30
Set 15
30
Set 15

«Excrescência» e «excrecência»?

Ele é que tinha razão

 

      «Convicto da excrecencia espiritual, crê-se dotado de fluidos nérveos, magnetismo, electricidade, etherisação» (O Que Fazem Mulheres, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceira António Maria Pereira, 4.ª ed., 1907, p. 27).

      Ah, a ortografia... Todos os autores têm as suas manias, quantas vezes contra a norma. Práticas desviantes (e há-de haver casos de parafilia...). Apetece-lhes, e pronto, não se questiona. Actualmente, nenhum dicionário regista «excrecência». É, contudo, a ortografia em castelhano, excrecencia. Como vêm, tanto nesta língua como em português, do latim excrecentĭa, parece que Camilo tinha razão e queria endireitar (já que é orto + grafia) a forma como se escrevia.

 

[Texto 6283]

Helder Guégués às 21:41 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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29
Set 15

Ortografia: «franco-atirador»

Vamos ver se percebi (talvez não)

 

    Hoje tive de usar a palavra «franco-atirador» (atenção ao plural). Sabem como se escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990? Não? Isso é que é pior. «Francoatirador». Sim, tem a vantagem de ninguém se enganar no plural. Mas reparem: antes do AO90, escrevia-se com hífen, «franco-atirador». No Brasil, com o Acordo Ortográfico de 1990, continuam a escrever da mesma forma, «franco-atirador». É a chamada desunificação ortográfica. Às vezes, porém, dá para disfarçar na capa, como na mais recente tradução do livro de Arturo Pérez-Reverte, publicado pelas Edições ASA,

 

     O

     Franco

     Atirador

     Paciente

 

    Paciência. Ou revolta.

 

 

[Texto 6282]

Helder Guégués às 18:16 | comentar | ver comentários (12) | favorito
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Tradução: «bookend»

Mais vocabulário

 

      Em inglês é muito sugestivo e simples: bookend. Contudo, acabei de vê-lo vertido para «anteparo para livros». Ora, sempre se disse cerra-livros ou encosta-livros.

   «Os cães sentaram-se, subitamente tão inofensivos como um par de cerra-livros» (Um Beijo Inesquecível, Teresa Medeiros. Tradução: Carmo Vasconcelos Romão. Alfragide: Quinta Essência, 2013).

 

[Texto 6281]

Helder Guégués às 18:13 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Set 15

«Fémur», mas «femoral»

Veio da Roménia

 

      A professora — não vou dizer o nome, para não lhe estragar o dia — escreveu «veia femural». É censurável que uma professora erre na ortografia, isso sem dúvida, mas a ortografia tem destas coisas danadas: de «fémur», «femoral»! É determinado pela etimologia (vem do latim femorāle-), não se formou na nossa língua. É assim também em castelhano, catalão, francês, italiano... Até em inglês. Curiosamente, não em romeno, que é também língua neolatina: femural.

 

[Texto 6280]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (2) | favorito
28
Set 15
28
Set 15

«Quando/enquanto»

Basta a conjunção

 

     «Pelo menos 100 mil americanos sofreram abusos sexuais por membros do clero, enquanto crianças, segundo um relatório elaborado por analistas de seguros para o Vaticano em 2012» («Papa Francisco, político e preocupado com a justiça, despede-se dos EUA», Clara Barata, Público, 28.09.2015, p. 25).

   Que deve estar ali uma conjunção, não há dúvida. Não quereria a jornalista, porém, escrever «quando crianças»? Não. São equivalentes («no tempo em que»), e hoje em dia pouco usadas, como um provérbio recolhido por José Pedro Machado confirma: «Guarda enquanto moço, acharás na velhice.» Hoje, mais comum é o recurso a um verbo: «quando eram pequenos».

    «Primava pela barba turca, tão retinta que, depois de escanhoado, quedava a salpicar-lhe a tez uma escumilha de azeviche que nem vaporizada à pistola. Pois que fora marítimo quando moço, resultara daí conservar maneiras assimétricas» (Um Escritor Confessa-se, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 60). «O cronista diz que ele, enquanto moço, era alvo e rosado, adquirindo com a idade um tom de pele baço e rugoso» (O Pórtico e a Nave, Joaquim Manso. Lisboa: Ática, 1943, p. 66).

 

[Texto 6279] 

Helder Guégués às 20:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Set 15

E os erros factuais?

Para lá da gramática

 

      «O fumo branco subiu aos céus às 18h:06m (hora portuguesa) do dia 13 de março de 2014» (Papa Francisco, As Lições de Liderança, Arménio Rego e Miguel Pina e Cunha. Lisboa: Edições Sílabo, 2015, p. 75).

      Os revisores também corrigem erros factuais, e neste caso alguém se esqueceu disso. Jorge Mario Bergoglio foi eleito papa no dia 13 de Março, sim, mas de 2013. Se não for pecado, é erro. E que maneira abstrusa é aquela de indicar o tempo? Ou assim — 18h06 —, ou assim — 18:06.

 

[Texto 6278]

Helder Guégués às 23:48 | comentar | favorito
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Locução prepositiva: «defronte de»

Duas ou mais palavras

 

   «Estamos, pois, defronte uma figura carismática e controversa, suscitadora de amores e ódios» (Papa Francisco, As Lições de Liderança, Arménio Rego e Miguel Pina e Cunha. Lisboa: Edições Sílabo, 2015, p. 83).

     Está errado, pois trata-se de uma locução prepositiva: com o advérbio defronte usa-se a preposição de — defronte de (Menos correcto, mas mais usado, é com a preposição a.) «Recobrando o alento, viu defronte de si uma criada, que lhe dizia banais e frias expressões de alívio» (Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco).

 

[Texto 6277]

Helder Guégués às 22:29 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Dar missa»

Dizer, celebrar, dar

 

      «O papa deu missa na Catedral dos Santos Pedro e Paulo [Filadélfia], onde falou do que deve ser o papel da Igreja» (Márcia Rodrigues, Telejornal, RTP1, 26.09.2015). Logo ao meu lado se comentou que não se usa o verbo dar nesta locução, mas sim «dizer» ou «celebrar». Não é assim. É pouco usado, em especial na escrita, mas usa-se: «Quando apareceu de manhã para dar missa, ninguém pareceu pensar, O Irmão Reconciliado está mais baixo. Ninguém tropeçou nele ao longo do dia. Ninguém lhe faltou ao respeito. Olharam um bocadinho mais para baixo quando falavam, mas nada que se notasse na voz» (O Conto da Gazela, Catarina Fonseca. Lisboa: Editorial Caminho, 2003, p. 82). (A primeira frase da abonação redigi-la-ia de outra forma: «Quando apareceu de manhã para dar missa, ninguém pareceu pensar que o Irmão Reconciliado estava mais baixo.» Por exemplo, mas há outras formas.)

 

[Texto 6276]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Set 15

Pronúncia: «transesofágico»

Uma experiência ética

 

      Foi submetido a um exame ao coração por via transesofágica. Isso é mau. Mas como pronunciará a palavra a maioria dos falantes? Muitos deles — comprovei com alguns e infiro em relação a outros — pronunciarão o prefixo trans- como se fosse seguido de elemento iniciado por s, em cujo caso só se escreve um s, que, todavia, se profere como se fora dobrado — transecular (trans + secular), transubstanciação (trans + substanciação). Quem não viu já alguma vez, por exemplo, o erro «transsexual»? Contudo, em transesofágico, ao prefixo, que contém uma vogal nasalada, segue-se elemento começado por vogal, pelo que o s é intervocálico e se pronuncia z. Agora peguem aí no ser humano mais à mão e façam a experiência: escrevem a palavra «transesofágico» num papel e pedem a essa pessoa que a leia. Poderão ter alguma surpresa.

 

[Texto 6275]

Helder Guégués às 16:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Set 15
26
Set 15

«Descuidar-se», uma acepção esquecida

Descuidaram-se

 

      «E certa vez que ia ter uma escritura, e todos se puseram de pé, um dos outorgantes, coitado, descuidou-se: um prolongado borborigmo, e logo uma ventosidade impudente manchou o silêncio branco, notarial e solene» (As Torrentes da Memória: Histórias e Inconfidências do Arco-da-Velha, Luís Cajão. Lisboa: Palas Editores, 1979, p. 74). Descuidar-se, nesta acepção de deixar escapar uma ventosidade, não aparece nos dicionários, o que só pode dever-se a esquecimento dos dicionaristas, porque, sendo forma eufemística, por pudicícia não é. Heinz Kröll, porém, não se esqueceu.

 

[Texto 6274]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | favorito