28
Fev 17
28
Fev 17

Léxico: «carga detonante»

Explosiva

 

      «A detonação, que ocorreu ao final da tarde ao largo da foz do rio Alcoa, “foi uma explosão controlada, com cargas detonantes, a 25 metros de profundidade, afastada da costa mais de mil metros”, informou ao PÚBLICO o porta-voz da Marinha Portuguesa, Pedro Coelho Dias» («Bomba recolhida na Nazaré foi detonada no mar», Aline Flor, Público, 28.02.2017, p. 13).

      É uma expressão interessante. Só pode estar, é claro, em vez de «carga explosiva detonante». Estranhamente, na Infopédia só a encontramos no Dicionário de Português-Francês: «carga detonante charge détonante». Então e em inglês, em alemão, em italiano...?

 

[Texto 7516]

Helder Guégués às 16:33 | comentar | favorito
27
Fev 17

Ortografia: «contradetonação»

Agora já é «inactivação»

 

      «Ouvido pela TSF, o comandante Coelho Dias, relações públicas da Marinha, explicou que no local já se encontra uma equipa de mergulhadores da Marinha, especializada na inativação deste tipo de engenhos. […] Segundo este responsável, o plano de inativação passa por levar a bomba novamente para dentro de águia [sic], para uma profundidade a mais de 20 metros, e depois fazer a contra-detonação» («Arrastão “pesca” bomba ao largo da Nazaré. Porto foi isolado», TSF, 27.12.2016, 14h35).

      Habitualmente, não é inactivação que se usa, mas desactivação. São sinónimos, é certo, mas só encontro este nos dicionários. Por outro lado, é contradetonação que se escreve, a contragosto o digo de novo. Na Rádio Renascença, lê-se que o «engenho explosivo recolhido por pescadores foi desmantelado e detonado no mar».

 

[Texto 7515]

Helder Guégués às 19:02 | comentar | favorito

Óscares e afins

Fevereiro, Óscares

 

     «Durante quase cinquenta anos, o fotógrafo William Christenberry regressou ao Alabama para fotografar os prédios rurais, igrejas e cafés à beira da estrada do Condado de Hale, onde, em criança, passava o verão nas terras dos seus avôs. O oscarizado realizador Alexander Payne nasceu, como Kurt, em Omaha» (Click! Como Funciona a Criatividade, Julie Burstein. Tradução de António Teixeira dos Santos. Alfragide: Estrela Polar, 2011).

      Oscarizado — o que pressupõe o verbo oscarizar. Podem ir, porque não?, para os dicionários, que não nos envergonharão. E, já agora, oscarizável. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista — mas já não é mau, e devia ser seguido por todos — Óscar/Óscares. Não vejo, pois, necessidade de usar, como alguns ainda fazem, o termo Oscars. (Reparem: «passava o verão nas terras dos seus avôs». É, lembrar-se-ão daqui, como também passámos a escrever.)

 

[Texto 7514]

Helder Guégués às 11:14 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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27
Fev 17

Uma geringonça traduzida

Produto para exportação

 

      «O seu sucesso e durabilidade surpreendeu muitos em Portugal. Agora começou a chegar em força às páginas da imprensa internacional. Acima de tudo tentam compreender a “coisa” e discutem se é possível exportá-la para outros países, especialmente para aqueles em que a esquerda está afastada do poder ou em risco de o perder. E até já ganhou tradução para várias línguas. Krakende wagen, segundo os membros do Partido Trabalhista holandês que vieram a Portugal estudar o “fenómeno”; ou briquebalante, de acordo com o candidato presidencial francês, Benoît Hamon, que também esteve em Portugal e se desfez em elogios à coligação das esquerdas; ou ainda contraption, palavra encontrada pelo site Politico, que na sexta-feira dedicou um longo artigo à dita geringonça» («A geringonça está na moda», Luciano Alvarez, Público, 27.02.2017, p. 6).

      E será alguma delas boa tradução? A francesa até está mal escrita, pois é brinquebalante ou bringuebalante.

 

[Texto 7513]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | favorito
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26
Fev 17

Tradução: «contrecho»

Pois é, tão simples

 

      Reparem bem neste caso. Diz Sancho Pança: «Verdad es que si mi señor Don Quijote sana desta herida o caída, y yo no quedo contrecho della, no trocaría mis esperanzas con el mejor título de España.» No contexto, contrecho é «baldado, tullido, que ha perdido el movimiento del cuerpo o de algún miembro». Sabem como traduzi-lo? Muito simples: contreito, ou seja, maltreito ou maltratado de natureza, ou por acidente ou agressão. Ora, dá-se o caso de o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem sequer registar este adjectivo. Pois é... Mas encontramo-lo no VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 7512]

Helder Guégués às 22:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Tradução: «bizma»

