31
Dez 16

«Missas vespertinas»

Mas não todas as tardes

 

      Na Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, aqui em Cascais, as missas aos sábados às 18h30 e aos domingos ao meio-dia são em língua inglesa. Ah, e as vespertinas também. Ora, acontece que os dicionários — tenho agora apenas três à mão, mas já me dirão se é assim em todos — não explicam o que são estas missas vespertinas. No verbete — agora estou apenas a seguir o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — «vespertino», o leitor não fica a saber muito, excepto que se refere à tarde. Se, o que não me parece provável, passar para o verbete «véspera(s)», a acepção 4 («horas do ofício divino que se rezam de tarde») pode levá-lo a interiorizar a ideia de que é qualquer missa ao fim da tarde. Não é. As missas vespertinas são apenas as que antecedem os domingos e as solenidades.

 

[Texto 7367]

Helder Guégués às 17:16 | comentar | ver comentários (2) | favorito
31
Dez 16

Ortografia: «micetoma»

As doze passas

 

   A revista norte-americana Forbes considera o esqueleto proveniente de uma necrópole medieval em Estremoz, encontrado numa escavação arqueológica no Rossio Marquês de Pombal, um dos dez esqueletos mais intrigantes de 2016. «O artigo», lê-se no sítio da TSF, «continuou a autarquia alentejana, refere que o “Mycetoma ou pé de Madura é uma doença fúngica sobejamente conhecida historicamente e que afeta os trabalhadores agrícolas de áreas subtropicais do mundo”, mas “quase nunca é identificado em esqueletos antigos”» («Esqueleto de Estremoz em destaque na Forbes», TSF, 30.12.2016, 19h50).

      Podiam e deviam evitar transcrever textos com erros. Em português é micetoma, que é uma infecção crónica dos tecidos causada por um fungo. É curioso, porque etimologicamente significa «fungo cruel». Uma das passas é para isto, desejar que os jornalistas tenham cuidado com a forma como escrevem. As outras onze podiam ser para acabar com a intrujice do Acordo Ortográfico de 1990, mas isto não vai lá com meros desejos.

 

[Texto 7366]

Helder Guégués às 16:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Dez 16
30
Dez 16

«Vegetariano/vegetaliano»

Mas não são

 

      Para muitos (todos?) dicionários, vegetaliano ou vegetariano é tudo igual. Meros sinónimos, variantes. É o que faz, por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que simplesmente remete do primeiro para o segundo vocábulo. Ora, quando traduzimos e encontramos as palavras lado a lado, reflectimos melhor e temos de convir que não é tudo igual. Por exemplo, convidamos um amigo a vir jantar a nossa casa, e ele previne-nos de «qu’il est végétarien ou végétalien ou même qu’il n’aime pas tel ou tel aliment». Pois é... Não podemos fingir que o segundo vocábulo não está lá, pois não? «Les végétariens s’abstiennent simplement de viande et de poisson, mais prennent du lait, des œufs et des fromages [...]. Les végétaliens sont beaucoup plus rigoureux, car ils s’interdisent tous les produits animaux et ne consomment que des végétaux» (Le Monde, 16.02.1977, p. 25).

 

[Texto 7365]

Helder Guégués às 13:15 | comentar | ver comentários (8) | favorito
29
Dez 16

«Barreira simbólica»

Ou psicológica

 

      «As concentrações de dióxido de carbono na atmosfera superaram este ano a barreira simbólica de 400 partes por milhões [sic] e a tendência é para subir. No oceano Ártico, o calor conduziu ao degelo anual que se produz de forma antecipada.» É um excerto de uma notícia da SIC já do mês de Julho, mas a expressão de que vou tratar repete-se, tenho a certeza, todos os dias. Porquê «barreira simbólica»? Simbólica de quê? Por vezes, variante desta, porventura, é a «barreira psicológica». Os revisores do jornal Le Monde vieram agora também falar da barre symbolique: «Il est tout à fait possible de se passer de l’expression “passer sous la barre de, etc.”, et encore plus si elle est qualifiée de “symbolique”. Mais pour ceux qui ne peuvent s’en... passer, sachez qu’il est parfaitement inutile d’employer le pluriel: “sous la barre des 10 %”, par exemple ; “de” est bien suffisant et plus économique. Il est tellement plus simple d’écrire: “le déficit est passé sous 10 %”. Là aussi, c’est plus économique que “le déficit est passé sous [la barre symbolique des] 10 %”.» São manias sem fronteiras, está visto.

 

[Texto 7364]

Helder Guégués às 18:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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29
Dez 16

«Free refill»

Sim, temos de refilar

 

   Há coisas que até parece que só se podem dizer em inglês. Anteontem fui, quando temos criancinhas é assim, a um Burger King. Ora, além da espécie de comida que estes restaurantes servem, que tinha este que me chamou a atenção? Esta maravilha: free refill! Aqui, não há a menor concessão ao português. Lembrei-me logo das pizas de que falaram já esta semana os revisores do jornal Le Monde, pizas fun à dipper. E, numa fórmula semelhante à minha, explicaram: «(= “tremper”, pour les indigènes que nous sommes)».

