31
Mar 15

O desgraçadíssimo verbo «haver»

Gabinete de estudos...

 

      Rogério Gomes, director do Gabinete de Estudos do PSD, garante: «Não haverarão obsessões eleitorais que levem a aumentar ordenados na Função Pública, por exemplo, e a baixar pensões, para logo um ano, dois anos depois termos que tirar tudo isso porque a situação da economia, obviamente, não o permitirá, ou seja, haverá constância e solidez na progressão do desenvolvimento e da melhoria do nível de vida dos Portugueses.»

 

[Texto 5704]

Helder Guégués às 16:55 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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O nome das enzimas

Vai continuar

 

      Tem razão o leitor Gonçalo Esteves: anda por aí uma lamentável trapalhada com o nome das enzimas. As enzimas são denominadas de acordo com o substrato ao qual se ligam ou a reacção química que catalisam, com o acrescento do sufixo grego -ase. Muito simples, isto, apenas baralhado porque há enzimas com nomes mais empíricos e que fogem àquela regra, como emulsina, pepsina, ptialina, renina, tripsina, etc. Posteriormente, uma comissão da União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular veio estabelecer uma forma racional de identificar as enzimas, com um código numérico, quatro algarismos separados por pontos.

   Agora, a parte propriamente linguística: todos estes nomes deviam ser proparoxítonos, esdrúxulos: amílase, cítase, diástase, lípase, máltase, polimérase, etc. Deviam porque o modelo é «diástase», que é proparoxítona em virtude da quantidade do sufixo -asis em grego e em latim. Contudo, todos os nomes das enzimas que se seguiram não existiam nem no grego nem no latim, foram inventados, pelo que, numa língua como a nossa, em que a tendência é para a tonicidade da penúltima sílaba, será forçar demasiado as coisas impô-los como proparoxítonos. Dantes, afirmava-se, como se isso esclarecesse toda a questão, que em Coimbra se dizia de uma maneira e em Lisboa de outra. É o que vai continuar a acontecer, até os dicionários registarem apenas a forma preferida — e a lei do menor esforço entra na equação e de que maneira — dos falantes, que é a paroxítona. Uma reforma ortográfica a sério tem necessariamente de sistematizar estes nomes.

 

[Texto 5703]

Helder Guégués às 14:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
31
Mar 15

Léxico: «largar da mão»

Uma pequena amostra

 

      Das cinco pessoas que estavam a ver a telenovela A Única Mulher, ninguém, escreve-me uma leitora, conhecia a expressão «largar da mão», usada pela personagem Daniela Fragoso. Espantoso? Talvez. Significa abandonar, deixar em paz. Continuem a ver telenovelas e vão dando notícias.

 

[Texto 5702]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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30
Mar 15

«Diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2»

E por desgraças e doenças

 

   O meu médico/autor não sabe isto: de acordo com a nova classificação (mas a caminho de fazer 20 anos...), publicada pela American Diabetes Association (ADA), os termos diabetes tipo I e diabetes tipo II foram substituídos por diabetes tipo 1 e tipo 2, respectivamente, com números arábicos em vez de algarismos romanos. E porquê? Ora, simples: «in part because the roman numeral II can easily be confused by the public as the number 11».

 

[Texto 5701]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | favorito
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«Levedura/levadura»

Espanholismo, arcaísmo... 

 

      ... ou nada disso. Pode ser lapso de revisão, mas na 50.ª edição do Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, de Magnus Bergström e Neves Reis (Casa das Letras, 2011, p. 282), lê-se «levadura (m. q. levedura)» e «levedura (o m. q. lavedura)». Não sei se sabem, mas «levedura» é um arabismo, e o étimo, transliterado, é labbada, pelo que não era improvável termos até «lavadura». Mas não: temos, variantes, levadura e levedura. Afrânio do Amaral, nas suas Pesquisas Filológicas, depois de reconhecer que o velho Bluteau consigna a forma «levadura», afirma «tratar-se de arcaísmo, decorrente de lêvado ou, no opinar de alguns puristas, de mero espanholismo. A forma legítima é levedura». Se é arcaísmo, pelo menos nos dicionários actuais — que estão constantemente a arejar a casa — ainda sobrevive.

 

[Texto 5700]

Helder Guégués às 12:09 | comentar | favorito
30
Mar 15

Género: «enzima»

Área pantanosa

 

      «Estes enzimas são denominados, etc.» Alto! Querem ver que temos aqui outra «área crítica»? Para o dicionário da Real Academia Espanhola, depois de edição atrás de edição a considerá-lo do género feminino, passou a ser de género... ambíguo! Tanto pode usar-se como feminino como masculino. Para os confusionistas, é o paraíso. Mais: aquele dicionário afirma que vem do grego ἐν, em, e ζύμη, «levedura». Sim e não: foi cunhado, em 1876, pelo fisiologista alemão Wilhelm Kühne. Não veio, pois, directamente ou por intermédio do latim, da língua grega, e por isso a analogia com outros helenismos médicos derivados de neutros gregos terminados em -μα (-ma) não deve fazer-se. Entre nós, Silveira Bueno, no seu Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa, advoga o género masculino, mas creio que é voz isolada.

    É muito curioso que o adjectivo derivado «enzímico», considerado por muitos, e bem, a meu ver, o único correcto, nem sequer conste no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Vá, pelo menos como sinónimos.

 

[Texto 5699]

Helder Guégués às 11:01 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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29
Mar 15

«Arteriosclerose/aterosclerose»

Algo me diz que não

 

      Arteriosclerose e aterosclerose são dois termos que andam muito confundidos. Mais do que confundidos: há quem afirme que são sinónimos. Leio na Medipédia: «A aterosclerose e a arteriosclerose são duas doenças que frequentemente se confundem, não só pela semelhança linguística dos termos, mas também por ambas definirem o mesmo processo de acumulação de gordura na parede arterial. No entanto, são doenças diferentes: a primeira diz respeito aos grandes vasos (de grande calibre) e a segunda aos pequenos vasos (de pequeno calibre).» Esta distinção, de tom pedagógico, estará certa?

 

[Texto 5698]

Helder Guégués às 19:50 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Derivado de/devido a»

A enfermeira ou o médico?

 

      «A enfermeira anunciou-lhe que derivado à esponja esburacada a barriga cresce e ele a esmurrar o tórax, vitorioso

      — Ainda está lisinha» (Quinto Livro de Crónicas, António Lobo Antunes. Alfragide: Publicações D. Quixote, 2013, p. 195).

      Bem, ele conheceu mais enfermeiras do que nós, saberá que é assim que falam. Mas... assalta-nos, insidiosa, uma dúvida: e se a confusão é do autor, sancionada pelo revisor filológico? Pois é... 

 

[Texto 5697]

Helder Guégués às 17:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito

AOLP90 e as instituições sérias

Pensem nisso

 

      Do correio dos leitores para o provedor do Público, respigamos esta reclamação: «A leitora Helena Faria escreve: “Na edição do passado dia 13, sob o título ‘Apocalise abruto’, Octávio dos Santos cita diversas organizações que, na opinião do autor, constituem exemplos de erros graves na escrita. (...) Apesar de se tratar de um artigo de opinião não nos parece correcto que o autor utilize exemplos de organizações sérias e respeitadas para fazer valer a sua opinião que é tão válida como a de quem decide utilizar o acordo ortográfico”» (29.03.2015, p. 53).

    Pois a mim, e a qualquer pessoa sensata, parece-me correcto e legítimo, até porque não se trata de diferença de opinião, antes de quem adoptou as novas regras ortográficas não o saber fazer com proficiência. E a culpa é de quem, nossa ou desses falantes?

 

[Texto 5696]

Helder Guégués às 10:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Mar 15

Quem muito escolhe...

Temos melhor

 

      O «Escrito na pedra» de hoje, no Público, é uma citação do poeta satírico francês Mathurin Régnier (1573-1613): «Quem muito quer escolher fica com o pior.» Não há no nosso adagiário o mesmo, mas melhor? Há, pois: Quem muito escolhe, pouco acerta.

 

[Texto 5695]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | favorito
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