31
Mai 16

Todos os plurais

Pois claro

 

      «Mas Michael Mann cita, por exemplo, o insuspeito Ernst Nolte, que, num clássico de 1963 (Der Fascismus in seiner Epoche), identificou um “mínimo fascista”, o qual combina três “antis” ideológicos: o antiliberalismo, o anticonservadorismo e
 o antimarxismo. No esmagador History of Fascism (1995), Stanley Payne considera a definição de Nolte insuficiente, mas adere à sua ideia de que o antimarxismo constitui uma das características essenciais do fascismo» («Fascismo é quando um homem quiser», António Araújo, Público, 31.05.2016, p. 44).

      Com isto já concordo (embora não me faça esquecer o «sufixo»). Seja qual for a classe gramatical a que pertença um vocábulo, é susceptível de se pluralizar. Mas vão lá explicar isto a certos professores catedráticos e a alguns gurus das letras, desses que lamentam que Eça tenha errado por não escrever Os Maia...

 

[Texto 6853]

Helder Guégués às 21:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

«Nacional-socialismo»

Onde está o sufixo?

 

    «Em O Pavilhão Púrpura, Rodrigues dos Santos sustenta que o “fascismo alemão” se chamava “nacional-socialismo” por uma razão muito simples: o sufixo “socialismo” significa que o nazismo é um movimento de origem marxista» («Fascismo é quando um homem quiser», António Araújo, Público, 31.05.2016, p. 44).

    E também é sufixo quando um homem quiser — ou apenas quando coincide com o que a gramática descreve?

 

[Texto 6852]

Helder Guégués às 21:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «écume blanche»

Despoetizado, mas certo?

 

      Aloïs fumait... Não, talvez fosse Pierre fumait une belle pipe en écume blanche... O tradutor quis despoetizar isto ao máximo, e, assim, verteu por «cachimbo de sepiolite». Por vezes, aparecem cachimbos de espuma-do-mar em leilões, e é desta maneira que aparecem descritos. Mas podemos ter outro problema: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista espuma-do-mar, mas remete para «magnesite». Será o mesmo, sepiolite e magnesite? No Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora, ao verbete meerschaum (originalmente um termo alemão) fazem corresponder isto: «1. Mineralogia sepiolite, magnesite 2. Cachimbo com boquilha de sepiolite». Boquilha de sepiolite? Na verdade, mais habitualmente é o fornilho.

   «E há tais casos que se tornam depois internacionais, como por exemplo, os cachimbos de espuma do mar. Encontramos esta denominação em tôdas as línguas modernas e nunca se pôde compreender como é que de espuma do mar se pudesse fazer cachimbo» (Estudos de Filologia Portuguêsa, Francisco Silveira Bueno. São Paulo: Saraiva, 1959, vol. 1, p. 228).

 

[Texto 6851] 

Helder Guégués às 19:49 | comentar | favorito
31
Mai 16

Tradução: «token»

Querem ver que é intraduzível?

 

      «Um token será enviado para a morada que forneceu. Quando receber o token, poderá vir a esta página prosseguir com o processo de cessação contratual», garante-me a NOS. Um sinal ou uma senha? Mas porque escrevem desta maneira? Porque não há um mais sensato e corajoso que diga que isto é um disparate? Terão medo de ser fuzilados?

 

[Texto 6850]

Helder Guégués às 16:53 | comentar | ver comentários (8) | favorito
Etiquetas: ,
30
Mai 16

Léxico: «madrilenho»

Existe, sim, Solange

 

     Grande notícia hoje: o Presidente da República vai ter uma estátua no Museu de Cera de Madrid. Uma equipa do museu veio a Lisboa tirar-lhe as medidas. «Marcelo», diziam de manhã na Antena 1, «vai estar eternizado na cera madrilenha.» Como é que me pode parecer mal, se em castelhano é madrileño? Agora é que se lê e ouve pouco, mas nem sempre foi assim. Madrilenho, para fazer companhia a madrileno, madrilês, madrilense e matritense.

 

[Texto 6849]

Helder Guégués às 22:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «tanguer»

Linguagem náutica

 

      «Le bateau tanguait...» «O navio arfava...» Ah, está certo. Arfar (plunge, para a legião de anglófonos que nos segue), dito de navio, é balouçar longitudinalmente. «Bandeiras tremulam na adriça, o navio arfa um pouco, os oficiais vigiam e em frente, no castelo de proa, o contramestre dá grandes passadas» (Cosmopólia, Albino Forjaz de Sampaio. Lisboa: Empresa Literária Fluminense, 1922, p. 41).

 

[Texto 6848]

Helder Guégués às 09:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
30
Mai 16

O sujo e o encardido

Sujo entranhado

 

      Sale. Não é tudo encardido — também há sujo. Sinónimos? Sim, mas encardido é mais do que sujo: «Que adquiriu uma cor mais escura por estar muito sujo e ter sido mal lavado ou mal limpo» (in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa).

 

[Texto 6847]

Helder Guégués às 08:40 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
29
Mai 16

Tradução: «béer»

De par em par

 

      «Les fenêtres béaient», lê-se no original. Ainda hoje vi uma casa assim, ali na Quinta da Bicuda. O tradutor pensou, pensou — ou, mais provavelmente, não pensou, não pensou — e achou que seria isto: «As janelas bocejavam». Acrescentem os pontos de exclamação que quiserem. Claro, foi o Google Tradutor que o disse... Béer, caro amigo, é «être grand ouvert, notamment en parlant d’une porte ou d’un trou».

 

[Texto 6846]

Helder Guégués às 16:19 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

«Contacto», Sandra Azevedo

Não há esperança

 

      «Cheguei com os pés bem assentes na terra e com quatro malas. Era eu nova na cidade. O primeiro contato com a cidade tornou-se repetitivo no primeiro dia» («Ninguém me disse», Sandra Azevedo, Jornal do Fundão, 26.05.2016, p. 12).

      Como é que uma aluna de mestrado em Jornalismo na Universidade da Beira Interior cai num erro tão grosseiro? Ainda não reflectiu nem leu nada sobre esta questão?

 

[Texto 6845]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
29
Mai 16

O verbo «remediar»

Culta e adulta?

 

      «O incrível mundo dos micróbios», anunciava ontem a RTP2 em alguns jornais. E porquê incrível? Ora, porque os micróbios, garantem-nos, e quem o quisesse comprovar que visse o programa Biosfera, «detetam metais pesados, remediam solos e biofertilizam as plantas». Eu nem sabia que os micróbios mediam os solos, quanto mais que os voltavam a medir. Ah, queriam dizer «remedeiam», do verbo «remediar»? E será mesmo o melhor verbo para expressar a ideia? Não seria melhor «corrigir», por exemplo? Teria pelo menos a vantagem de (talvez, porque há sempre margem para o erro) não errarem a forma verbal.

 

[Texto 6844]

Helder Guégués às 14:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,