31
Dez 15

«Internet, internet e Rede»

Trolls dentro e fora da Rede

 

      «Porém os caçadores de trolls fazem pior: apelam à limpeza da internet e apelam à criminalização de um número crescente de expressões que aparecem na Rede» («O feitiço contra o feiticeiro», Brendan O’Neill, tradução de Ana Marques, Courrier Internacional, Fevereiro de 2015, p. 60)*.

      A tendência parece ser essa: para os dois sentidos em que se usa o termo, minúscula, internet; a união das várias redes é a Rede. Eu, como já puderam ver, uso sempre maiúscula, Internet. Qualquer tentativa — como esta aqui, no Ciberdúvidas — de distinguir esbarrou sempre em contradições e preciosismos difíceis de discernir e de aplicar. Por exemplo, quando é que o usamos no sentido de protocolo? Quando é simples meio? «Logo à noite, mando-te os recibos pela internet.» E no sentido de rede mundial? «Na Internet, encontramos excelentes blogues; quando, como acontece com alguns, se transformam em livro, assalta-nos uma sensação de déjà-vu e os mais mal-agradecidos e odientos cospem na sopa.»

      Seja qual for a conclusão, impõe-se, como sempre, simplificar, não fazer o contrário.

 

[Texto 6517]

 

      * Trata-se, segundo a revista, de excertos, mas não esperava que ao trecho que eu cito correspondesse isto no original: «But the trollhunters, from misogyny-policing feminists to the papers that splash photos of trolls across their front pages to the police who arrest them in dawn raids, do something far worse than any vocab-challenged bloke with a grudge and an internet connection could ever hope to achieve. They chill and sanitise the internet, and invite the criminalisation of more and more forms of online speech.»

Helder Guégués às 12:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito
31
Dez 15

Léxico: «gamificação»

Processo universal de ludificação

 

      «Nos tempos que correm, a grande tendência é a “gamificação” (uso das mecânicas do jogo para aplicações que não o sejam), que não passa de uma outra forma de utilizar os métodos de reforço intermitente para viciar os utilizadores» («A vida sem computador», David Roberts, tradução de Ana Marques, Courrier Internacional, Fevereiro de 2015, p. 62).

      Se nos aparecesse descontextualizado, quem é que ia acertar no significado de «gamificação»? A solução não está na nossa língua, nem tão-pouco nas suas raízes greco-latinas. Andaríamos entre o simpático ruminante da família dos Cervídeos e o elemento que exprime a ideia de casamento, união. E, no entanto... No protogermânico, de onde tudo isto derivou, ga- é prefixo colectivo e mann é pessoa, o que, tudo junto, dá a ideia de união. Porque diversão a sério envolve mais de uma pessoa? E, para os esquecidos, deve dizer-se que gamificação foi candidata a palavra do ano, por iniciativa da Porto Editora, em 2014. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que a regista, dá-nos esta definição: «uso de técnicas características de videojogos em situações do mundo real, aplicadas em variados campos de actividade, tais como a educação, saúde, política e desporto, com o objectivo de resolver problemas práticos ou consciencializar ou motivar um público específico para um determinado assunto; ludificação». O Facebook é o exemplo acabado desta técnica, que acho detestável; no entanto, como também tem aspectos únicos, positivos, por lá ando.

 

[Texto 6516]

Helder Guégués às 09:43 | comentar | ver comentários (19) | favorito
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30
Dez 15
30
Dez 15

Ortografia: «neuroendócrino»

Só ares

 

      «Ao mesmo tempo que controla a máquina, Francisco Alves também se dedica à investigação da produção de átomos radioactivos. Foi assim que a equipa obteve a última patente, em Outubro, depois de desenvolver uma forma dez vezes mais barata de produzir gálio 68. Este elemento radiactivo liga-se a uma molécula chamada “dotanoc”, usada para detectar tumores neuro-endócrinos» («Há uma máquina em Coimbra para detectar doenças neurodegenerativas no seu início», Nicolau Ferreira, Público, 30.12.2015, p. 25).

      Boa tentativa, mas não: é neuroendócrino ou — aposto que isto não interessa a ignorantes que se dão ares — neurendócrino. Há, pelo menos, meia dúzia de verbos mais adequados do que «controlar», mas vão sempre cair neste, empobrecendo assim a língua. E os nomes dos isótopos não se grafam como nomes compostos, combinando-se o nome do elemento com o número de massa do isótopo, separados por hífen?

 

[Texto 6515]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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29
Dez 15

Assim se fala na televisão

O mundo como sempre o conhecemos

 

    Enquanto estou aqui a pensar se um duplo «que» nos Lusíadas é repetição anacolútica, se repetição pleonástica, no Jornal da Noite, na SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho vai dizendo que «Henrique Neto assistiu ao lançamento de uma biografia sobre a sua vida». Por aí já não vamos ter nenhuma surpresa. Agora só falta saber se é sobre a vida passada ou sobre a vida futura.

 

[Texto 6514]

Helder Guégués às 20:49 | comentar | favorito
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Tradução: «fullonica»

Da ars fullonica ao jornalismo

 

      «Na Fullonica di Stephanus (que poderíamos traduzir por Lavandaria Stefano) há até uma área para armazenar a urina que era recolhida nas casas de banho públicas e usada para tirar nódoas difíceis (depois de fermentada, produz amoníaco, substância que consta ainda hoje de vários produtos de limpeza)» («A lavandaria de Pompeia já reabriu mas só para visitas», Lucinda Canelas, Público, 29.12.2015, p. 30).

     Quando se trata de traduções, tenho sempre, e cada vez mais, dúvidas, muitas dúvidas. São publicados em França os melhores dicionários de latim e o que vejo neles é que fullonica é traduzido por fouloir, pisão, calandra. Como na Fullonica Stephani se encontraram «vestígios da zona onde se passava a ferro com uma prensa», dir-se-ia que aquela calandra servia para este fim. Mas não me parece, pois os dicionários de latim-inglês a fullonica fazem corresponder fullery, oficina de pisoagem. Pisoar é bater tecido, pano, com pisão para o encorpar e dar resistência. Logo, a Fullonica Stephani pode traduzir-se por Pisoaria do Estêvão. E pisoaria é outra palavra que os dicionários nos roubaram. E tissoaria. Subsistem em topónimos. O que acontece é que, Lucinda Canelas, meus senhores e minhas senhoras, as fullonicae proporcionavam dois serviços: acabamento de tecidos novos e limpeza de tecidos, roupa.

 

[Texto 6513] 

Helder Guégués às 13:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «trombólise»

Em próximas edições

 

      «Em relação às seis horas de espera de que se queixaram os familiares do idoso, Pedro Nunes considerou que “até nem são muitas”, uma vez que “o doente foi avaliado, sujeito a análises, a TAC [tomografia axial computorizada] e terá feito, inclusivamente, terapêutica, a chamada “trombólise” [para dissolver o coágulo de sangue]”» («Ministério avalia carências e reorganiza resposta em Lisboa», Alexandra Campos, Público, 29.12.2015, p. 11).

      E se no Brasil não sabem do que se trata? Consultei dois dicionários — o Grande Dicionário Sacconi (2010) e o Dicionário Houaiss (2003) — e nenhum deles acolhe o vocábulo «trombólise». José Pedro Machado, em 1981, registou-o.

 

[Texto 6512]

Helder Guégués às 12:25 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Ortografia: «gambozinos»

Às vezes corre mal

 

      «E, assim, a esquerda neo-histérica continua toda entretida com a sua caça ao gambuzino neoliberal, ignorando o verdadeiro elefante no meio da sala: o capitalismo 
de compadrio que PS, PSD e CDS alimentam há mais de 40 anos. Alfredo Barroso parece não saber o que isso é. No próximo texto, vou ajudá-lo» («Alfredo Barroso e o gambuzino neoliberal», João Miguel Tavares, Público, 29.12.2015, p. 48).

      Nem sempre corre bem escrever e não consultar um dicionário, não é, João Miguel Tavares?

 

 

[Texto 6511]

Helder Guégués às 10:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «estroncamento»

Três vezes mento

 

      «O suspeito, desde o ano de 2005, de forma reiterada e com elevados prejuízos para as vítimas, tem realizado furtos qualificados, através de escalamento, arrombamento e estroncamento de portas e janelas, subtraindo todo o tipo de artigos de valor, nomeadamente, objetos em ouro, prata, coleções de moedas, livros ou dinheiro”, explica PSP, em comunicado» («PSP prende “homem-aranha” por dezenas de assaltos», Alexandre Panda, Jornal de Notícias, 25.12.2015, p. 30).

