31
Jul 15

Os verdadeiros livros do Brasil

Agora é mais fácil

 

      Algumas vezes por ano, o proprietário da Livraria Palavras Mutantes, na Alameda da Azenha de Cima, 230, em Matosinhos, tem portador que traz obras, novas e usadas, do Brasil. Aproveitem esta oportunidade, pois para os próximos dias terá portador. Imaginem que precisam (e precisam mesmo) do Dicionário Prático de Regência Verbal, de Celso Pedro Luft. É só encomendarem.

 

 

[Texto 6104]

Helder Guégués às 21:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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CMVM só em inglês

Impressionante

 

      «Diz o relatório da CMVM (apenas escrito em inglês) que, se nada mudar, o regresso dos emigrantes (e o impacto nas contas das empresas), somado ao “lento crescimento verificado na criação líquida de postos de trabalho”, pode “criar um stress adicional no sistema social e afectar a recuperação de uma já frágil economia”» («Relatório alerta que regresso de emigrantes de países como Angola pode afectar economia», Luís Villalobos, Público, 31.07.2015, p. 17).

      Isto é impressionante! Um relatório, decerto para divulgação no país, da Comissão do Mercado de Valores Mobiliário (CMVM), uma entidade portuguesa, apenas escrito em inglês. Ao que chegámos.

 

[Texto 6103]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Jul 15

Ortografia: «talqualmente»

Apenasmente isto

 

      «E conhece-me tal-qualmente eu sou» (Dama de Espadas — Crónica dos Loucos Amantes, Mário Zambujal. Revisão: Henrique Tavares e Castro. Lisboa: Clube do Autor, 5.ª ed., 2013, p. 134).

      É advérbio que pouco se vê, motivo suficiente para o trazer para aqui. Mas não apenas por isso. Será mesmo aquela a grafia? A dúvida — «talqualmente» ou «tal-qualmente»? — já passou pelo Ciberdúvidas. Resposta do consultor Carlos Marinheiro: «A grafia corre{#c|}ta deste advérbio é tal-qualmente; significa «assim mesmo; sem nenhuma diferença; exa{#c|}tamente». [Fonte: Dicionário da Língua Portuguesa 2008, da Porto Editora].» Pois, para mim, correcto é talqualmente. Não vejo razão para ser grafado com hífen.

      Há quem se espante muito com tais advérbios. Não nos esqueçamos que a receita para formar um advérbio de modo é tomar a forma feminina do adjectivo e acrescentar-lhe o sufixo -mente: divina + mente; tola + mente; etc. Isto é o que as gramáticas explicam, esquecendo que há excepções absolutamente consensuais, como, por exemplo, acintemente, malmente (ainda que se possa explicar por um arcaico malamente), apenasmente, só usado no Brasil, etc., em que acinte, mal e apenas são advérbios e não adjectivos. E a locução conjuntiva tal qual também é usada adverbialmente: Fizeram tal qual.

 

[Texto 6102] 

Helder Guégués às 07:12 | comentar | ver comentários (6) | favorito
30
Jul 15

«Assustar os mercados»

Os mercados antropomorfizados

 

      «Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém» (Os Maias, VI).

      Como se pode ver, já no século XIX os mercados, que hoje dominam a nossa vida, estavam antropomorfizados. E já nessa altura os políticos empurravam com a barriga (como agora se diz, de forma horrível, deselegante, imprecisa, num linguajar popular, sobretudo a propósito da Grécia) os problemas.

 

[Texto 6101]

Helder Guégués às 14:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «pigmeu»

Os *baka e os pigmeus...

 

    «“Populações humanas de pequena estatura existem em todos os continentes. O termo ‘pigmeu’ tem sido largamente usado para todas elas sem um fundamento biológico”, lê-se no artigo. “[Mas] como os estudos genéticos têm sugerido que os pigmeus africanos partilham um antepassado comum, há uma fundamentação biológica para a palavra ‘pigmeu’, se for restringida às populações africanas”, defende a equipa [num artigo publicado na última edição da revista Nature Communications]» («Pigmeus africanos, um símbolo da adaptação humana», Público, 30.07.2015, p. 27).

   Pelo menos em relação a isto, os dicionários parecem estar em sintonia com a ciência, pois referem que os pigmeus (vá lá, não escrevem «os pigmeu», à semelhança do que se lê no artigo acima: «Os baka, um grupo étnico que vive no Oeste da África equatorial, etc.») vivem sobretudo na África Central.

 

[Texto 6100]

Helder Guégués às 14:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Jul 15

«Choramigar/choramingar»

Foi assim que ele escreveu

 

      «Mas a triste senhora continuava a choramigar.» Trata-se de Maria Eduarda Runa, mulher de Afonso da Maia. Eça de Queiroz foi assim que escreveu, «choramigar». Pois há por aí edições que alteraram para «choramingar»! Quando quis, noutros passos, Eça usou a variante «choramingar»: «O Domingos ficava choramingando com um lenço de cores sobre a face.» Lembram-se do que diz o Correcto nas Palestras com o Povo, de João de Castro Lopes? «O povo, meu Vicioso, gosta muito de nasalar as palavras desprovidas do n, e por isso é que também diz: planta-forma em vez de plata-forma, corpanzil, em lugar de corpazil, e outras.»

