoa que ajuda, normalmente a troco de dinheiro, jornalistas estrangeiros, servindo de guia, intérprete, mediador, etc. Só me admirei de nunca a ter visto ser usada cá.

 

[Texto 4304]

Helder Guégués às 09:10 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Mar 14
30
Mar 14

Corrigir o original

Assobiar é que não

 

 

    Lembram-se de eu aqui ter perguntado que deve o tradutor fazer perante um evidente erro do autor? E indicava as alternativas: corrige, faz uma nota ou assobia para o lado. O leitor Rui Almeida mandou-me cópia das páginas 605 e 606 da revista Brotéria (n.º 5/6, de 1998, Vol. 146), em que se pode ler uma carta à direcção enviada pela tradutora Inês Madeira de Andrade a propósito de uma crítica feita naquela revista à tradução portuguesa da entrevista dada pelo cardeal Joseph Ratzinger a Peter Seewald (O Sal da Terra — O Cristianismo e a Igreja Católica no Limiar do Terceiro Milénio. Um Diálogo com Peter Seewald. Lisboa: Multinova, 1997). Quase no fim da carta, lê-se: «Na tradução portuguesa (cf. p. 91) foram ainda corrigidos lapsos que se encontravam no original alemão (exemplo: cf. original alemão, p. 125: Glaube, Hoffnung, Liebe, die Kardinalstugenden), o que não aconteceu na tradução francesa (cf. tradução francesa, p. 116: Foi, esperance, charité, les vertus cardinales).»

 

[Texto 4303]

Helder Guégués às 23:03 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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