31
Jan 15

Tradução: «petcoke»

Mais inglês

 

      No Sexta às 9 de ontem, a reportagem era sobre o petcoke — era assim que se lia nas legendas — na Gafanha da Nazaré. Vê-se escrito e traduzido das mais desvairadas formas. No LexTec, está «coque de petróleo», que será a menos má. No Público, já apareceu «petcoque»: «António Miranda, subdirector da unidade de Souselas, dá as mesmas garantias: “Isso é inteiramente falso. Só utilizamos carvão e ‘petcoque’ [derivado do petróleo de aparência semelhante ao carvão], mais nada. E utilizamos isto há muitos anos”» («Habitantes de Souselas manifestam-se no Parlamento», Aníbal Rodrigues, Público, 5.02.2003, p. 26).

 

[Texto 5515]

Helder Guégués às 22:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Andar ao tio ao tio»

Um pouco esquecida

 

      Há quanto tempo não ouvia nem lia esta expressão... Anda aí em livros: «O Costa ourives tem carro, tem vivenda e não tem de andar ao tio ao tio para comprar semente» (Sua Excelência, Luís de Sttau Monteiro. Lisboa: Edições Ática, 1971, p. 26). Não anda é em dicionários. Pelo menos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a regista, o que é uma boa forma de entrar no esquecimento.

 

[Texto 5514]

Helder Guégués às 21:39 | comentar | favorito
31
Jan 15

Sobre «ovarina»

Não só de Ovar

 

      «Neste espaço, além de fotografias, postais, gravuras, esculturas em [sic] cerâmica, literatura e recortes de jornal sobre as varinas, os visitantes vão poder ver e ouvir em vídeo excertos dos testemunhos de cinco peixeiras, com idades próximas dos 80 anos, residentes nos bairros da Madragoa, Alfama e Mouraria. São descendentes das gerações de ovarinas vindas do litoral de Aveiro no início do século XIX, sobretudo do concelho de Ovar, para acompanhar os maridos pescadores. Com o tempo caiu a letra que as ligava às raízes» («Varinas. Ó freguesa, venha cá ver as embaixadoras de Lisboa», Marisa Soares, Público, 31.01.2015, p. 14).

      Nem sempre nos ocorre que «varina» vem de «ovarina», mas assim é, embora muitas não tivessem essa origem, como se afirma no artigo.

 

[Texto 5513]

Helder Guégués às 21:19 | comentar | favorito
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30
Jan 15

«Portugalophis lignites»

Mas se querem

 

      «No artigo na Nature Communications, a equipa de Michael Caldwell, da Universidade de Alberta, no Canadá, classifica os fósseis da cobra da Guimarota como uma espécie e, mais ainda, um género novos para a ciência. O nome: Portugalophis lignites. O género Portugalophis significa “cobra de Portugal”, uma vez que ophis é “cobra” em grego, e lignites vem da palavra lignum em latim, remetendo para a mina de lenhite da Guimarota» («Fóssil de cobra portuguesa é dos mais antigos do mundo», Teresa Firmino, Público, 30.01.2015, p. 25).

      Significa «cobra de Portugal»... Enfim, é o conúbio improvável de duas palavras de natureza e origem completamente diferente, que se quer que signifique isso.

 

[Texto 5512]

Helder Guégués às 20:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «material»

Nada disso

 

      «Na terceira pergunta em que os professores mais falharam, o dr. Crato agarrou nas considerações tristemente acéfalas de um cavalheiro americano [Douglas McMurtrie] sobre “impressão e fabrico” de livros. Esse cavalheiro pensa que há “livros em que a beleza é um desiderato” (ou seja, a beleza do objecto) e outros “em que 
o encanto não é factor de importância material” (em inglês, “material” não significa o que o autor da PACC manifestamente julga)» («A estupidez à solta», Vasco Pulido Valente, Público, 30.01.2015, p. 52).

      Temos de saber para onde atiramos. Na verdade, não se sabe o que o «autor da PACC» pensa ou deixa de pensar, porque aquele «material» ocorre numa citação da obra O Livro — Impressão e Fabrico, de Douglas McMurtrie, traduzida por Maria Luísa Saavedra Machado e editada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Dito isto, a palavra está mal traduzida, sim.

 

[Texto 5511]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | favorito
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«Take or pay»

Pronto, já somos especialistas

 

      «Em Novembro, tanto a petrolífera como a REN falharam o prazo de liquidação da taxa referente a 2014, cujos pagamentos rondavam 35 e 25 milhões de euros, respectivamente. Mas agora o Governo reclama mais 150 milhões, alargando a CESE (que já incide sobre redes de distribuição, centrais eléctricas e activos de refinaria) aos chamados contratos take or pay (que obrigam a Galp a comprar quantidades preestabelecidas de gás, mesmo que não tenha consumo)» («Governo impõe taxa de 150 milhões à Galp para baixar tarifas do gás», Ana Brito, Público, 30.01.2015, p. 16).

 

[Texto 5510]

Helder Guégués às 13:05 | comentar | favorito
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Os exageros de VPV

Nem metade

 

      «Dezenas de analfabetos que gostam de se dar ares fizeram um escândalo com o aparente excesso de erros de ortografia, pontuação e sintaxe dos 2490 professores que se apresentaram à Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC). Deus lhes dê juízo. Para começar, não há em Portugal uma ortografia estabelecida pelo uso ou pela autoridade. Antes do acordo com o Brasil — um inqualificável gesto de servilismo e de ganância — já era tudo uma confusão. Hoje, mesmo nos jornais, muita gente
se sente obrigada a declarar que espécie de ortografia escolheu. Pior ainda, as regras de pontuação e de sintaxe variam de tal maneira que se tornaram largamente arbitrárias. Já para não falar na redundância e na impropriedade da língua pública que por aí se usa, nas legendas da televisão,
 que transformaram o português numa caricatura de si próprio;
 ou na importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas» («A estupidez à solta», Vasco Pulido Valente, Público, 30.01.2015, p. 52).

      Nem metade disto é verdade. É verdade, e verdade evidente, que o acordo é «um inqualificável gesto de servilismo e de ganância», ainda que ingénuo; é verdade a «impropriedade da língua pública» e a «importação sistemática de anglicismos, derivados do “baixo” inglês da economia e de Bruxelas», mas neste preciso ponto nem o próprio cronista está isento de culpa, muito pelo contrário, como já aqui temos visto e lamentado.

 

[Texto 5509]

Helder Guégués às 09:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «desidentificação»

Fica a palavra

 

      «A forma como o procurador e o juiz se terão referido a Sócrates, apenas por “José Pinto de Sousa”, merece um pequeno capítulo do recurso intitulado “uma questão de nome”. Esta designação à revelia da abreviatura que o ex-primeiro-ministro escolheu e com a qual “ganhou duas eleições” é, segundo os seus advogados, uma “violação do direito de personalidade” ao “nome e à integridade moral”. Para a defesa, esta forma de tratamento resulta num [sic] “despersonalização”, “desidentificação” e “desmoralização” de Sócrates» («Silêncio “cirúrgico” do motorista terá justificado prisão de Sócrates», Pedro Sales Dias e Mariana Oliveira, Público, 30.01.2015, p. 8).

      Parece-me tão grave como o escritor Mário Cláudio, por exemplo, receber em casa uma multa por excesso de velocidade em nome de Rui Barbot Costa. Isto é palha para encher os recursos.

 

[Texto 5508]

Helder Guégués às 08:18 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Jan 15

Em português, se faz favor

Jamais

 

    «Primeiro, [o deputado] Paulo Sá teve de encontrar a unidade base da sua construção. Atribuiu o valor de 100 milhões de euros a cada peça de dois por quatro pins» («Como afrontar Maria Luís com um Lego», Vítor Matos, Sábado, 29.01-4.02.2014, p. 51).

      Pins! Nunca tal li ou ouvi. Bastava escrever «peça de dois por quatro» ou «peça de 2x4». Ou «peça de dois por quatro pinos».

 

[Texto 5507]

Helder Guégués às 00:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Jan 15
29
Jan 15

Sufixo nominal

São açúcares

 

      «“Todos os ingredientes que acabam em ‘ose’ são açúcares, e há uma lista extensa que encaixa nesta categoria como a glucose, a frutose, a dextrose, a maltose e a lactose”, sublinha Calgary [Avansino] num artigo publicado no início deste ano no jornal The Sunday Times» («Isto vicia tanto como cocaína», Luís Silvestre, Sábado, 29.01-4.02.2014, p. 37).

    Morno, morno: escreve-se -ose, que é como se indicam os sufixos, neste caso nominal. Na nomenclatura química, ocorre em substantivos que designam glícidos.

 

[Texto 5506]

Helder Guégués às 23:50 | comentar | favorito
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