31
Ago 15
31
Ago 15

Tradução: «touting for reward»

Parece mais grave

 

      «A mulher disse-me que eu ia ser acusado de tocar ilegalmente, ou de “aliciamento” para lhe dar o título formal» (A Minha História com Bob, James Bowen. Tradução de Ana Lourenço. Porto: Porto Editora, 1.ª ed., reimpressão de 2015, p. 107).

     Será «aliciamento» a melhor tradução para touting for reward? Tout tem mais que ver com venda ilegal, candonga, mercado negro, angariação ilegal.

 

[Texto 6190]

Helder Guégués às 08:45 | comentar | favorito
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30
Ago 15
30
Ago 15

Léxico: «incarbonização»

De carbono, incarbonizado

 

    «“A flor está incarbonizada, que é um processo de fossilização”, acrescenta o investigador sobre esse processo que consiste no enriquecimento relativo de carbono à custa da libertação gradual dos componentes voláteis e das moléculas orgânicas da planta» («As primeiras flores de Portugal são (também) as primeiras flores da Terra», Teresa Firmino, Público, p. 32).

 

[Texto 6189] 

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
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29
Ago 15

Alcácer Quibir e Alcácer Ceguer

Agora é quase sempre assim

 

      «Ceuta permanecerá isolada até à conquista de Alcácer Ceguer, em 1458. Seguem-se Arzila e Tânger, em 1471. Em 1502 os portugueses instalam-se em Mazagão. Mas, por esta altura, Ceuta era já “uma peça indiscutivelmente menor de um império que se foi construindo ao longo dos anos, espalhado por três continentes”, como escreveu Paulo Drumond Braga. Marrocos perde prioridade para as riquezas da Índia e, logo depois, do Brasil. Alcácer-Ceguer e Arzila são abandonadas em 1549/1550. D. Sebastião ainda tenta recuperar a aura das conquistas em África de D. João I, D. Duarte e essencialmente de D. Afonso V. Mas o seu sonho esboroa-se em 1578 em Alcácer-Quibir» («O dia em que Portugal deu o salto para o mundo», Manuel Carvalho, Público, p. 6).

      Em relação ao primeiro topónimo, o jornalista tem dúvidas, pois grafa-o ora sem hífen ora com hífen. Não leva hífen: Alcácer Ceguer. Em relação ao segundo, não sabemos se tem dúvidas, mas escreve-o mal: é Alcácer Quibir (ou Quivir). Poucas vezes, essa é a verdade, se vê este último sem hífen.

 

[Texto 6188]

Helder Guégués às 07:30 | comentar | favorito
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29
Ago 15

Abrir sem arrombar

Menos violência

 

      «Mas as portas lá em casa tinham aquelas maçanetas com um botão no meio e aprendi a arrombá-las facilmente com um gancho» (A Minha História com Bob, James Bowen. Tradução de Ana Lourenço. Porto: Porto Editora, 1.ª ed., reimpressão de 2015, p. 29).

    No original está to pick, que é mais abrir do que arrombar, que envolve alguma violência e estrago. «I learned to pick them really easily with a Bobby pin.» Ganchos há muitos; Bobby pin é um gancho do cabelo.

 

[Texto 6187]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
28
Ago 15
28
Ago 15

Dificuldades com o plural

Encolheres e meneares

 

      «Tudo o que obtive foi olhares inexpressivos e encolher de ombros» (A Minha História com Bob, James Bowen. Tradução de Ana Lourenço. Porto: Porto Editora, 1.ª ed., reimpressão de 2015, p. 16).

    Problemas com o plural, Ana Lourenço? Parece que o autor não os teve: «All I got was blank looks and shrugs.» Será então: «Tudo o que obtive foi olhares inexpressivos e encolheres de ombros.» Um infinitivo substantivado é um substantivo e pluraliza como os substantivos. Simplicíssimo, pois. «Francisco Teimas voltou para o seu lugar, embezerrado com a repreensão, que os companheiros pareciam lamentar com encolheres de ombros e meneares de cabeça» (Horizonte Cerrado. Obras Completas de Alves Redol, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1981, p. 214).

 

[Texto 6186]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | favorito
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27
Ago 15
27
Ago 15

«Lua-de-mel» com o AOLP90

Estas regras...