      Já uma vez aqui tinha trazido um «estroncamento», sempre raro. Tal como desta vez, usado pela Polícia. Estroncar é partir, quebrar, desmanchar. O pior é quando nos comunicados da Polícia se escrevem brutezas inconcebíveis como «altercações de ordem pública» e os jornalistas as reproduzem, como vimos aqui.

 

[Texto 6510]

Helder Guégués às 10:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Dez 15

«Antes» e «dantes»

Antes de mais

 

      «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de dantes, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô» («A Monarquia», António Lobo Antunes, Visão, 23.12.2015). O leitor R. A. mandou-me esta frase com uma pergunta: «Quer comentar?» Perguntei então se o que estava em causa era a repetição do som. «Não ficava melhor “a fortuna de antes”?» Antes e dantes são sinónimos, é verdade, mas o primeiro é advérbio não apenas de tempo. Se quero dar a ideia de outrora, antigamente, é «dantes» que tendo a usar, embora também pudesse usar «antes». Como quase de certeza não quereria aquele encontro de sons (de... dan), evitava — no caso específico desta frase — ambos e optava por outrora: «A pouco e pouco tornou a viver bem, mesmo sem a fortuna de outrora, pilhada no Brasil por antigos empregados do meu bisavô.» Este «de dantes» é, curiosamente, muito encontradiço nas obras de António Lobo Antunes.

      Há, contudo, matizes que julgo não estarem nos dicionários. Certa vez, o Bom Português foi para a rua perguntar se se devia dizer «antes usava bigode» ou «dantes usava bigode», e concluiu que eram sinónimos. Imaginemos que hoje me encontro pela segunda vez — e a primeira foi na semana passada — com um homem que não conhecia. Desta vez, aparece sem bigode. Para me assegurar da identidade dele, pergunto «antes não usava bigode?», e não «dantes não usava bigode?».

 

[Texto 6509]

Helder Guégués às 08:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Dez 15

Que maquinarias estas

Cientificamente

 

   Ana Gerschenfeld entrevista hoje, no Público, o cientista norte-americano, de ascendência portuguesa, Craig Mello, Prémio Nobel da Medicina em 2006. «Recebeu», pergunta-lhe a jornalista, «o Nobel pela descoberta do mecanismo de “ARN de interferência”. Pode explicar do que se trata?» A resposta é extensa, mas só nos interessa a primeira parte: «As células vivem na idade da informação há milhares de milhões de anos. Portanto, precisam de ter maneira de pesquisar informação e para isso desenvolveram uma série de maquinarias muito parecidas com o Google, que nós utilizamos para fazer pesquisas na Web» («Craig Mello. “Há muito boa ciência por fazer que não apresenta qualquer problema ético”», Público, 28.12.2015, p. 30). 

      Não sabemos que língua usou o entrevistado, mas é muito provável que fosse inglês. Ora, aquelas «maquinarias» só têm explicação, a meu ver, se foi tradução — e má tradução — do inglês machineries. Não será antes «mecanismos», e talvez até «processos»?

 

[Texto 6508]

Helder Guégués às 21:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Dez 15

Ortografia: «predefinido»

Estava predefinido

 

      «A sétima temporada da websérie Jerry Seinfeld Comedians in Cars Getting Coffee — na qual o anfitrião entrevista outros humoristas passeando de carro e tomando café, sem um guião pré-definido — terá um convidado muito especial» («Seinfeld convida Obama», Vera Valadas Ferreira, Destak, 23.12.2015, p. 10). 

     É palavra que raramente vejo bem escrita. Alguns até afirmam que nunca antes a viram sem hífen... Impressionante. Tenho aqui à minha frente o tomo IX do insuperável Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, publicado em 1981, e lá está: «Predefinir, v. tr. Definir ou determinar antecipadamente.|| Predestinar. || Prognosticar.» Já «websérie» é a primeira vez que se me depara.

 

[Texto 6507]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito