31
Mai 17

«Quociente de inteligência»

A propósito de inteligência

 

      «“Ficámos alarmados após [sic] analisarmos os dados preliminares, que já indicavam que mais de um terço das crianças teria níveis deficientes de iodo. Sabendo que a falta deste nutriente pode comprometer o coeficiente de inteligência (QI) em 15 pontos, sentimos a obrigação de alertar os decisores políticos e a sociedade o [sic] quanto antes”, explicou Conceição Calhau, que actualmente é também professora da Nova Medical School, em Lisboa» («Crianças têm níveis baixos de iodo e “pouco ou nada” foi feito», Rádio Renascença, 31.05.2017, 9h58).

      Não, não. É quociente de inteligência, e não coeficiente. Foi erro da professora da Nova Medical School (?) ou é o jornalista que ouve mal? E a sigla QI não deu nenhuma pista ao jornalista? Falta de iodo, sem dúvida.

 

[Texto 7887]

Helder Guégués às 11:19 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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31
Mai 17

Léxico: «vacina altruísta»

Uma hipálage

 

      «Mas há mais abordagens e diferentes estratégias de ataque a este parasita nos laboratórios deste mundo. Há ainda equipas que trabalham em vacinas “sanguíneas”, que actuam na fase em que o parasita chega ao sangue, e outras que se dedicam às chamadas “vacinas altruístas”, que funcionam como bloqueio à transmissão e que, apesar de não serem capazes de proteger quem é vacinado, tentam impedir que o parasita seja transmitido a outro hospedeiro» («Abordagens atenuadas, sanguíneas e altruístas», Andrea Cunha Freitas, Público, 31.05.2017, p. 27).

      É um conceito e designação de que já se fala há muitos anos, em que a vacina impede a formação de gametócitos. Vacina altruísta, pois evitará apenas o contágio de terceiros.

 

[Texto 7886]

Helder Guégués às 08:28 | comentar | favorito
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30
Mai 17

Como se escreve por aí

Uma pouca-vergonha

 

      A minha filha, com 10 anos!, veio mostrar-me esta frase de um livro que começou a ler esta tarde: «— Muito bem, Marta troca com o Ivo. Vamos lá Lobos que temos de terminar esta jangada rapidamente! — incentiva Miguel» (Os Lobos na Descida do Rio, José Carlos Completo e Mónica Cortesão Gonçalves. Lisboa: Grafitexto, 2014, p. 20).

      Então uma criança de 10 anos sabe ver que está errado e os autores não sabem nem viram nada? Folheei o livro rapidamente, para não ficar doente, e posso dizer que, só em vírgulas absolutamente obrigatórias como esta, a isolar o vocativo, faltam centenas. Como estará o resto? Pergunto, mas não quero saber. É claro que já a aconselhei a não ler o livro.

 

[Texto 7885]

Helder Guégués às 22:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «metilisotiazolinona»

Muitos nomes

 

      «De acordo com uma nota da autoridade do medicamento [Infarmed], “os produtos cosméticos não enxaguados da marca Biocode contêm na lista de ingredientes o conservante ‘methylisothiazolinone’, cuja utilização é proibida desde 12 de Fevereiro de 2017”, pelo que é ordenada a sua suspensão imediata da comercialização e a retirada do mercado» («Retirados do mercado cosméticos da Biocode por terem conservante proibido», Rádio Renascença, 30.05.2017, 7h06).

   É um conservante de acção biocida. Não sei se deve estar dicionarizado. Talvez. Seja como for, em português é metilisotiazolinona. O problema destes conservantes é que têm trinta ou quarenta nomes diferentes, e os consumidores desistem de indagar. A designação methylisothiazolinone já é suficiente para nos repelir, mas que dizer quando aparece com o nome 2-metal-4-isothiazolin-3-one?

 

[Texto 7884]

Helder Guégués às 09:58 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «chico-espertice»

Já que há tanta

 

      «A estratégia é magnífica: o Estado pergunta ao Estado se pode concorrer a apoios estatais, e o Estado permite ao Estado engordar um pouco mais. É uma chico-espertice que dura há décadas, e que subverte totalmente o espírito dos fundos comunitários» («O assalto do Estado aos fundos europeus», João Miguel Tavares, Público, 30.05.2017, p. 48).

