30
Nov 14

Léxico: «podólatra»

Não é por pudor

 

      Estas opções... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista podólatra nem podolatria, mas não deixou de acolher, por exemplo, bondage.


[Texto 5314]

Helder Guégués às 15:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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É como São Tomé

Da pressa? Ná

 

      Um leitor do Linguagista foi ontem ver o filme Boyhood. Durante quase três horas, ali esteve sossegadinho. Conta ele: «Lá para o meio, há uma cena que se passa durante o culto de uma comunidade protestante, com o pregador a fazer um sermão sobre aquele apóstolo que quis tocar nas feridas de Cristo para confirmar que Ele tinha mesmo ressuscitado. Ora, o que ele dizia era, naturalmente, Thomas e as legendas diziam... Tomás.» Lembro-me de já uma vez ter falado de um caso em tudo igual, mas não devemos perder uma só oportunidade de aprender e de ensinar. Então o nosso caro tradutor nunca ouviu falar em São Tomé e no seu famigerado princípio, ver para crer? Por onde tem então andado desde que nasceu?


[Texto 5313]

Helder Guégués às 12:42 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Nomes de doenças

Um mal comum

 

      «[Barbara] Sahakian usa o metilfenidato e a atomoxeina, uma droga recente que provou actuar de forma mais selectiva, em crianças e adultos com Transtorno do Défice de Atenção e Hiperactividade (TDAH), mas também em esquizofrénicos ou pessoas que sofrem de narcolepsia» («Smart drugs, cyborgs e outras visões do futuro», Luís Miguel Queirós, Público, 30.11.2014, p. 33).

      Nomes de doenças com maiúscula inicial? Está mal informado. Só se contiver um nome próprio. Por exemplo, Alzheimer, Parkinson, mal de Pott, mal de Klosousk, etc.

 

[Texto 5312]

Helder Guégués às 11:35 | comentar | favorito
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Ortografia: «neuropotenciação»

Se mete elemento, é para esquecer

 

      «A cientista começou por deixar claro que a neuro-potenciação não se resume às chamadas smart drugs, como o metilfenidato, comercializado como Ritalina, mas que também substâncias que muitos usam diariamente, como a cafeína ou a nicotina, estimulam o cérebro. E acrescentou-lhes a educação e o exercício físico. Uma e outro, explicou, geram novas células cerebrais. […] Se as alucinações e outras manifestações mais graves da esquizofrenia são razoavelmente controladas através de anti-psicóticos, diz Sahakian,”o problema é que estes doentes ficam com desordens cognitivas e não conseguem regressar à universidade ou ao trabalho”» («Smart drugs, cyborgs e outras visões do futuro», Luís Miguel Queirós, Público, 30.11.2014, p. 33).

     Quando a palavra estiver no dicionário, saiba Luís Miguel Queirós que a grafia será «neuropotenciação». Agora pense lá porquê. (E claro que também é «antipsicótico». E cyborg está aportuguesado em «ciborgue».)

 

[Texto 5311]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Nov 14

Já não sabem o que é um adjectivo

Qual é a dúvida?

 

      Um leitor (para sorte dele, não identificado) do Público, indignado por o jornal ter trazido para a primeira página de uma edição da semana passada um título em que se identificava o advogado de José Sócrates como goês, pergunta ao provedor: «Não percebo esta notícia, nem a sua importância para os leitores. Vejamos:
 1. ‘Advogado de defesa GOÊS’? Goês é um adjectivo?» Também eu fiquei perplexo com a escolha — fascínio pelo exótico ou racismo leve, próprio dos nossos alegados brandos costumes? —, mas nunca cairia na tontice desta pergunta. Claro que «goês» é adjectivo. Essa 4.ª classe...

 

[Texto 5310]

Helder Guégués às 11:30 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Nov 14

Léxico: «cachorro»

Mas não são quentes

 

      «Elementos metálicos que “terão sido introduzidos ou na construção ou em restauros antigos” do balcão saliente que contorna a torre de menagem do Castelo de Beja, estarão na origem da derrocada parcial da estrutura ocorrida na quinta-feira da semana passada, conclui um relatório preliminar elaborado por especialistas que observaram o local do incidente.

   O tempo e a humidade contribuíram para a corrosão de peças fabricadas em ferro, provocando a sua dilatação e a consequente deslocação de pedras (cachorros) que acabaram por fazer ruir a estrutura que suportavam» («Corrosão de ferro terá provocado derrocada na torre do Castelo de Beja», Carlos Dias, Público, 29.11.2014, p. 18).

 

[Texto 5309]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | favorito
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29
Nov 14

Tradução: «langue de bois»

Palavrório, palha

 «Deixei de lado o argumento “responsável” de que “o que é da Justiça é da Justiça” e “não se deve misturar Justiça e “política”, porque isso pouco mais é do que “linguagem de madeira”, langue de bois, que se pode recitar (e desejar), mas que será varrida pela vida pública concreta que em democracia não é asséptica e inclui tudo: vinganças e amizades, desejos e medos, suspeitas e certezas, imagens e factos. Como é que chegamos aqui? Para quem escreve todas as semanas nos jornais isso significa: viste o que aí vinha?» («O combate político de Sócrates não é o nosso», José Pacheco Pereira, Público, 29.11.2014, p. 56).

      Langue de bois: é o discurso, oral ou escrito, estereotipado, sobretudo dos políticos. Mas não dizemos nós — decerto que traduzindo a expressão francesa — «língua de pau»? De qualquer maneira, «pau» ou «madeira», não seria sempre «língua» e não «linguagem»? O Dicionário de Francês-Português da Porto Editora para langue de bois dá a tradução — que o não é, antes definição — de «maneira de falar abundante e estereotipada». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a regista.

 

[Texto 5308]

Helder Guégués às 19:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Nov 14

Léxico: «abolecer»

Há quem se lembre dela

 

      «Ora, todos esses discursos da morte que se comprazem numa estética do fim tiveram sempre que se confrontar com eloquentes desmentidos. Recordemos que o jovem Rimbaud disse que “depois de Racine, o jogo começou a abolecer”; e que uma figura ilustre da vida literária francesa proclamou em 1834 com grande aprumo: “A grande literatura morreu: eis um facto que não precisa de ser provado”» («Virar as costas ao presente», António Guerreiro, «Ípsilon»/Público, 28.11.2014, p. 36).

   «Après Racine, le jeu moisit», escreveu Rimbaud (em Lettres du Voyant). Cá está mais uma palavra que desapareceu dos nossos bons dicionários: abolecer. Isto é imparável.

 

[Texto 5307]

Helder Guégués às 12:12 | comentar | favorito
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«Mimar», de novo

Não é nosso

 

   «Era já nonagenária quando publicou, em 2011, uma
 divertida continuação de
 Orgulho e Preconceito, mimando convincentemente o estilo de Jane Austen e assombrando o idílio conjugal de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy com um crime violento em Death Comes to Pemberley, publicado pela Porto Editora com o título Morte em Pemberley» («Uma romancista que investiu o seu talento literário na ficção policial», Luís Miguel Queirós, Público, 28.11.2014, p. 38).

      «Mimar o estilo»? Já vimos aqui algumas vezes este verbo com outros sentidos, tão alienígenas como este. Ah, e bem nos lembramos por aqui deste Morte em Pemberley.

 

[Texto 5306]

Helder Guégués às 10:19 | comentar | favorito
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28
Nov 14

Léxico: «bigle»

Lembre-se do bife

 

      «Tiago Horta, 20 anos, aluno de Gestão na Universidade de Évora, é um dos donos do beagle, ao qual já não faltava animação na casa que acolhe quatro estudantes e onde o número está praticamente sempre duplicado pelos amigos» («A “melhor prenda de Natal” para o Alex foi a chegada do “recluso 44”», Romana Borja-Santos, Público, 28.11.2014, p. 4).

      Não, Romana Borja-Santos, não é beagle, mas bigle. Escreve, acaso, beef em vez de «bife»?

 

[Texto 5305]

Helder Guégués às 08:34 | comentar | favorito