30
Jun 15

Este «avuncular»...

Deixa ficar como está

 

      «Entre estes [refere-se aos revisores] conheci límpidas criaturas de tacto e ternura ilimitados que discutiam comigo um ponto e vírgula como se fosse um ponto de honra – o que, na verdade, é muitas vezes um ponto de arte. Mas também me cruzei com alguns brutos pomposos e avunculares que tentavam “fazer sugestões” a que respondia com um trovejante “Vale!”» (Opiniões FortesVladimir Nabokov. Tradução de Carlos Leite. Lisboa: Relógio D’Água, 2015, p. 100).

      Se eram meras sugestões, não sei para que era o «vale!» (stet, em inglês), que serve para anular emendas. Um pormenor. Mais: supondo que o avuncular do original está correcto, em português não o está certamente. À letra está certo, sim, mas, se não estamos perante um falso cognato*, não sei que diga. Gostava de ver Nabokov a lidar com certos revisores que o atanazassem com a imputação de falsos erros. Desistia de escrever e ia borboletear atrás dos seus queridos lepidópteros...

 

[Texto 6007]

 

      *  E por falso cognato: Martin Amis escreveu que este «‘avuncular pompous brute’ is exquisite».

Helder Guégués às 19:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Los dóberman»

E aqui ao lado...

 

     Em castelhano também não faltam casos estranhos. Por exemplo, as palavras esdrúxulas terminadas em n mantêm-se invariáveis, regra que apresenta apenas duas excepções: o plural de régimen é regímenes e o de espécimen é especímenes. A outra excepção, para mim, não o é verdadeiramente: o plural de hipérbaton é hipérbatos. É o que se lê nas gramáticas, mas se há hipérbato e hipérbaton, não é verdade que o plural de hipérbaton, esdrúxula, seja hipérbatos. O plural de hipérbaton é, como em português, hipérbatones. Felizmente, são palavras, ou pelo menos esta última, com pouca frequência de uso. Não se passa, porém, o mesmo com todas as abrangidas pela regra. Considere-se o vocábulo dóberman. Diz-se, contra tudo o que é natural, los dóberman. Ora, casos destes temos nós em português.

 

[Texto 6006]

Helder Guégués às 12:52 | comentar | favorito
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30
Jun 15

«Fez o que tinha que fazer»

Je n’ai rien à faire

 

      «O Syriza foi eleito em Janeiro deste ano com 36,3% dos votos e um programa que não tem nada a ver com aquele que as instituições exigem que a Grécia aplique. Colocado entre a espada e a parede, Tsipras fez o que tinha a fazer» («Tsipras fez o que tinha a fazer», João Miguel Tavares, Público, 30.06.2015, p. 48).

      São os piores, porque mais insidiosos, estes galicismos sintácticos. Diz-se, em português estreme, decente, nada ter que ver e fez o que tinha que fazer. E mesmo aquele «colocado» está ali só para encher a frase. Veja-se: «Entre a espada e a parede, Tsipras fez o que tinha que fazer.» «Entre Cila e Caríbdis, Tsipras fez o que tinha que fazer.» «Entre a cruz e a caldeirinha, Tsipras fez o que tinha que fazer.»

 

[Texto 6005]

Helder Guégués às 10:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Jun 15
29
Jun 15

Plural de nomes compostos

E com «sem-abrigo» é diferente?

 