 

     «Isto porque Peskov e a mulher terão, de acordo com informações avançadas pelo líder da oposição Alexei Navalny, passado a lua-de-mel no Mediterrâneo a bordo de um iate de luxo cujo aluguer diário ronda os 350 mil euros» («A misteriosa vida milionária do assessor de Vladimir Putin», Diário de Notícias, 20.08.2015, p. 50).

     Está entre as consagradas pelo uso? Há quem diga que não, como há quem diga que sim. Estas regras...

 

[Texto 6185] 

Helder Guégués às 08:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Ago 15
26
Ago 15

Ortografia: «Holocausto»

Por antonomásia

 

   «Em 1966, o Memorial de Yad Yashem (em recordação do holocausto), situado em Jerusalém, presta-lhe [a Aristides de Sousa Mendes] homenagem atribuindo-lhe o título de “justo entre as nações” (é o único português que tem esse título) e é-lhe concedida a mais alta distinção: uma medalha em ouro comemorativa com a seguinte transcrição do Talmude: “Quem salva uma vida humana é como se salvasse o mundo inteiro”» (Salazar — A Cadeira do Poder, Manuel Poirier Braz. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2008, pp. 117-18).

     Caro Manuel Poirier Braz, holocaustos há muitos, todos os dias; Holocausto houve só um, por antonomásia, e grande, maiúsculo. Não, a culpa não pode ser só do revisor.

 

[Texto 6184]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | favorito
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25
Ago 15
25
Ago 15

Ainda se usava «mal-estar»

Há muito, muito tempo

 

      «Nos últimos anos, depois do ataque prussiano à França, a utilização da língua alemã provocava-lhe um certo mal-estar» (O Último Cais, Helena Marques. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1994, p. 11).

    Passados todos estes anos, mais de vinte, editores, autores e mesmo revisores achariam mais adequado «desconforto» em vez de «mal-estar»... Talvez até «corrigissem»...

 

[Texto 6183]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | favorito
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24
Ago 15
24
Ago 15

Léxico: «duas-peças»

É uma solução

 

      «A voz de Luciana sussurra “Marcos, está acordado?”, ela inclina-se para beijá-lo, reclama a sua atenção para a toilette nova chegada de Lisboa: é um duas-peças de sablé azul-cinza, mais cinza do que azul, a saia muito ousada descobre totalmente os tornozelos revestidos de finíssima seda cinzenta, no mesmo tom dos sapatos e do chapéu, só um magnífico colar de granadas quebra a sábia harmonia do conjunto» (O Último Cais, Helena Marques. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1994, p. 178).

     Tanto quanto me lembro, nunca antes tinha visto. Em vez do galicismo tailleur, duas-peças, porque aquele traje é composto de duas peças, saia e casaco. Não sei se Mário Zambujal não o aportuguesou já em «taiêr»... Não? Aqui fica a sugestão.

 

[Texto 6182]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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23
Ago 15
23
Ago 15

O valor da repetição

Uma técnica eficaz

 

      «Bem difícil decerto, doutor, bem difícil» (O Último Cais, Helena Marques. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1994, p. 15). Na oralidade, que a frase reproduz, são muito comuns estas repetições. Nesta obra, porém, encontra-se também muitas vezes no discurso indirecto. «Constança deu-se conta de quanto sentia, bem fundo, bem fundo, aquele finalmente no minuto em que o padre vigário de Santa Luzia se curvou para fechar os olhos da morta» (idem, ibidem, p. 39). «Nunca tinha sentido aquela urgência, aquela necessidade imperiosa de permanecer encostada ao sexo de Marcos, movendo-se, movendo-se, à espera de qualquer coisa que havia de vir e seria muito melhor e mais forte do que o perturbante prazer que já então sentia» (idem, ibidem, p. 53). «Mas ainda bem, ainda bem, segredos assim não se partilham» (idem, ibidem, p. 54). «A memória de Catarina Isabel reteria também, durante longos, longos anos, nítida, rutilante e imaterial, a lembrança de um duplo arco-íris que surgiu sobre o mar, do lado da ponta do Garajau, em curva perfeita e delicada» (idem, ibidem, p. 113). «Na outra mão, a doente segura o rosário de ametistas que o primo Antero trouxera do Brasil há tantos, tantos anos» (idem, ibidem, p. 142). «Mas por uma vez, uma só vez, vai quebrar as normas e correr o risco» (idem, ibidem, p. 155).

 

[Texto 6181]

Helder Guégués às 07:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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