31
Mar 16
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Mar 16

Léxico: «cadernal»

Ainda chegaremos a saber

 

      «Canteiros do século XXI estão a reerguer pedra a pedra o varandim que contorna a torre de menagem do castelo de Beja, construída no século XIV. A única maneira de fazer este trabalho é como se fazia na altura da sua construção. “Todas as pedras são colocadas com recurso a cadernais e à força de braços” explica João Paulo, um dos técnicos da empresa a quem foi adjudicada a recuperação da estrutura» («Pedra a pedra, assim se remonta a torre que ruiu no castelo de Beja», Carlos Dias, Público, 31.03.2016, p. 13).

      No Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que, além das acepções náuticas, regista uma acepção de outro âmbito que não se adequa, não encontramos o que interessa. Está, porém, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «conjunto de quatro roldanas com uma alça comum». Mas, provavelmente, o Sr. João Paulo diria que não é nada disso. Pelo menos os que ele usa.

 

[Texto 6719] 

Helder Guégués às 21:54 | comentar | favorito
30
Mar 16
30
Mar 16

O estranho «peemedebista»

Em que se fala (também) da GNR

 

      «Mais de cem membros da direcção nacional do PMDB aprovaram por voz e sob aplausos uma moção defendendo a saída imediata do Governo e exigindo que os peemedebistas (como são designados os membros do partido) com cargos no Governo os entreguem, sob pena de enfrentarem sanções do partido» («Saída do PMDB do Governo põe Dilma mais perto do impeachment», Kathleen Gomes, Público, 30.03.2016, p. 48).

      Eu sei que é assim que se diz no Brasil, peemedebista, não sei é se o leitor desprevenido — qualquer leitor do Público, por exemplo — saberá ler a palavra. Sim, apesar da explicação entre parênteses. Recentemente, também me falaram da palavra ceeletista (sim, eu lembro-me de que foi V., Percival), que pode suscitar igualmente problemas de leitura. Na verdade, tanto é assim que os dicionários a registam, com a grafia celetista. O que explica a diferença de registo dicionarístico? Não sei. Certo é que ambas as letras têm dois nomes: eme e mê, ele e lê. Voltemos a este lado do Atlântico. A sigla GNR, por exemplo, também se lê de duas formas diferentes (e podia ser de quatro, mas não quero agora falar disso): gê, ene, erre/gê, nê, erre.

 

[Texto 6718]

Helder Guégués às 20:42 | comentar | favorito
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29
Mar 16

Tradução: «champagne sabré»

Nunca se sabe

 

      O tradutor aventou, afoitamente, que fosse «champanhe desrolhado», mas é tudo menos, precisamente, isso. Champagne sabré é o champanhe aberto com um sabre, à boa maneira napoleónica. Claro que sempre se pode traduzir por meio da definição: champanhe aberto com sabre, porque não estou a ver que alguém queira traduzir por «campanhe sabreado». Ou estou?

 

[Texto 6717]

Helder Guégués às 16:21 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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29
Mar 16

O que é o livre-arbítrio

A filosofia dos ditadores

 

      «Já o professor da Universidade Católica de Angola Nelson Pestana, e escritor sob o pseudónimo Eduardo Bonavena, considerou o desfecho do julgamento “completamente surpreendente pela violência” e por mostrar “o livre-arbítrio a que o regime chegou”, disse ao PÚBLICO. “Isto quer dizer que qualquer cidadão pode ser preso acusado de qualquer coisa e ser condenado a pena máxima no país”, denuncia Pestana. “Porque a qualquer momento se pode retirar ou acrescentar novas acusações. É o livre arbítrio completo”» («Condenação de activistas reforça ideia de que Angola “vive uma ditadura”», Ana Dias Cordeiro e Joana Gorjão Henriques, Público, 29.03.2016, p. 4).

      Ou eu já não sei nada, ou isto — que é retomado no editorial — está completamente errado. Então o livre-arbítrio não é a faculdade que o homem tem de se determinar sem obedecer a outra regra que não seja a da própria vontade? E isto é próprio dos ditadores ou de todos nós? Não quererão dizer «arbitrariedades»? Vamos perguntar a quem sabe — a Desidério Murcho.

 

[Texto 6716]

Helder Guégués às 10:20 | comentar | favorito
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28
Mar 16
28
Mar 16

Cabrito estonado

Nova periodização da História?

 

      Ontem vi uma reportagem na RTP1 sobre o famoso cabrito estonado de Oleiros. O chefe André Ribeiro explicou que estonar é tirar o pêlo e não a pele, e comparou com o depenar de uma galinha. Ouçamos agora o repórter, Jorge Esteves: «A origem do cabrito estonado é medieval e terá começado a ser confeccionado em Oleiros com a receita trazida do Tibete pelo padre oleirense António de Andrade, que no século XVII se terá tornado no primeiro ocidental a andar por aquelas paragens.» Sr. jornalista: a Idade Média decorreu entre a queda do Império Romano do Ocidente, em 476, e a tomada de Constantinopla pelos Turcos, em 1453, ou, segundo outros autores, até ao descobrimento da América, em 1492. Logo, o padre jesuíta António de Andrade nasceu e viveu na Idade Moderna, pois a sua vida transcorreu entre 1584 e 1634.

 

[Texto 6715]

Helder Guégués às 10:23 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Mar 16

As levadas — da Madeira e de todo o País

De levada

 

      «“Convidaram-me para fazer uma levada [nome que designa não só os canais de irrigação da Madeira mas também os percursos pedestres ao longo dos mesmos], uma prática que é muito habitual na ilha. Adorei”», disse Ana Borges a Paula Freitas Ferreira («Ana Borges. Viciada em caminhadas», «Magazine Notícias»/Jornal de Notícias, 27.03.2016, p. 16).

      É e não assim. Claro que sempre se pode dizer «fazer isto e aquilo» com este sentido, mas não é, como se pode ser levado — de levada, isto é, precipitadamente — a crer, uma das acepções do termo. (Lembram-se desta pergunta?) Há levadas em todo o País, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não deixa de referir a Madeira. O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa não faz o mesmo.

 

[Texto 6714]

Helder Guégués às 22:34 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Jê Pê e não Jota Pê»

Juro que não sabia

 

      «Diz-se dele que é um dos grandes escritores de canções nascidos nos anos 1970. Mas JP Simões (Jê Pê e não Jota Pê), João Paulo Nunes Simões, esteve perto de se chamar Alcino» («JP Simões», Paula Freitas Ferreira, «Magazine Notícias»/Jornal de Notícias, 27.03.2016, p. 14).

      Vá lá a gente saber. Outros há que são Jota Pê e não Jê Pê. Mas está bem. Fiquem com o Tango de Antigamente.

 

[Texto 6713]

Helder Guégués às 20:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «linha de reconhecimento»

Um caso de polícia

 

      «De acordo com a edição online do jornal belga “Het Nieuwsblad” [“O Jornal de Notícias” em flamengo], o suspeito comportou-se de forma estranha nos interrogatórios — recusou ceder DNA, dar impressões digitais e participar na linha de reconhecimento, em que seria exposto a várias testemunhas» («Taxista reconhece terceiro suspeito», Nuno Miguel Ropio, Jornal de Notícias, 27.03.2016, p. 30).

      Não custava nada escrever ADN, mas que querem? A linha de reconhecimento podia estar nos dicionários. No Het Nieuwsblad, a palavra usada é herkenningsproef e, entre parênteses, a palavra em inglês, line-up. Também não resistem. (Nesta língua, também se diz identification parade e identity parade.) Infelizmente, nem sequer nos dicionários bilingues se encontra a expressão, o que conduzirá forçosamente a disparates. Em francês é tapissage. Em castelhano, rueda de presos ou rueda de reconocimiento, e está no dicionário.

 

[Texto 6712]

Helder Guégués às 19:27 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Léxico: «teleteatro»

É só teatro

 

      «É “A peça que faltava”. O teleteatro regressará à televisão portuguesa a partir de setembro, pela mão da RTP2, que está a gravar o ciclo, para já com seis episódios — de 25 minutos — assegurados» («Teleteatro de volta três décadas depois», Ana Isabel Pereira, Jornal de Notícias, 27.03.2016, p. 36).

      Preferia que fosse teatro radiofónico, como havia dantes cá e não deixou de haver na Grã-Bretanha. Mas está bem. Agora teleteatro tem de ir para os dicionários.

 

[Texto 6711]

Helder Guégués às 18:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
27
Mar 16

Léxico: «couto mineiro»

Medievo

 

    «O arame farpado colocado 
por cima do portão de acesso ao abandonado couto mineiro está coberto de ferrugem, testemunha dos anos que passaram desde que o último carregamento de carvão deixou o Pejão, em Dezembro de 1994. António Pinto tinha 32 anos, cinco filhos pequenos e ficava desempregado. Mas o que perdeu, diz hoje, foi muito mais do que o ordenado ao fim do mês. Foi toda uma forma de vida, que só existia ali, depois de cruzar a entrada
da mina, depois de atravessar o primeiro túnel e dobrar a esquina que escondia, em definitivo, a luz do dia» («Noutra vida eu fui mineiro», Patrícia Carvalho, Público, 27.03.2016, p. 31).

     Couto mineiro é uma locução interessante, certamente, tem um certo sabor medieval, mas com o Decreto-Lei 88/90 passou a usar-se unicamente a designação de mina. Pelo menos fica-se a saber do que se trata.

 

[Texto 6710]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | favorito
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