      Foi já em 2008, quase noutra vida: uma professora quis saber se o plural de «sem-abrigo» é «sem-abrigos» — «como já ouvi na televisão». Só na televisão? Eu acho que da boca da maioria dos falantes sai muitas vezes «sem-abrigos», e por algum motivo será. O consultor escreveu que este composto sintagmático é «formado por uma expressão de valor adverbial (“estar sem abrigo”), o que parece explicar que seja invariável como os advérbios», e recordou outros compostos de origem adverbial, como sem-terra, sem-tecto e sem-vergonha. Talvez ninguém desse outra explicação, mesmo que de natureza tão dubitativa. E, contudo, não foram poucas as vezes que já li «sem-vergonhas». «Sem-tecto» não usamos, e por isso não falaremos dele, e o mesmo se poderia dizer sobre «sem-terra», se não me lembrasse de que Paulo Flávio Ledur e Paulo Sampaio, na obra Os Pecados da Língua, afirmam que se deve preferir, «por coerência e por questão técnica, a forma os sem-terras». «Quanto a sem-lares, o plural parece-nos bem formado. Sem-lar é um neologismo formado à semelhança de sem-luz, sem-cerimónia, etc. Composto de preposição e substantivo, usa-se com o valor de substantivo, exactamente como sem-luz, equivalente perfeito de cego. Sujeita-se, assim, à regra de formação do plural dos nomes compostos de preposição e substantivo, que é a dos nomes constituídos por primeiro elemento invariável e segundo nominal: só este se flexiona: semi-sábio/semi-sábios, ex-presidente/ex-presidentes, vice-governador/vice-governadores, sem-cerimónia/sem-cerimónias, sem-luz/sem-luzes, sem-número/sem-números, sem-razão/sem-razões, etc.» («Plural de nomes compostos», J. de M. B., in A Bem da Língua Portuguesa, ano IX, 1958, p. 81).

 

[Texto 6004]

Helder Guégués às 21:09 | comentar | favorito
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28
Jun 15
28
Jun 15

«Senão/se não»

É só escolher

 

    «A direita da coligação (a única que existe) nunca aceitará um conúbio, que dividirá o PSD e que talvez torne o CDS numa força considerável, se não decisiva» («Pelo deserto», Vasco Pulido Valente, Público, 28.06.2015, p. 56).

    Se não quer aprender com os indígenas portugueses, tem de aprender com os indígenas brasileiros: «Outro fator influente, senão decisivo, no curso da atual situação dos Estados Unidos é o relacionamento com a sucessão presidencial» (O Parlamento Necessário, Vol. 2, José Sarney. Rio de Janeiro: Ed. Artenova, 1982, p. 54).

 

[Texto 6003]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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27
Jun 15
27
Jun 15

«Lisbon South Bay»

Para turistas diferentes

 

      Do editorial do Público de ontem: «Depois do malfadado Allgarve, tentativa canhestra de piscar o olho ao turista (e ainda por cima mal sucedida, como se viu) chega agora a vez da margem sul do Tejo abrir o “dicionário” do marketing e transformar Almada, Seixal e Barreiro, nomes com história na história nacional, em Lisbon South Bay. Claro que tal renomeação é feita apenas com intuitos de propaganda, os lugares não vão mudar de nome, mas os estrangeiros, a quem cada vez mais negamos o uso e conhecimento de palavras portuguesas, não deixarão de ficar perplexos com tamanha (e desnecessária) bajulação. O invocado “posicionamento global” soa igualmente a ridículo. Os espanhóis “vendem” as suas terras com
 os nomes originais, orgulhosamente, não os traduzem com medo que os turistas 
não os visitem. Num momento em que por aí tanto se apregoa a “universalidade” da língua portuguesa, isto só mostra que caminhamos em sentido contrário. Até que, um dia, a nossa língua desapareça.»

 

[Texto 6002]

Helder Guégués às 13:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
26
Jun 15
26
Jun 15

«Atenazar = atanazar»

Apertar com tenaz

 

    É o último texto que publico sobre esta obra; os leitores que a comprem e tentem separar o trigo do joio. (Uma ajudinha: o joio, parrudo, resistente, inflexível, não se dobra quando o vento o sacode.) Ao chegar à página 20, vemos, com crescente estupefacção, que Manuel Monteiro (Dicionário de Erros Frequentes da Língua. Queluz de Baixo: Soregra, 2015) quer que se diga e escreva apenas atenazar: «“Atenazar” será o correcto.» É inacreditável esta visão desfocada e empobrecedora do léxico da língua. Rebelo Gonçalves, no seu Vocabulário da Língua Portuguesa, regista atenazar e as variantes atanazar e atazanar (p. 127). Portanto, temos três formas legítimas: atenazar, mais conforme ao étimo; atanazar, com assimilação do e ao a; e atazanar, com metátese do z daquela segunda forma. Camilo, por exemplo, terá usado mais a variante atanazar do que qualquer outra. Aliás, ainda que o étimo seja «tenaz», esta é a variante mais usada. Vamos agora amputar a língua, privarmo-nos do melhor dela? Que pretende Manuel Monteiro?

 

[Texto 6001]

Helder Guégués às 16:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
25
Jun 15

«Rebaldaria/ribaldaria», de novo

Como se escreve?

 

      «É ribaldaria», assevera também Manuel Monteiro. «Porque nunca se lembraria de ir consultar ao dicionário e se o fizesse seria por duvidar da letra a seguir ao dê (d)» (Dicionário de Erros Frequentes da Língua. Queluz de Baixo: Soregra, 2015, p. 167). Bem, com razão, digo eu, pois já se escreveu rebalderia. «Já deve ter depreendido», dirige-se a nós outros, leitores, «que, além do erro ortográfico, a acepção comum, de mera desordem, não é a mais exacta.» Afirma-o depois de escrever que «ribaldaria é a acção de ribaldo (ambas vêm dicionarizadas), que provém do francês antigo ribalt (ribaud no francês moderno), patife, tratante, malandro ou libertino». E termina: «A Infopédia regista ribaldaria como “velhacaria”.» Bem, esta última parte talvez seja culpa minha: quando, em 2013, sugeri ao Departamento de Dicionários da Porto Editora a variante rebaldaria, nunca pensei que a indicassem apenas como sinónimo de velhacaria. É óbvio que são, em todas as acepções, meras variantes: de ribaldaria, por dissimilação, chegou-se a rebaldaria. Tão-só variantes, uma geralmente de génese popular, como sucede, por exemplo, com moscambilha/mescambilha.

 

[Texto 6000]

Helder Guégués às 20:24 | comentar | favorito
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«Per se/per si»

Fica para a 2.ª edição

 

      «“Per si” não existe no português», escreve Manuel Monteiro, autor do novíssimo Dicionário de Erros Frequentes da Língua (Soregra, 2015, p. 147). «Existe, sim», continua, «a expressão latina per se, que significa “por si”.» Permita-me, caro colega, discordar. Supõe-se que a locução primitiva, em português, foi per si, correspondente à latina per se, e com o significado de «por si», «só por si» e «de si», «já de si». No decurso do tempo, por contaminação sintáctica destas últimas locuções, passou a ler-se, aqui e ali, «de per si». É esta, e só esta, a incorrecta, e mesmo assim foi usada por escritores modelares como Herculano.

 

[Texto 5999]

Helder Guégués às 18:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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25
Jun 15

Tradução: «charred wood-clad»

E não vai cair, essa torre-farol?

 

      «Na terça-feira soube-se como vai ser o futuro Museu Guggenheim projectado para a frente portuária daquela cidade báltica: um conjunto de módulos rectangulares e uma torre-farol em madeira carbonizada e vidro, da autoria da dupla franco-japonesa Nicolas Moreau e Hiroko Kusunoki, um casal que abriu o seu próprio atelier em Paris em 2011» («O novo Guggenheim vai ser assim, se Helsínquia deixar», Kathleen Gomes, Público, 25.06.2015, p. 36).

   «Madeira carbonizada»? E a torre-farol não se desmorona? Em inglês, está «charred wood-clad», e charred é, de facto, reduzir a carvão, carbonizar... mas também chamuscar. Silas Martí, repórter de artes plásticas e arquitectura da Folha de S. Paulo, escreve que é «madeira negra, um material típico da Finlândia». O que também é, convenhamos, equívoco. Já «enegrecida» ou «chamuscada» seria mais preciso. Veremos o que a imprensa diz nos próximos tempos.

 

[Texto 5998]

Helder Guégués às 15:22 | comentar | favorito
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