 

[Texto 6099]

Helder Guégués às 11:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Jul 15

Isso é em quimbundo

É outro, com certeza

 

     «[Yami] Canta em português, mas também em kimbundu e umbundu, apaixonado pela fonética destas línguas angolanas» («“Não consigo fugir do meu lado étnico”, diz Yami [Aloelela], hoje mais pop», Nuno Pacheco, Público, 29.07.2015, p. 28).

    Ia dizer que é o Nuno Pacheco que aparece muito por aí, furibundo, a gritar contra o Acordo Ortográfico de 1990, mas não pode ser, evidentemente. Nunca Nuno Pacheco escreveria «kimbundu» sabendo que «quimbundo» é melhor, mais conforme à ortografia que defende, nem optaria por «umbundu» se soubesse que «umbundo» é preferível. É outro.

 

[Texto 6098]

Helder Guégués às 17:05 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Afinal, também «implementam»

Piratas da língua

 

      «O Dr. António Costa, na sua moção ao Congresso do PS, e, agora, no programa eleitoral para as eleições legislativas, reitera, em nome do PS, que se compromete com a: “(...) implementação das ações (sic) necessárias à harmonização ortográfica da língua portuguesa e da terminologia técnica e científica, nos termos dos acordos estabelecidos”» («As posições dos partidos políticos sobre o “Acordo Ortográfico” de 1990 (I)», Ivo Miguel Barroso e Artur Magalhães Mateus, Público, 29.07.2015, p. 44).

      Aquele sic é para quê? Decerto, «implementação» é um horror, que sempre combaterei (muitas vezes em vão), mas parece que os autores condenam é a «implementação das ações», porque, mais à frente, escrevem: «Nem o actual primeiro-ministro nem o seu ministro da Educação, Nuno Crato, tomaram qualquer iniciativa para regredir ou suster o processo de implementação do AO90, herdado do Governo de José Sócrates; pelo contrário.» E esta forma de escrever — a última frase do texto — não merece um sic monumental? «Hoje abordámos os Partidos do “Arco da Governação” — PS, PSD, CDS-PP. Amanhã abordaremos os restantes Partidos.»

 

[Texto 6097]

Helder Guégués às 07:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Forrobodó» ou «farrabadó»?

Fica a ideia

 

      «— Prometi não revelar à mulher do morto quem me falou dos farrabadós no parque» (Dama de Espadas — Crónica dos Loucos Amantes, Mário Zambujal. Lisboa: Clube do Autor, 5.ª ed., 2013, p. 205).

      É o que não falta nesta obra, gralhas e erros. Mas... e se «farrabadó» estiver certo? Vejam isto: «farra “momento de diversão”: dado como de origen controvertido, prob. expresivo, sudamericano, cs. o brasileño, parece más bien haberse generado como voz jergal en pt. peninsular, a consecuencia de contactos naf., del mar. fǝrḥa < cl. farḥah “festejo”, corroborado por el pt. farrabadó, en Houaiss sólo el armonizado forrobodó, lit. “fiesta de beduinos”, como venimos explicando desde 1996:55-54, con más detalles en 2008:298» («Los arabismos y otras voces medio-orientales del Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa», Federico Corriente. In Filol. Linguíst. Port., São Paulo, v. 15, n. spe, pp. 69-184, Dez. 2013).

 

[Texto 6096]

Helder Guégués às 07:03 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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29
Jul 15

Como se revê por aí

Merecia ser revista a sério

 

      «Ignoro quem são e o que serão um ao outro mas decido imaginá-los como um par de namorados com pressa de chegar a algum sítio onde não exista outra pressa se não a de engancharem de frente» (Dama de Espadas — Crónica dos Loucos Amantes, Mário Zambujal. Lisboa: Clube do Autor, 5.ª ed., 2013, pp. 143-44). «No primeiro relance topo dona Helena da pastelaria num vestido amarelo que se afigura na iminência de rebentar à rectaguarda» (idem, ibidem, p. 160). «Receio ter passado da alegria para a embriaguês e, pior, que ela tenha atingido a zona fatal do azedume» (idem, ibidem, p. 194). «Aí já foi lesta a Nélia Trabuquinhas, um azougue de olhar manso que se péla por crimes de morte e similares tragédias, fervor que a alçou a número dois da secção» (idem, ibidem, p. 198).

      É apenas uma pequena amostra, mas com erros bem diferentes entre si. Se depois de revista apresenta erros desta natureza, como estaria antes do «trabalho» do revisor?

 

[Texto 6095]

Helder Guégués às 00:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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