31
Mai 15

Léxico: «ladoeiro»

Atoleiro ou árvore?

 

      Isto é interessante. Pelo menos para os leitores do semanário Povo das Beiras, o nome Ladoeiro não é estranho. Mas, como nome comum, já é menos conhecido. Ladoeiro é uma freguesia de Idanha-a-Nova e, dizem os etimologistas, o nome deriva de ter sido outrora uma zona de lodeiros (lameiros ou atoleiros) e charcos abundantes. Ora ladoeiro, que é, em algumas zonas do País, sinónimo de lódão, a árvore de copa arredondada e fechada (pelo menos a Celtis australis), também chamada ginginha-do-rei por causa dos seus frutos comestíveis e doces, de que dantes se usava a madeira para fazer tonéis, remos e cabos de ferramentas, não está nos dicionários.

 

[Texto 5931]

Helder Guégués às 19:43 | comentar | favorito

«Homens feitos por si próprios»

Contentemo-nos pois

 

      «Mas hoje já não recitamos essa história de triunfo da vontade por um futuro melhor, ou o sucesso de homens feitos por si próprios, da modéstia à grandeza» («Lendas do caídos», Nuno Rogeiro, Sábado, 28.05.2015, p. 37).

      Está bem, cedeu ao «sucesso», mas evitou, e nem todos o fariam, a tal expressão inglesa correspondente a «homens feitos por si próprios», isto quando o contexto até o empurrava para isso, pois é sobre a chegada, entre 1902 e 1920, de 18 milhões de imigrantes a Ellis Island.

 

[Texto 5930]

Helder Guégués às 18:36 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Lapso ou talvez não

O melhor é prevenir

 

      «Em 1957 casou com Alicia, de 21 anos e filha de salvadorenhos, uma das 16 mulheres dos 800 alunos e que queria ser como Marie Currie» («John Nash (1928-2015)», Dulce Neto, Sábado, 28.05.2015, p. 28).

      Eu sei que pode ser mero lapso, mas nunca se sabe, não é? Ainda que a pronúncia seja aproximadamente essa, a grafia é Curie. Pode ser lapso, sim. Em 2008, Daniel Ribeiro, correspondente da Antena 1 em França, falava, a propósito de uma greve, de se ter aberto a «caixa de Pandôrra».

 

[Texto 5929]

Helder Guégués às 18:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

De Conceição, Ção

Corrigir o que está bem

 

      Faz muito bem em escrever assim o seu nome, Ção. Como defendeu José Neves Henriques, não só é assim, como só pode ser assim, pois o que se estatui nas Bases Analíticas do Acordo Ortográfico de 1945 (Base V, a)) não se aplica ao encurtamento de antropónimos como Conceição, Assunção ou quaisquer outros terminados da mesma forma. Veja-se: «Em princípio de palavra nunca se emprega ç, que se substitui invariavelmente por s: safio, sapato, sumagre, em vez das antigas escritas çafio, çapato, çumagre.» Talvez seja evidência que só está ao alcance de estrangeiros que conhecem a nossa língua. Álvaro Iriarte Sanromán (que tem dupla nacionalidade) dedicou a sua tese de doutoramento (A Unidade Lexicográfica) «À Ção, ao João Paulo e à Ana». Edite Estrela, na sua obra Dúvidas do Falar Português, porém, quis aproveitar uma consulta para «corrigir um erro muito frequente, “ção”».

 

[Texto 5928]

Helder Guégués às 14:19 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

PNL e Acordo Ortográfico de 1990

Mas não quero dar ideias

 

      «O livro [Conversas com Versos], já nas lojas, tem o carimbo Ler+, do Plano Nacional de Leitura, mas não aplica, ostensivamente, o novo acordo ortográfico. “Não aderimos, nem vamos aderir. A tentativa de unificar foi totalmente frustrada, foi feita por pessoas catedráticas que não andam na rua, não comunicam com as pessoas no metro, no autocarro. Este nosso trabalho é extremamente colectivo, toda a gente entrou, fez coros, deu opiniões, foi uma coisa livre, como se fôssemos crianças num recreio” [diz Eugénia Melo e Castro]» («“Este trabalho foi uma coisa livre, como se fôssemos crianças num recreio”», Nuno Pacheco, Público, 31.05.2015, p. 32).

      Tão ostensivamente, imagino, como todos os livros que fazem parte do Plano Nacional de leitura e não seguem a nova ortografia. Isto não são sinais contraditórios, quererem impor as novas regras ortográficas e as obras com o selo do PNL poderem seguir ou não essas regras?

 

[Texto 5927]

Helder Guégués às 12:01 | comentar | ver comentários (5) | favorito
Etiquetas: ,

Sobre «viés»

De esguelha

 

    «Em sua música Almanaque, lançada em 1981, o compositor Chico Buarque perguntava, sarcástico: “Quem pintou a bandeira brasileira, que tinha tanto lápis de cor?” Mais do que um julgamento estético, a piada tinha um viés político, já que à época os símbolos nacionais eram usados como marketing político pela ditadura militar» («Variações sobre o mesmo tema», Aventuras na História, n.º 143, Junho de 2015, p. 16).

    Se apenas existisse o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o pobre leitor hesitaria entre «direcção oblíqua; esguelha» e «tira de pano cortada da peça, em diagonal».

 

[Texto 5926]

Helder Guégués às 10:57 | comentar | favorito
Etiquetas:

A bela região da Toscana

Inventores de lugares

 

      Do correio dos leitores para o provedor do Público, respigamos esta reclamação: «Adverte o leitor João Chambers: “Depois de, há tempos, ter alertado o seu
 colega Rui Araújo para a forma como a região italiana da Toscana era, bastas vezes, referida num jornal de referência absoluta no nosso país — (referida como pequena cidade na Toscânia) —, eis que tal incorrecção volta, uma vez mais, a acontecer (sugestão da fita A Vida É Bela, edição de 22/05/15). Será que um editor com um mínimo de conhecimentos de geografia (ou de história) não poderia ter detectado este frequente e inaceitável equívoco?»

      Não perca tempo, João Chambers. Eu ando aqui há dez anos a chamar a atenção para estas coisas e quase tudo permanece igual.

 

[Texto 5925]

Helder Guégués às 09:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
31
Mai 15

Isto é humor?

Pouco polido

 

      «Mesmo o CDS, uma agremiação de hábitos mais brandos, resolveu recentemente produzir uma ninhada de substitutos de Paulo Portas, para o caso de ele perder: Assunção Cristas (suponho que pelo novo acordo ortográfico), Mota Soares, João Almeida, Cecília Meireles e Nuno Melo» («Salvadores», Vasco Pulido Valente, Público, 31.05.2015, p. 56).

  

[Texto 5924]

Helder Guégués às 08:40 | comentar | favorito
Etiquetas:
30
Mai 15

Vocabulário de nomes clássicos

Uma questão de gramática

 

      «Em poucos minutos, houve-se um trovão...» Depois disto, desisti de explicar ao autor que o nome Acrotelêucio (para a legião de anglófonos que nos segue, Acroteleutium) é feminino, era uma rameira protegida de Periplectómeno, no Soldado Fanfarrão, de Plauto. Está a fazer falta um bom vocabulário de nomes clássicos e não só.

 

[Texto 5923]

Helder Guégués às 16:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Quem tem jurisdição

Uma questão de direito

 

      «O livro Diamantes de Sangue: Tortura e Corrupção em Angola, do jornalista angolano Rafael Marques, vai ser publicado em Itália, disse à Lusa a directora da editora Tinta da China, Bárbara Bulhosa. O tribunal provincial de Luanda condenou Marques a seis meses de prisão com pena suspensa no processo de difamação sobre a violação de direitos humanos na exploração diamantífera, apesar de um acordo do jornalista com os generais queixosos. A sentença prevê a retirada do mercado do livro e impede a sua reedição e tradução por seis meses. “A editora Tinta da China não vai cancelar a publicação porque a decisão do juiz não tem jurisdição na Europa”, disse a responsável pela editora que publicou o livro em Portugal» («Diamantes de Sangue vai ser publicado em Itália em Junho”», Público, 30.05.2015, p. 32).

      É a decisão que não tem jurisdição ou o próprio juiz? E porque é que o nome da editora não tem hífenes, pode saber-se?

 

[Texto 5922]

Helder Guégués às 13:48 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
30
Mai 15

As recensões nas nossas publicações

Más práticas

 

      «Um dos grandes lançamentos em Portugal do primeiro semestre de 2015 é sem dúvida Tudo o Que Conta, primeiro livro publicado no nosso país do escritor americano James Salter, que no próximo 10 de Junho faz 90 anos» («Demorou 90 anos a chegar», Marco Alves, «GPS»/Sábado, 28.05.2015, p. 26). E por aí fora, um quarto de página e nem uma palavra para informar o leitor de quem é o tradutor. É como se os livros se traduzissem por si mesmos. Na ficha por baixo da imagem da capa, o título, o autor, a editora, o número de páginas e o preço — nada mais. Ora, nesta ficha tinha de estar, até para evitar esquecimentos do recenseador, o nome do tradutor, há espaço para isso e, sobretudo, interesse do leitor. No caso, o tradutor foi Francisco Agarez, o que é garantia de qualidade. E também deviam indicar que há versão digital do livro. Podem ver um excerto da tradução aqui.

 

[Texto 5921]

Helder Guégués às 08:42 | comentar | ver comentários (3) | favorito