Agora um emplastro

 

      Depois de sovados pelos arrieiros de Yanguas (creio que ainda hoje não se sabe se se trata de Yanguas de Sória ou Yanguas de Segóvia), diz Sancho Pança: «Mas yo le juro, a fe de pobre hombre, que estoy más para bizmas que para pláticas.» Em português, bisma, um emplastro. Talvez provenha também do vocábulo latino epithĕma, que deu aquele epítema que vimos antes (é a teoria a que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora aderiu), mas ainda mais provável é estar relacionado com bis, pois antigamente estes emplastros eram compostos de apenas dois ingredientes, aguardente e mirra. Em muitos e muitos casos, divergir disto na tradução para português não é lá muito avisado e o resultado não se recomenda.

 

[Texto 7511]

Helder Guégués às 21:01 | comentar | favorito

Tradução: «píctima»

Espécie de bálsamo

 

      Depois de se ter despedido da casa dos duques, D. Quixote e Sancho vão a caminho de Saragoça. D. Quixote elogia a liberdade, mais valiosa do que as riquezas, e Sancho responde: «Con todo eso que vuestra merced me ha dicho, no es bien que se quede sin agradecimiento de nuestra parte doscientos escudos de oro que en una bolsilla me dio el mayordomo del Duque, que como píctima y confortativo la llevo puesta sobre el corazón.» Sancho tudo deturpa: é epítema, palavra que ainda hoje até os dicionários da língua portuguesa registam. É o nome genérico de toda a bebida ou líquido (logo, tópico que não unguento ou emplastro) para confortar e mitigar a dor. Portanto, voto por epítema, mas, naturalmente, também deturpado, porque não vamos endireitar o discurso da personagem, obviedade de que por vezes os tradutores se esquecem.

 

[Texto 7510]

Helder Guégués às 19:39 | comentar | favorito
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Tradução: «sacapotras»

Mau cirurgião

 

      Os termos médicos, científicos ou não, do D. Quixote merecem uma reflexão. Por exemplo, este caso, que alude à rainha Madásima: «... y no se ha de presumir que tan alta princesa se había de amancebar con un sacapotras». Não me lembro como José Bento o traduziu, mas, sendo um termo depreciativo para mau cirurgião, não me surpreendia que a escolha fosse «açougueiro». Repare-se, porém, que também em português temos a palavra «potra» para hérnia, quebradura, logo, pode considerar-se a opção por sacapotras. A opção por medicastro, palavra que logo nos pode ocorrer, não é a melhor, pois são conceitos diferentes.

 

[Texto 7509]

Helder Guégués às 14:17 | comentar | ver comentários (7) | favorito
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26
Fev 17

«Mal gálico»

Desperdício

 

      «Olvidósele a Virgilio declararnos quién fue el primero que tuvo catarro en el mundo, y el primero que tomó las unciones para curarse del morbo gálico, y yo lo declaro al pie de la letra...» Estou a reler o D. Quixote e, precisamente neste ponto, vejo mais uma vez como os dicionários deixam de fora palavras e expressões que deviam acolher. A sífilis é, provavelmente, a doença com mais designações e os dicionários não as registam. Esta, mal gálico, é das mais comuns, e só nos dicionários brasileiros a encontramos, mas grafada de uma forma que me deixa muitas dúvidas: «mal-gálico». Está assim também no VOLP da Academia Brasileira de Letras, onde também encontramos «mal-americano», «mal-escocês», «mal-germânico», «mal-napolitano», etc. Faz algum sentido estar assim grafada? Não me parece.

 

[Texto 7508]

Helder Guégués às 10:53 | comentar | ver comentários (4) | favorito
25
Fev 17

«Brasaria»?

Sobre brasas

 

      «Mas é de transmontanos que falamos, sendo um deles um dos dois sócios desta brasaria — o brigantino Fábio Rodrigues, que levou avante o negócio com Vera Macedo» («A oportunidade da carne», D. M., Evasões, 24.02.2017, p. 50).

      Não estou a ver a utilidade desta macaqueação. Temos palavras para designar um estabelecimento deste tipo, não é preciso semelhante rebaixamento.

 

[Texto 7507]

Helder Guégués às 16:10 | comentar | ver comentários (1) | favorito
25
Fev 17

Léxico: «bô»

Bô, bô...

 

    «O nome — bô — evoca a interjeição que se usa na fala transmontana para exprimir admiração» («A oportunidade da carne», D. M., Evasões, 24.02.2017, p. 50).

  Vamos lá ver se uma interjeição de Trás-os-Montes conquista o direito de figurar ao lado das interjeições quimbundas que os nossos dicionários entesouram.

 

[Texto 7506]

Helder Guégués às 16:07 | comentar | ver comentários (3) | favorito