31
Out 15
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Out 15

Sobre «customizar»

Truz, truz, lógica

 

      Uma consulente, Ana Faria, pergunta a si mesma e ao Ciberdúvidas se é correcto o uso de «costumizar» em vez de «personalizar». A consultora, Sara Mourato, responde («“Customizar” e personalizar», Ciberdúvidas, 23.10.2015), como seria de esperar, que o verbo adequado é «personalizar». Em rigor, a resposta devia ficar por aqui. Não sei que português com um pingo de vergonha é capaz de usar «customizar». Na verdade, o que habitualmente se usa mais é esta, mas a consulente escreveu «costumizar», o que lançou a consultora na pista do que reputa — mas sem razão — a grafia «mais correcta».

    «Antes de mais», escreve a consultora, «ressalta-se que tanto o dicionário Priberam como o Dicionário da Porto Editora registam o verbo "customizar" (grafado desta forma) como sinónimo de personalizar. Cremos que este verbo, que entrou recentemente na língua portuguesa, é uma adaptação a partir do inglês customize. Customize, em inglês, significa “fazer ou mudar alguma coisa de acordo com as necessidades do cliente/freguês (customer)”, e, portanto, é sinónimo de personalizar.» O primeiro daqueles dicionários regista ambas as formas, pelo menos hoje; o segundo regista apenas «customizar», mas o Vocabulário Ortográfico da Porto Editora regista «costumizar». (Claro que não se diz, em bom português, «adaptação a partir do inglês», mas simplesmente «adaptação do inglês».)

     «Vejamos agora», convida-nos a consultora, «a formação do verbo "costumizar": este verbo é formado por costum- + izar. O elemento de composição latino costum- significa “costume, hábito, uso”, e a terminação -izar tem carácter frequentativo, tal como em arborizar (Diconário Houaiss 2001). Assim, em língua portuguesa, podíamos assumir que costumizar seria “fazer com que passe a costume”, e não “adaptar às necessidades do cliente”. Para evitar tal equívoco, o melhor será, portanto, recorrer a personalizar.» (Senhora consultora, não confunda aspas altas com plicas duplas. E “assumir” será o verbo adequado?)

      O sufixo verbal -izar («terminação» não me parece o melhor termo), o mais fecundo na língua portuguesa, não tem significação frequentativa, mas antes causativa. Confundiu, decerto, com o sufixo -itar, que, juntamente com outros, como -ear, -ejar, -icar, expressam repetição de uma acção, ou seja, o tal carácter frequentativo. Com o sufixo -izar, o sentido é o de «transformar em X, tornar-se X, adaptar a X», como escreve Antônio José Sandmann em Formação de Palavras no Português Contemporâneo (Curitiba: Scientia et Labor, 1989, p. 162). Não é esse, porém, o maior erro: em customizar, não vejo custom- + izar, mas antes customiz(e) + ar. Logo, o sufixo verbal é outro. Todavia, se fosse -izar — partindo de «costume» —, seria o mesmo do vocábulo mais adequado, personalizar. Neste caso já não é frequentativo? Os leitores, se analisarem com algum cuidado e demora a resposta da consultora, só podem ficar com mais dúvidas.  

 

[Texto 6369]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Out 15

Profissionais da comunicação...

Pobres ouvintes

 

      «O espírito da ciência é o de se autocorrigir» (Cosmos, Carl Sagan. Lisboa: Gradiva, s.d., p. 14). Já vimos que na nossa língua isto não se diz assim. Contudo, como é o mesmo sujeito, passa. Hoje, porém — porque há sempre pior —, um comentador político afirmava, na Antena 1, com entono doutoral, que o «Presidente da República autoexcluiu os partidos da esquerda». Que alguém nos salve.

 

[Texto 6368]

Helder Guégués às 21:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Out 15

«Ponte», outra acepção

Sendo assim...

