29
Fev 16

Tradução: «muezzin»

Os infiéis

 

    «Caiu a noite no café dos jogadores de xadrez, e a temperatura também, bruscamente. O muezzin já lançou o seu grito na mesquita situada do outro lado da pequena praça. De um café constituído apenas por um balcão virado para a rua, numa das esquinas, vem uma luz branca e uma canção roufenha, cantada em árabe» («Esmirna, o grande bazar da guerra», Paulo Moura, Público, 28.02.2016, p. 17).

      Paulo Moura, mas em português não se diz almuadem? Vá, se tiver muito amor à língua francesa, muezim. Vamos lá chamar os infiéis à língua: caramba, duas palavras portuguesas não chegam para substituir uma francesa?

 

[Texto 6651]

Helder Guégués às 23:56 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Uma dificuldade pública

Absurdo repetido

 

      Estava aqui a consultar os censos de 1981 de Aurangabad (ah, sim, a vida não é fácil), e do que me lembrei foi do absurdo — absurdo repetido — de um título de hoje no Público (caro Nuno Pacheco, pelas alminhas!): «Governo quer fazer um “censos” da população com deficiência» (p. 12). Mas que raio de português é este, pode saber-se?

 

[Texto 6650]

Helder Guégués às 23:45 | comentar | ver comentários (1) | favorito
29
Fev 16

Tradução: «corniche»

Não pode ser

 

      «O Kordon, a enorme avenida marginal onde Rana vive, é uma longa serpentina de excitação e prosperidade, tal como já era nos tempos otomanos, quando lhe chamavam La Punta. Pelos vários quilómetros da corniche, há relvados e jardins junto ao mar, onde grupos de jovens fazem piqueniques, correm, andam de bicicleta ou de patins, e centenas de restaurantes de luxo, todos cheios, a qualquer dia da semana» («Esmirna, o grande bazar da guerra», Paulo Moura, Público, 28.02.2016, pp. 20-21).

   De vez em quando, lá vejo corniches nas traduções. Em artigos jornalísticos, creio que é a primeira vez. Será mesmo necessário usar o termo francês? É intraduzível? Mas não é uma estrada de montanha? Estrada junto de precipícios? Quem tiver mais propostas pode apresentá-las.

 

[Texto 6649] 

Helder Guégués às 23:33 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Fev 16
28
Fev 16

Léxico: «cafre»

Há aí confusão

 

      Ando agora interessado, porque estou a rever uma obra relacionada com o assunto, em tudo o que diga respeito à Síria, e em especial termos religiosos. Fui por isso parar a este artigo do Público: «“Quem estiver nas fileiras dos kufr [descrentes] será alvo das novas espadas”, escreve o grupo no vídeo, mostrando imagens das ruas de Londres e da sessão parlamentar britânica em que se aprovaram os bombardeamentos na Síria. “Estamos presentemente a examinar este último vídeo de propaganda do Daesh [termo em árabe para o Estado Islâmico], uma outra jogada desesperada de um terrível grupo terrorista claramente em declínio”, declarou um porta-voz do Governo britânico» («“Nada nos assustará”, diz Hollande sobre novo vídeo do Estado Islâmico», Público, 26.01.2016, p. 25).

      Contudo, kufr é infidelidade, descrença; kuffār (no singular, kāfir) é que são os descrentes. É desta que vem o nosso cafre, palavra que, a propósito, anda muito mal explicada nos dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora garante-nos que há uma língua cafre, o que não corresponde à verdade. Aliás, até o sentido figurado não está correcto. Também o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa nos diz que existe tal língua, falada na Cafraria. Como conselheiro do Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, procurarei que este e outros verbetes sejam corrigidos para a próxima edição do dicionário.

