30
Set 16
30
Set 16

«Clínica de férias»

Língua e cavalos

 

      Ultimamente, tenho reparado que nas escolas de equitação se realizam, creio que sobretudo em tempo de férias escolares, «clínicas». Clínicas? Ainda pensei que pusessem as criancinhas, algumas hiperactivas ou, quando não, hipermedicadas (olá, Ritalina!), a esventrar e esquartejar cavalos velhos, mas não — a explicação, como nos últimos decénios, está toda no inglês: clinic, «an occasion at which a professional person, especially a sportsman or sportswoman gives advice and training». Pouco vai restando da nossa língua.

 

[Texto 7129] 

Helder Guégués às 15:03 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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29
Set 16

Léxico: «estrépido»

Sim, porque será?

 

      Eu disse «estrépido», mas era só para provocar. «Deve querer dizer “estrépito”, não é?» Não era. «Se formos ver ao dicionário que tanto cita, é “estrépito” que lá encontra, e não “estrépido”. Porque será?» «Há às vezes um homem gordo que ressona com estrépido — a coisa que mais envenena o sangue e a bílis dos homens magros que não podem dormir!» (Banhos de Caldas e Águas Minerais, Ramalho Ortigão. Lisboa: Livraria Clássica Editora, A. M. Teixeira & C.ª (filhos), 1944, p. 279).

 

[Texto 7128]

Helder Guégués às 14:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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29
Set 16

Ortografia: «adeusinho»

Erro infamérrimo

 

      Acabo de ver — e vejo de quando em quando — «adeusinho» mal escrito. Pois, com z. Tradutor famoso, famosérrimo mesmo. Sim, é para espantar, mas também me espanta que, interjeição que é, não esteja em todos os dicionários, que, todavia, agora registam «beijinhos» (até com ponto de exclamação), não dizendo que é exclamação, mas sim «fórmula de despedida».

 

[Texto 7127]

Helder Guégués às 11:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Set 16
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Set 16

Estranhos esquecimentos

Outro encolher de ombros

 

      Um leitor escreve-me porque está perplexo com o que lê no sítio da Imprensa Nacional-Casa da Moeda sobre palavras com dupla grafia. Assim, sobre «espectador» nada se diz, mas já se admite, na síntese alfabética da nova grafia, «telespectador/telespetador». O leitor, J. B., quer que eu comente. Está bem, eu comento: ¯\_(ツ)_/¯.

 

[Texto 7126]

Helder Guégués às 18:14 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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27
Set 16

«Liberismo»?

Precisamos dela?

 

      Na Fundéu, vieram lembrar que hispanismo e espanholismo são conceitos diferentes. Ora, essas são fáceis. Claro que acredito que haja quem as confunda, até porque o habitual é haver confusões quando as palavras são vagamente semelhantes. Há umas semanas, fui eu que fiquei surpreendido — mas não confundido — quando, num texto que estava a rever, li, ao lado uma da outra, liberismo e liberalismo. Nunca eu vira a primeira mais gorda, e por isso estranhei. Descobri depois que existe... mas em italiano: «In senso ampio, sistema imperniato sulla libertà del mercato, in cui lo Stato si limita a garantire con norme giuridiche la libertà economica e a provvedere soltanto ai bisogni della collettività che non possono essere soddisfatti per iniziativa dei singoli (in tal senso è detto anche liberalismo o individualismo economico); in senso specifico, libertà del commercio internazionale o libero scambio, contrapposto a protezionismo» (in Enciclopédia Treccani). Logo, o autor, português, estava a usá-la in senso ampio. Precisamos dela?

 

[Texto 7125]

Helder Guégués às 15:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Um encolher de ombros

Vá com um desenho

 

      Bem ou mal, em castelhano resolveu-se a questão: à sequência de caracteres tipográficos ou pequena imagem ilustrativa de uma expressão facial, agora na moda, dá-se o nome de... emoticonos.

      Exacto, acastelhanado, acolhido no dicionário da Real Academia. Cá, até nos dicionários de língua portuguesa (!) se regista emoticon. Que podemos fazer? Olhem, um encolher de ombros: ¯\_(ツ)_/¯ (um shruggie, dizem).