 

      Anteontem, vi parte do primeiro episódio (de seis) da série A Arte Elétrica em Portugal, de que gostei muito. Às tantas, aparece um separador e uma definição: «“Ponte” ajuste de altura das cordas». É, evidentemente, o nosso cavalete, que serve para regular as posições horizontal e vertical das cordas. Terá sido mera tradução do inglês bridge («a piece raising the strings of a musical instrument» — como se lê no Merriam-Webster), mas o certo é que vingou. Com a importação das guitarras eléctricas, nos anos 50, 60, 70, importaram-se igualmente alguns termos para designar as suas partes. Contudo, tendo em conta que é tradução, e não adaptação, e se usa, não me parece condenável e, pelo contrário, deve figurar como mais uma acepção no respectivo verbete dos dicionários.

 

[Texto 6367]

Helder Guégués às 08:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Out 15

«Pé-de-meia», sempre

Locuções de qualquer tipo, sim, mas...

 

      Mas que porra!, podia eu dizer, mas não digo. Alguém escreveu aqui «pé de meia», porque «o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico». Então, é com hífenes, nada mudou. Ah, mudou, sim, senhor revisor! Veja aqui no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Ah, então leia aqui no ponto 6.º, Base XV, do Acordo Ortográfico de 1990. Queira desculpar. Isto de as excepções consagradas pelo uso ser um conceito aberto foi outra argolada.

 

[Texto 6366]

Helder Guégués às 22:42 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Colocações culinárias

É uma maldição

 

      «Açorda madeirense – Açorda feita a partir de pão migado, ou em pequenos pedaços, e milho cozido. Rega-se com azeite e coloca-se alhos esmagados, tomilho e pimenta da terra; de seguida, escalda-se com água a ferver, na qual se escalfaram ovos para acompanhar. À parte, serve-se batata-doce cozida ou assada com casca.» É uma das entradas do novíssimo Dicionário Prático de Cozinha Portuguesa, de Virgílio Nogueiro Gomes 
(Marcador Editora/Presença, 2015, p. 20). Vamos lá ver: a quem é que não ocorre logo, de uma penada, meia dúzia de verbos melhores, mais expressivos, em vez daquele «coloca-se»? Se procurarmos, encontramos casos piores, como é logo este da página 21: «Adobe – Termo transmontano para colocar carnes em temperos antes de se fazerem enchidos. Também se diz adoba.» Que significa isto exactamente? É claro que nunca numa recensão diriam fosse o que fosse sobre estas questões. Noutros casos, a opção é discutível. Por exemplo, porquê registar «Ameixas d’Elvas DOP» desta forma? E esperemos que a grafia «açerola» (p. 18) não seja convicção do revisor nem vingue.

 

[Texto 6365]

Helder Guégués às 15:47 | comentar | favorito
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E a metafonia?

Os destroços da pronúncia

 

      José Manuel Rosendo é o enviado especial da Antena 1 à Síria. Nos noticiários de hoje: «O percurso ao longo do Curdistão Sírio é através de uma estrada muito maltratada preenchida por postos de controlo das várias milícias e também da Polícia curda, postos de controlo improvisados com destroços de guerra colocados na estrada para obrigarem os carros a parar.» Nos três casos, saiu assim: «pôstos», «pôstos», «destrôços». Será convicção.

      Eu é que podia ser mudo, não falo com quase ninguém. Um repórter tem de saber falar. Se escrevermos e falarmos como nos der na telha, não nos vamos entender. «Postos» e «destroços» são plurais metafónicos, José Manuel Rosendo. Algumas palavras, quando são pluralizadas, além de receberem a respectiva desinência, mudam o timbre da vogal tónica, que passa de fechada a aberta. É o caso destes dois: «póstos» e «destróços».

 

[Texto 6364]

Helder Guégués às 15:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Out 15

Como se traduz por cá

Dediquem-se a coisas mais fáceis

 

      Javier Cercas publicou um novo livro, O Impostor (Assírio & Alvim, com tradução de Helena Pitta), sobre o espanhol Enric Marco, um falso sobrevivente dos campos da morte nazis. Teresa Nicolau, da RTP, foi entrevistá-lo. É um romance sem ficção, salienta o autor. Não há ficção. «Y se me preguntas por qué, yo te contesto: “Muy fácil: etc.» Nas legendas: «E se me perguntar porque contesto, é muito fácil.» Já está no título, mas repito-o aqui: dediquem-se a coisas mais fáceis.