 

[Texto 6648]

Helder Guégués às 10:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Fev 16
27
Fev 16

Léxico: «homenageatório»

Para a próxima, já sabe

 

      «As evocações homenegeatórias a Umberto Eco destacaram o filósofo
 que devolveu a curiosidade à filosofia, 
o escritor que se divertiu com os seus romances (havia nele um Salgari que nunca escondeu e que norteou a 
sua busca das terras incógnitas) e o homem que compreendeu que a força
 de Berlusconi era só a nossa fraqueza, nossa, dos cidadãos desprotegidos perante o tumulto comunicacional e a perda de identidades que a cosmologia pós-moderna impõe» («A biblioteca de Eco e os cinco minutos de jazz», Francisco Louçã, Público, 27.02.2016, p. 54).

      Não tarda e temos aí alguém a dizer que é assim que se escreve — porque leu no Público... Com palavras que não são de todos os dias, Dr. Louçã, convém ver não uma, mas três vezes no dicionário.

 

[Texto 6647]

Helder Guégués às 17:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Fev 16
26
Fev 16

De novo «deixar cair»

Nem que estivesse no livro de estilo

 

     «A moção defende ainda que o partido deve voltar à sigla CDS (Centro Democrático Social), deixando cair o PP (Partido Popular), que foi acrescentado nos anos 1990. Os subscritores assumem posições conservadoras no domínio do casamento e adopção homossexual, bem como do aborto e da eutanásia» («Moção do CDS-PP quer limitar poder do líder na escolha de candidatos», Sofia Rodrigues, Público, 26.02.2016, p. 8).

    Se lessem um pouco que fosse, saberiam bem que isto não é português, mas simples macaqueação de uma língua qualquer, que nem se sabe qual é.

 

[Texto 6646]

 

 

 

    Nota: para os mais desmemoriados ou cépticos («Qual macaqueação?», perguntam, ignorantes da língua), ver aqui.

Helder Guégués às 08:43 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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25
Fev 16
25
Fev 16

À volta de «fleuma»

Filhas da mesma mãe

 

      Ainda hoje se usa na Guiné-Bissau, e está nos nossos dicionários, a palavra flema, de que só temos um exemplo em Gil Vicente. Mas temos variantes: flegma, que é um latinismo do português arcaico (ainda nos dicionários), e, finalmente, as que todos usamos, fleuma e fleima. Até aqui, todos conheciam, não é assim? O que menos gente saberá é que os alótropos não acabam aqui. Também temos freima, que significa precisamente o contrário: cuidado, impaciência, desassossego, pressa, aflição. Entretanto, desapareceu a variante freuma e deve evitar-se, por totalmente espúria, pedantice etimológica, a forma fleugma, que pode ser resultado do cruzamento de «fleuma» com o francês flegme.

      Era assim que até recentemente se dizia: «Há de se le cortar o cabelo, pruque l’anda a fazer munta freima» (Apontamentos acerca do Falar do Baixo-Minho, Francisco J. Martins Sequeira. Edição da Revista de Portugal, 1957, p. 151).

 

[Texto 6645]

Helder Guégués às 14:44 | comentar | favorito
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24
Fev 16

Léxico: «sexagem»

Chegou a nossa vez

 

      Hoje fiquei a conhecer uma nova palavra, o que não acontece todos os dias: sexagem. Aposto que todos os veterinários e médicos a conhecem há muito. Traduz a palavra inglesa sexing («Determining the sex of a fetus or embryo», segundo os dicionários). Eis o contexto em que a encontrei: «Nos últimos trinta anos, a Índia registou 12 milhões de abortos por causa do sexo feminino do feto, ainda que os exames de sexagem fetal sejam proibidos.» Não a vejo em nenhum dicionário da língua portuguesa.

 

[Texto 6644]

Helder Guégués às 18:50 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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24
Fev 16

«Esquerda caviar»

A esquerda luxuosa

 

      «Negar esta possibilidade é acentuar a bipolarização liderada por uma “classe dominante”, que tem ou teve os seus filhos a estudar em escolas privadas. Chamam-lhe gauche caviar na França, champagne socialist no Reino Unido, limousine liberal nos Estados Unidos, radical chic em Itália, esquerda caviar em Portugal. Fazem-no com a convicção de que um aluno, quando sai do ensino obrigatório, leva consigo pelo menos quatro legislaturas e que, neste espaço, “é preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma”. Reafirmo esta convicção ao relembrar a filosofia de Dom Fabrizio Salina (em O Leopardo), que conduz a sua família através de tempos tempestuosos, mantendo o essencial da sua forma de vida» («Elogios à escola pública e filhos na escola privada», Paulo Simões Lopes, Público, 24.02.2016, p. 47).

      A questão, aqui para nós, é se a expressão merece ser dicionarizada — como acontece com as expressões equivalentes nas outras línguas. Creio que sim, pela frequência com que é usada e para que o falante saiba exactamente do que se trata.

 

[Texto 6643]

Helder Guégués às 09:52 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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23
Fev 16

Tradução: «shale oil»

Um erro consagrado?

 

      «“O verdadeiro valor das coisas é o esforço e o problema de as adquirir.” A frase com mais de 200 anos, do economista Adam Smith, autor de a A Riqueza das Nações, serve na perfeição para explicar
o porquê de tão abrupta queda
do preço do petróleo. Com a forte aposta dos EUA e do Canadá em desenvolver a exploração das rochas de xisto betuminoso, o mercado foi inundado de petróleo e os tradicionais produtores, como a Arábia Saudita, Nigéria ou Argélia, tiveram de se virar para outros mercados, como o asiático, e o preço da matéria-prima veio por aí abaixo» («A riqueza das nações», Público, 31.01.2016, p. 68).

      Lembram-se muito bem: já vimos aqui as duas primeiras frases deste editorial do Público, por causa do erro de tradução. Retomo o editorial, mas não este erro. Agora, o que me interessa é a designação — também errada — xisto betuminoso. Dizia-me ontem, na Universidade Fernando Pessoa, onde fui falar do meu livro e da língua, o Prof. Lemos de Sousa, o nosso grande (único?) especialista em Petrologia, que esta designação é errónea, pois nem é xisto nem betuminoso. Muito atreitos a copiar os outros, achámos que os Franceses tinham razão ao chamar-lhe schiste bitumineux, que eles supuseram traduzir bem a designação inglesa shale oil. Não traduz. Neste erro não incorre apenas o Público, ou a imprensa em geral, mas os próprios especialistas. Já os Brasileiros só erram metade, pois optaram pela designação (embora não aceite por todos os especialistas) folhelho betuminoso. Mas, se quisermos evitar um erro grosseiro, encontraremos outras designações adequadas.

 

[Texto 6642]

Helder Guégués às 21:53 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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23
Fev 16

«Missa ecuménica»?

E não há sinónimos?

 

      «Marcelo Rebelo de Sousa vai participar numa missa ecuménica na Mesquita de Lisboa na tarde de 9 de Março, dia em que toma posse como Presidente da República, sabe o PÚBLICO. A iniciativa, inédita em Portugal, está a ser organizada para assinalar a sua posse e tem como objectivo chamar a atenção para a necessidade de entendimento entre religiões e culturas» («Marcelo participa em missa ecuménica na Mesquita de Lisboa no dia da posse», São José Almeida, Público, 23.02.2016, p. 6).

      Se é ecuménica, talvez não seja missa, não é? É, pelo menos, uma visão cristianocêntrica, o que acaba por contradizer o ecumenismo. Vejamos o que, sobre esta questão, se lê no livro de estilo do Público: «Também é imprópria a expressão “dizer missa”. A missa (ou eucaristia) é rezada ou celebrada. “Missa” designa a principal liturgia católica; nas outras igrejas ou religiões, deve falar-se de liturgia, culto, oração ou outra expressão mais específica.» «Imprópria», a expressão «dizer missa»? Estão enganados.

 

[Texto 6641]

Helder Guégués às 20:54 | comentar | favorito