31
Mai 14

Maiúscula nos gentílicos

Non capisco

 

 

      «Sem a batalha naval entre Venezianos e Genoveses, [sic] travada a 7 de Setembro de 1298 no estreito de Curzola – uma ilha do Adriático –, Marco Polo talvez nunca tivesse escrito o seu Livro das Maravilhas (em italiano, Il Milione)» (Veneza: Percursos com Corto Maltese, Hugo Pratt, Guido Fuga e Lele Vianello. Tradução de Paula Caetano. Alfragide: Edições Asa II, 2011, p. 13).

     Está certíssimo, como já tenho dito e sempre pratico. Mas uma coisa é certa: ou é o autor ou o tradutor que escrevem assim, ou ninguém se atreve a alterar. Essa é que é essa. Mero exemplo de um poder discricionário tácito.

 

[Texto 4653]

Helder Guégués às 20:50 | comentar | favorito
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Tradução: «pli du mépris»

Excepto em traduções

 

 

      Qual será a melhor tradução de «pli du mépris»? «Prega/vinco/ruga de desdém»? Os dois últimos agradam-me mais, e, se estabelecermos analogia com outras expressões, são estas últimas palavras que encontramos. Por exemplo, podemos ter «um vinco de preocupação na testa», ou «uma ruga de preocupação na testa», mas não, nunca vi nem ouvi, «uma prega de preocupação na testa».

 

[Texto 4652]

Helder Guégués às 20:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «milliard»

Nem tanto nem tão pouco

 

 

      Aqui, tinha visto milliard mal traduzido — por biliões! Esta semana, vi-o traduzido por milhões. Nem tanto nem tão pouco: milliard é por milhar de milhão que se deve traduzir. Assim, «80 milliards de dollars» são «80 mil milhões». E isto está nos dicionários, o que não está no hábito de quem traduz é comprovar nos dicionários o que julga saber.

 

[Texto 4651]

Helder Guégués às 13:37 | comentar | favorito
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Tradução: «entitlement»

Intraduzível não é

 

 

     «Descendente da pequena nobreza russa, Ignatieff é bisneto e neto de embaixadores e ministros do czarismo, filho de um diplomata canadiano, e teve uma educação cosmopolita. Alimentava um certo sentido de entitlement» («Um intelectual na política», Pedro Mexia, «Atual»/Expresso, 31.05.2014).

     E, como que a provar que Ignatieff teve uma educação cosmopolita, eis o entitlement. Ainda recentemente vi sense of entitlement traduzido, numa obra de Alain de Botton, por «sentido de prerrogativa». De certeza que não houve sequer um leitor que não compreendesse.

 

[Texto 4650]

Helder Guégués às 12:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «húbris»

Já é português

 

 

      «Em 2013, Ignatieff publicou “Fire and Ashes: Success and Failure in Politics”, uma autobiografia sobre a “húbris” e a ingenuidade» («Um intelectual na política», Pedro Mexia, «Atual»/Expresso, 31.05.2014).

   Já se vê aqui e ali aportuguesado, húbris (excesso de orgulho ou autoconfiança, arrogância, insolência), e não está mal. Se o acento não caiu ali por acaso, não vejo para que servem as aspas.

 

[Texto 4649]

Helder Guégués às 12:22 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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É só «asinha»

Torno a dormir quieto e sossegado

 

 

      «José Sócrates – e se o cito é porque ainda há pouco o ouvi citar Rimbaud  – falou em hecatombe! Não em débâcle: hecatombe. Quando se usa demasiadas vezes a palavra hecatombe, que é a palavra portuguesa para débâcle, corre-se riscos. Socorro, socorro, gritou Pedro, e um dia o lobo saltou de asinha ao caminho» («De barbas de molho», Ana Cristina Leonardo, «Atual»/Expresso, 31.05.2014).

      «De asinha»... Um advérbio com o anteparo de uma preposição? Deve ser por causa dos respingos da hecatombe. Camões nos Lusíadas: «Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,/Espantado do sonho; mas consigo/Cuida que não é mais que sonho usado:/Torna a dormir quieto e sossegado.»

 

[Texto 4648]

 

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Mais «inconseguimentos»

Já não é por piada

 

 

 «O Tribunal Constitucional decidiu o que devia. […] O inconseguimento do Governo é público» (Edite Estrela, eurodeputada do PS, in Diário de Notícias, 31.05.2014, p. 16).

 

[Texto 4647]

Helder Guégués às 10:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Mai 14

Tradução: «salt beef»

Não pode ser tudo isso

 

 

     «Treslove levara-o a comer uma sanduíche de carne curada [salt-beef sandwich] no Nosh Bar em Windmill Street, que voltara a abrir as portas» (A Questão Finkler, Howard Jacobson. Tradução de Alcinda Marinho. Porto: Porto Editora, 2011, 2.ª ed., p. 297).

      Já vi salt beef traduzido de várias formas, e forçosamente algumas estão erradas. Qualquer alimento curado é o que foi seco ao sol ou a uma fonte de calor. Não será isto a smoked meat? «Salt beef», lê-se aqui, «is meat that has been cured or preserved in salt. In the UK, salt beef refers to a form of beef cured in brine and then boiled.» Não será carne em salmoura a melhor tradução?

 

[Texto 4646]

Helder Guégués às 09:27 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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30
Mai 14

Ortografia: «cão de fila»

Só um pormenor

 

 

      «E há mais pormenores ou pormaiores que não recomendam António Costa. Para começar, está rodeado pelos cães-de-fila de Sócrates, que andam por aí a rosnar há três anos, rosnam, rosnam e rosnam para conseguir um espacinho que lhes permita executar a vingança contra aqueles que disseram mal do amado líder, coitadinho» («A cobardia de António Costa», Henrique Raposo, Expresso Diário, 30.05.2014).

     Não precisa de hífenes: cão de fila. Não é como «cão-d’água». Este sentido figurado – pessoa fiel, em quem se pode confiar – não está dicionarizado, o que não é aconselhável, porque há maluquinhos da língua que só usam palavras e expressões que estejam nos dicionários.

 

[Texto 4645] 

Helder Guégués às 21:15 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Mai 14

Tradução: «volontiers»

Pois não pode

 

 

      Traduzir volontiers por «sem se fazer rogado(a)» parece-me muito bem, mas, naturalmente, em certos contextos, não em todos. Também se pode traduzir por «de boa vontade», «com todo o prazer ou gosto», «normalmente», «naturalmente», «habitualmente»... Não pode ser chapa cinco, não é?

 

[Texto 4644]

Helder Guégués às 11:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Mai 14
29
Mai 14

«Sôr/sora/sô»?

Sonotone, e já

 

 

   «O assassino que andou a monte, depois de ter assassinado duas mulheres, foi recebido com palmas pela população. Antes de começarmos a cuspir repugnância pelo povinho, devíamos tentar perceber. Até porque perceber não é o mesmo que desculpar, já dizia a Sôr Dona Hannah Arendt» («De onde vêm as palmas do “Palito”?», Henrique Raposo, Expresso Diário, 28.05.2014).

  A forma reduzida de «senhor» é (e sor); de «senhora», pelo menos para Henrique Raposo, é «sôr». Não estará a confundir com «sor», de «sóror»? Está, pois. Alguns dicionários registam sora como forma reduzida de «senhora». Para mim, é «sô» para senhor e para senhora. É óbvio que alguém anda a ouvir mal, e não costumo ser eu.

 

[Texto 4643]

Helder Guégués às 23:14 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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