 

[Texto 6363]

Helder Guégués às 13:41 | comentar | favorito
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28
Out 15

«Empenhar» e «penhorar»

Definitivamente aprendido

 

      «“Esta obra é feita para uma exposição, de pintores e amadores, em Roma. Sendo uma pintura com um tema religioso, comum naquela altura, é uma obra de qualidade excecional, onde Sequeira investe toda a sua habilidade”, diz Alexandra Markl [conservadora do MNAA e especialista nas obras de Sequeira]. “Quando ele morreu, a família ficou em más condições económicas e empenhou-a, em Roma. Depois nos anos 40 do século XIX, ela foi adquirida pelo primeiro duque de Palmela e veio para Portugal”» («Museu de Arte Antiga pede seis cêntimos a cada português», Maria João Caetano, Diário de Notícias, 28.10.2015, p. 41).

   Está certo, mas não é raro haver confusão entre «penhor» e «penhora», «empenhar» e «penhorar». Penhor é um direito real de garantia: o devedor, para garantir o pagamento da dívida, entrega um bem (também há penhor de direitos). O verbo correspondente é empenhar (ou caído em desuso, apenhar). Popularmente, também se diz pôr no prego, porque as casas de penhores também são conhecidas por prego. Segundo Antenor Nascentes, a expressão começou com os relógios, que ficavam pendurados de um prego nas paredes nas casas de penhores enquanto se não voltava com o dinheiro e a cautela de prego, documento que atestava que algum objecto fora ali depositado. Penhora é a apreensão judicial de bens, que tem como verbo correspondente penhorar.

 

[Texto 6362]

Helder Guégués às 20:58 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Out 15

Léxico: «horeca»

Heureca

 

      «No segmento horeca (hotelaria, restauração e cafés), a quota é de 40%, “dando sinais de estar a crescer”» («Delta lança cevada em cápsulas
para captar novos consumidores», Camilo Soldado, Público, 28.10.2015, p. 24).

      Há anos já que falei desta amálgama — hotelaria, restauração, cafés —, que é uma forma de neologia, no Assim Mesmo. Continua, apesar de ser usada com frequência, ausente dos dicionários.

 

[Texto 6361]

Helder Guégués às 13:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Out 15

«Tivemos/‘tivemos/estivemos»

Vão longe

 

      «O Papa e Davis tiveram juntos cerca de 15 minutos e conversaram sempre em inglês. “Ele agarrou a minha mão, eu abracei-o e ele também me abraçou. Eu tinha lágrimas a sair dos olhos”, disse a funcionária em entrevista à cadeia televisiva “ABC News”» (Jornal de Notícias, edição em linha, 1.10.2015).

      Há gramáticas de português para estrangeiros que chamam a atenção para o verbo «estar» sofrer contracções (e não é por estar no termo), apresentando-se na oralidade, sobretudo na linguagem popular, com tempos que se podem confundir com os do verbo «ter». Mas — só faltava que não — indicam essas formas contraídas com um apóstrofo: ‘tivemos por estivemos, diferente de tivemos, do verbo «estar». Um erro assim, ainda que na versão digital, num jornal é que ultrapassa tudo o que é tolerável. E, no entanto, ainda na semana passada o encontrei num texto que revi.

 

[Texto 6360]

Helder Guégués às 15:02 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Out 15

«Fazer/desfazer a barba»

Não percam tempo

 

      Aqui perto de casa, vai abrir no dia 2 de Novembro uma nova barbearia, outro negócio da moda — a Barbearia Fonseca Vintage. Sem o acrescento da palavra inglesa, não teria êxito, como se sabe. Vejam agora o que se propõem fazer, ou desfazer: «Não perca a oportunidade de encontrar um espaço diferente, onde cortar o cabelo e desfazer a barba, num local vintage a recordar os velhos tempos.» Sim, ouço, de quando em quando, mas sempre com um traço de gozo na voz. É verdade que se diz fazer a barba, quando logicamente se deveria dizer desfazer a barba, mas a linguagem é o que é, demasiado livre para a domarmos com a lógica. Fazer a barba é idiomático, e querer corrigi-la é o mesmo que pretender endireitar a sombra de uma vara torta.

 

[Texto 6359]

Helder Guégués às 00:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito