30
Abr 16

Montéquios e Capuletos

Ainda há quem saiba

 

      Romeu e Julieta. «É uma guerra entre duas famílias de luto. Frente a frente, Montéquios e Capuletos» («“Romeu e Julieta” de novo em cena combina teatro e dança», Diogo Louçã Rodrigues, Telejornal/RTP1, 29.04.2016). Pois claro, Montéquios e Capuletos. Mas, com gramáticas que dizem o contrário e as desajudas de quem devia saber mais, será difícil.

      «A este amor, que os acontecimentos — comandados por uma guerra de famílias: Albuquerques e Botelhos, um pouco à semelhança de Horácios e Coriácios e de Montéquios e Capuletos —, depressa conduziram para o caminho de uma irremediável paixão» (O Pé Esquerdo, João Miguel Fernandes Jorge. Lisboa: Relógio D’Água, 1998, p. 121).

 

[Texto 6779]

Helder Guégués às 22:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Abr 16

Tradução: «jarret de bœuf»

Muitas perguntas

 

      A mulher levava, escondido, um jarret de bœuf. Como se traduz, como não se traduz, ficou «jarrete de vaca». Será mesmo? Sempre ouvi dizer pernil ou chambão de vaca. E até — de que não há rasto nos dicionários — nispo. Serão todos sinónimos? Precisava agora dos conhecimentos de um talhante. E raidir le jarret não é «esticar o pernil»? No entanto, à displasia coxofemoral dos cães dá-se o nome de... jarrete de vaca.

 

[Texto 6778]

Helder Guégués às 19:21 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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29
Abr 16

Plural de «aerossol»

Se se usam ambos

 

      Acabam de me perguntar a minha opinião sobre o plural de aerossol. Parece-me consensual, entre lexicógrafos e gramáticos, que o plural é aerossóis, regra que também vale para girassol, urinol, espanhol, caracol, etc., ou seja, para todos os vocábulos cujo singular é em -ol. Contudo, não poucos falantes apenas aceitam e usam o plural aerossoles, o que se poderia enquadrar entre as excepções. A meu ver, podemos aceitar ambos os plurais, e nem compreendo como José Neves Henriques, no Ciberdúvidas («Aerossol», 1.04.1997, aqui), escreveu que «atribuir dois plurais não tem jeito nenhum e só complica». Repare-se que não afirmou que algum deles era inadmissível, e fez bem. No entanto, o singular seria outro: aerossole. Assim, teríamos quer aerossol/aerossóis, quer aerossole/aerossoles.

 

[Texto 6777]

Helder Guégués às 15:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Abr 16

Que colmo é este?

Só na Madeira?

 

      Na emissão de ontem do Portugal em Directo, da Antena 1, falaram nas casas de Santana, na ilha da Madeira, com os seus típicos telhados de... combo?! Assim disse a jornalista Isabel Cunha. Aliás, creio que o entrevistado, António Trindade, director do Parque Temático da Madeira, disse o mesmo. Será variante regional? Não me parece. O nosso enviado especial à Madeira há-de saber.

 

[Texto 6776]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Abr 16

«Porta pantográfica»

Para serralheiros

 

      A fechadura da porta pantográfica de acesso ao terraço avariou-se. «Sr. Manuel, preciso que venha substituir a fechadura da porta pantográfica.» «Desculpe?...» Ah, pois, porta pantográfica. Um serralheiro devia saber, acho eu. Sabem o que é um pantógrafo? Ora, é da semelhança que vem o nome. Muitos elevadores antigos é destas portas que têm.

 

[Texto 6775]

Helder Guégués às 12:14 | comentar | favorito
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28
Abr 16

«Síndrome do encarceramento»

Só com os olhos

 

      «Os avanços poderão também ser importantes na medicina, defendem os cientistas: “Um descodificador de linguagem pode ter um valor incalculável para indivíduos com problemas de comunicação como na esclerose lateral amiotrófica e na síndrome do encarceramento [em que os doentes só conseguem piscar os olhos]”» («Zonas do cérebro associadas às palavras e aos seus significados», Nicolau Ferreira, Público, 28.04.2016, p. 25).

      Não queria que a locução estivesse nos dicionários, mas esperava que pelo menos «encarceramento» estivesse em todos, o que não acontece: não está no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que, no entanto, regista «desencarceramento». Ninguém viu... Na síndrome do encarceramento (locked-in syndrome, para a legião de anglófonos que nos segue) verifica-se, de facto, tetraplegia, anartria, com preservação de consciência, e a referida movimentação ocular. É também designada síndrome do homem fechado em si mesmo, síndrome do homem fechado dentro e pseudocoma*. Logo, se se registasse esta última, pseudocoma, na definição poderia ser usada a locução «síndrome do encarceramento».

 

[Texto 6774]

 

      * Veja-se aqui um caso real. O livro de Martin Pistorius tem tradução portuguesa, publicada em 2015 pela editora Nascente.

Helder Guégués às 10:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Abr 16

«Interrogar/questionar»

Mas podemos questionar

 

    «Abdeslam», lê-se nesta notícia da TSF, «está acusado de vários crimes e deve ser questionado de forma mais extensa no dia 20 de maio» («Abdeslam “tem a inteligência de um cinzeiro vazio”, diz ex-advogado»). O jornalista da Lusa queria dizer «interrogado», mas, como julga que é o mesmo, saiu-lhe «questionado». Mas atenção: quem tem a inteligência de um cinzeiro vazio é Abdeslam.

 

[Texto 6773]

Helder Guégués às 22:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «assassino»

Temos recurso

 

      «O “caso Simba”, o cão morto há um ano na aldeia de Monsanto que deu azo a um mediático processo judicial, acabar [sic] de terminar, com a condenação do homem que o matou a 1920 euros de multa. O dono do cão chamou-lhe “assassino” e, por isso, terá de pagar 3.500 euros. A Carla Tomás entrevistou-o» («Chacina em Cabo Verde, verdades e mentiras. Mataram-lhe o cão e tem de pagar €3.500. Exportações em 2:59. E música de violino», José Cardoso, Expresso Diário, n.º 556, 27.04.2016).

    Caso curioso. Para a maioria dos dicionários, assassinar é matar alguém; para o Dicionário Aulete, porém, a segunda acepção é «destruir a vida de (animal) com crueldade». O Dicionário Houaiss diz o mesmo. Vamos agora ver se o advogado do dono do leão-da-rodésia, Dr. Rogério da Costa Pereira, vai usar este argumento no recurso, pois balear um animal parece-me crueldade suficiente.

 

[Texto 6772]

Helder Guégués às 22:00 | comentar | favorito
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27
Abr 16

Léxico: «difusor»

E logo de competição

 

      «Com o motor 1.6 Tce de 205 cv há potência que chegue. Não faltam elementos tecnológicos (destaque para o tablet tátil e multimédia de 8,7”) e desportivos, como as grelhas em favo de abelha, jantes de 18”, duas saídas de escape cromadas e difusor de competição. Mas o que brilha mais é a tecnologia de 4Control (torna as quatro rodas direcionais)» («Megane GT, controlo total», João Tomé, Destak, 27.04.2016, p. 17).

      É claro que, embora diga respeito a uma peça de alguns automóveis, não se trata da acepção 3 que encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 6771]

Helder Guégués às 20:48 | comentar | favorito
26
Abr 16
26
Abr 16

Léxico: «graxo»

Crasso, e não é erro

 

      «Além daquele doce de ovos, estão no mercado natas, pastéis de feijão, queijadas de laranja e queques de chocolate sem açúcar, sem glúten, lactose, conservantes e gorduras trans (que contêm ácidos graxos insaturados e são associadas a vários problemas de saúde» («“Ovos-moles” só para quem é intolerante», Zulay Costa, Jornal de Notícias, 26.04.2016, p. 28).

     Não se diz com mais frequência ácidos gordos? A palavra, sinónimo de «gordo», é pouco usada. E talvez mal dicionarizada. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, lê-se que é o mesmo que «gordurento», «oleoso». Pior só o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, que não o regista. Crasso e graxo são palavras divergentes, provêm ambas do mesmo vocábulo latino.

 

[Texto 6770]

Helder Guégués às 20:45 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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