 

[Texto 7124]

Helder Guégués às 15:01 | comentar | favorito
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27
Set 16

Ah, essa revista!

Também gostamos de brincar, mas...

 

      Ouço muitas vezes o programa Prova Oral, de Fernando Alvim, apenas no dia seguinte de madrugada, quando repete. Assim foi hoje. Os convidados eram Inês Coelho Rodrigues, da comissão organizadora da iMed Conference, que se realizará entre os dias 13 e 16 de Outubro, e José Oliveira, psiquiatra, doutorado na área da Imunopsiquiatria. A certa altura, Alvim afirmou que ainda é do tempo em que se ia aos hospitais e o que se podia ler era apenas a revista espanhola Ihola. Ou será Iola? Não me pareceu que estivesse a brincar, até porque repetiu o nome algumas vezes, e não se pode estar sempre a brincar, desinformando ou, pelo menos, induzindo em erro. Porque já vi coisas ainda mais surpreendentes, deve dizer-se, não comece a espalhar-se mais uma parvoíce, que a revista se chama Hola, mas com pontos de exclamação duplos, invertido o primeiro, como já se usou em português: ¡Hola! Como também o jornal do PCP se chamaria, se fosse espanhol, ¡Avante!, não é assim?

 

[Texto 7123]

Helder Guégués às 08:41 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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26
Set 16
26
Set 16

«Afro-americano», também com o AO90

Tem, não tem?

 

      «Ainda hoje, apenas 4% da população deste condado [Forsyth] é afroamericana» («As raízes da América continuam sujas de sangue?», Joana Madeira Pereira, Expresso Diário, n.º 684, 26.09.2016).

      Há-de ser convicção, pois está assim cinco vezes no artigo. Não se escreve daquela maneira. Com o Acordo Ortográfico de 1990, nestes gentílicos o hífen não desapareceu: afro-cubano, hispano-americano, ibero-americano, israelo-americano, afro-americano, etc. O leitor — e o falante, em geral — perde toda a confiança.

 

[Texto 7122]

Helder Guégués às 21:23 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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25
Set 16
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Set 16

«Prise de guerre»

Tem mesmo de ser em francês?

 

      «Quando recebi a proposta de Sarkozy — eu não sou ingénuo —, tratava-se de abrir o campo da direita face à esquerda, e que não resultou. Eu fiz parte daquilo a que se chama uma “prise de guerre”
 [ir buscar personalidades de 
outro campo político]. Mas para quê? O que é que ele me tinha pedido? Tratava-se de perceber que política cultural para a França. Efectivamente, dizem que há uma política de direita e uma política
 de esquerda. Mas eu não acredito nisso. Não sei o que é que isso significa» (Marin Karmitz, entrevistado por Sérgio C. Andrade para o Público. «“Tirar os cinemas do centro das cidades foi uma forma de matar os dois”», 25.09.2016, p. 40).

 

[Texto 7121]

Helder Guégués às 17:07 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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24
Set 16
24
Set 16

Suinização da língua

Isso é que está mal

 

      «Dylan deixa as interpretações para os intérpretes e mantém tudo em aberto, como um bom poeta. Mas pede que não usem essa palavra: “Acho que um poeta é alguém que nunca diria de si mesmo que é um poeta... Uma pessoa capaz de dizer que é um poeta simplesmente não pode ser um poeta... Quando as pessoas me chamam um poeta, eu digo: ‘Oh, fixe, que fixe chamarem-me um poeta!’ Mas não me adianta nada. Podem ter a certeza disso. Não fico mais feliz por causa disso.”» («Quem é Dylan», Pedro Mexia, «E»/Expresso, 24.09.2016, p. 106).

    Gosto de ler o que escreve Pedro Mexia (o que revela, até certo ponto, o meu bom gosto), mas por vezes ele exagera. Nisto ou naquilo. Neste excerto, o abuso do artigo indefinido — a tal suinização da língua de que já falámos — é deselegantíssimo. Concorda comigo, Pedro Mexia? Talvez porque é uma tradução, pois não o estou a ver a falar e escrever assim. Corte, corte, corte.

 

[Texto 7120]

Helder Guégués às 20:54 | comentar | ver comentários (6) | favorito