 

[Texto 7363]

Helder Guégués às 15:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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28
Dez 16

Léxico: «verbena»

Aqui só há velhotas

 

      Viva, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: no verbete verbena, deves acrescentar uma terceira (actualmente, com mais frequência de uso do que a primeira) acepção: «infusão preparada com esta planta». Dá jeito, sobretudo quando se lê Gide, ou quando vamos visitar a nossa tia-avó e ela, com arzinho de Miss Marple, nos convida para uma verbena e uns biscoitos de gengibre.

 

[Texto 7362]

Helder Guégués às 16:13 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Dez 16

Léxico: «açúcar de bétula» e «xilitol»

Só substância

 

      Chamemos-lhe Mariana. A minha vizinha Mariana — a olho, 86-60-86 — disse-me ontem que só consome açúcar de bétula. Hã?! É isso mesmo: açúcar de bétula, porque apresenta um baixíssimo índice glicémico e não tem glúten. Ah! É também conhecido como xilitol, mas esta é a designação do adoçante natural que se encontra nas fibras de muitas outras plantas. Dito isto, a definição de xilitol no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora tem de ser revista: «substância utilizada como substituto de açúcar em dietas de diabéticos». Acho que, na definição revista, só ia manter a palavra «substância». E punha-o no Dicionário da Língua Portuguesa.

 

[Texto 7361]

Helder Guégués às 13:05 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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27
Dez 16

Os Hereros, os Namas e a TSF

Disfuncional

 

      «As vitimas [sic] foram os povos Herero e Nama. Ao todo morreram cerca de 70 mil pessoas: 80% dos hereros e 50% dos Nama. A Alemanha já reconheceu o genocídio mas está atualmente a conversar com as autoridades da Namíbia e representantes dos Herero e dos Nama sobre um pedido de desculpa oficial. Foi esse o momento decidido pelo museu do holocausto [sic] em Paris para dar conhecimento do que aconteceu em África no inicio [sic] do século XX» («O primeiro genocidio [sic] do século XX foi em África», Margarida Serra, TSF, 27.12.2016, 18h15).

      É na rádio, ninguém vê os erros, não é assim? Era: antes de as rádios estarem também na Internet. Agora, convém terem um pouco mais de cuidado. Sobretudo não publicarem rascunhos, como é o caso. Aprendam: «O uso de trocar as mulheres encontra-se em outros povos bantos. Praticam-no sobretudo os Hereros de Angola e do Sudoeste Africano e os Nhanecas e Humbes da referida província portuguesa, talvez por influência daqueles» (Conto e Costumes Macondes, M. Viegas Guerreiro. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965, p. 16) «Conta-se que o costume existiu nos Hotentotes Namas do Sudoeste Africano» (idem, ibidem, p. 17).

 

[Texto 7360]

Helder Guégués às 19:55 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Ortografia: «multiúso»

Polifuncional

 

    «Usufruem deste regime as pessoas com deficiência que tenham um grau de incapacidade igual ou superior a 60%, reconhecido por atestado multiúsos, e apresentem dificuldades específicas que lhes possam “limitar ou dificultar a atividade e a participação em condições de igualdade”» («Ignorar atendimento prioritário vai dar multa», TSF, 27.12.2016).

   É, como disse aqui, a grafia que prefiro e recomendo. Creio, no entanto, que é melhor optar por «multiúso». No caso, «atestado multiúso» (que eu não sabia existir). Estranhei foi que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registe tanto «multiusos», como «multiúsos», ainda para mais sem remissões.

 

[Texto 7359]

Helder Guégués às 19:35 | comentar | ver comentários (3) | favorito

Como se traduz por aí

Como calha

 

      O poeta, e meu amigo, Rui Almeida avisou-me de que se lê por todo o lado que o Papa Francisco desejou que estes «sejam dias de alegria e irmandade». Hum, será que o papa usou mesmo esta última palavra? Não seria antes «fraternidade», sinónimas, sim, mas que preferíamos e esperávamos ver ali? Foi, claro: «siano questi, per voi e per i vostri familiari, giorni di gioia e di fraternità». Quando deviam fugir, porque se trata de falsas cognatas, não fogem. Quem percebe esta gente?

 

[Texto 7358]

Helder Guégués às 14:22 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Dez 16

Como se escreve por aí

Nada higiénico

 

      A rapaziada da Dinheiro Vivo está entusiasmadíssima: nas casas de banho do Aeroporto Internacional de Narita, no Japão, há rolos de papel para limpar os telemóveis. Vai daí, escrevem assim: «Os passageiros que chegam ao aeroporto são encorajados a ler as folhas anticéticas com as informações antes de as mandar para o lixo, para saber onde se encontram pontos Wi-Fi e outras informações de viagem, de acordo com o mesmo portal» («No Japão o papel higiénico está a servir para limpar smartphones», 26.12.2016).

      Já podiam ter corrigido, tantas horas depois, mas os leitores, esses anormais desocupados, que se lixem, não é assim?

 

[Texto 7357]

Helder Guégués às 14:09 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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