    No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apenas encontramos chico-esperto e chico-espertismo. Ora, chico-espertice está bem formada e é usada todos os dias — além de que faz parte do ADN nacional.

 

[Texto 7883]

Helder Guégués às 09:20 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Mai 17

Léxico: «tardo-oitocentista»

Que não tarde

 

      «“Trata-se de um imóvel [edifício do dispensário de Alcântara] tardo-oitocentista (finais do séc. XIX), de ‘gosto romântico’, que associa às novas tecnologias de construção em ferro e vidro uma fisionomia simplificada, que remete para tempos passados, como se pode observar pelo recurso ao tradicional soco em pedra ou pelo tratamento das guarnições dos vãos exteriores”, acrescenta a autarquia» («Dispensário de Alcântara vai ser classificado», Público, 30.05.2017, p. 15). Isso mesmo, mas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora apenas encontramos tardo-gótico e tardo-medieval.

 

[Texto 7882]

Helder Guégués às 09:15 | comentar | favorito
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29
Mai 17

Léxico: «medronhal»

Terreno ou pomar?

 

      «Primeiro medronhal certificado: dos frutos frescos ao combate aos incêndios» (TSF, 29.05.2017, 18h55). E porque será que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define medronhal como o «terreno onde crescem medronheiros», quando de laranjal diz que é o «pomar de laranjeiras», de limoal o «pomar de limoeiros», de pereiral o «pomar de pereiras», de nogueiral o «pomar de nogueiras», etc.? Ginjal, porém, foi contemplado com as duas definições: «terreno plantado de ginjeiras; pomar de ginjeiras». O que é igual tem de ser tratado de forma igual.

 

[Texto 7881]

Helder Guégués às 21:42 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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29
Mai 17

Léxico: «superior-geral»

Todos os meses

 

      «Também o superior-geral da ordem, o belga René Stockman, criticou a decisão que foi tomada pela direcção que administra os hospitais e que inclui leigos. Stockman disse ao “Catholic News Service” que chamou a atenção de Roma para a situação e que o secretário de Estado do Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, estava a investigar pessoalmente o assunto» («Bispos da Bélgica contra eutanásia em hospitais católicos», Rádio Renascença, 29.05.2017, 11h47).

      É assim que eu também escrevo a palavra (e faço-o todos os meses), que só encontro no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Vendo bem, também está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas apenas na definição (outra incompreensível ponta solta neste dicionário) do adjectivo generalício: «relativo ao superior-geral de uma ordem religiosa».

 

[Texto 7880] 

Helder Guégués às 21:40 | comentar | ver comentários (1) | favorito
28
Mai 17

Carta de condução/licença de condução

Melhoremos a definição

 

      Fiquei um tudo-nada surpreendido que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registasse a expressão carta de condução num verbete independente, e que tem esta definição: «documento oficial que reconhece uma pessoa como capaz de conduzir um ou mais veículos, autorizando-a a fazê-lo». Não me convence. A carta de condução, na definição legal, é o documento que titula a habilitação legal para conduzir ciclomotores, motociclos, triciclos, quadriciclos pesados e automóveis. Ao documento que titula a habilitação legal para conduzir outros veículos a motor diferentes daqueles dá-se o nome de licença de condução.

 

[Texto 7879]

Helder Guégués às 20:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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No incrível mundo do ensino

Ah, as homófonas

 

      Uma professora do 1.º ciclo que não sabe distinguir soar de suar nem ruído de roído? Pode ser que o mundo não acabe, sobretudo se nunca houver avaliação de desempenho. E não será ela mais uma dessas criaturas que, em vez de procurar saber um pouco mais, perde horas e dias no Facebook?

 

[Texto 7878]

Helder Guégués às 12:41 | comentar | favorito
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28
Mai 17

Léxico: «alogénico»

Falta o mais usado

 

      «No caso de Bruna houve complicações graves, mais uma vez com um nome difícil e que lhe prolongaram a estadia: doença do enxerto contra hospedeiro — que acontece nos chamados transplantes alogénicos, em que a medula vem de um dador — com as novas células a atacar o corpo onde foram depositadas. A taxa de sucesso dos transplantes ronda os 50%» («Isolados num quarto para recuperarem a vida lá fora», Romana Borja-Santos, Público, 28.05.2017, p. 10).

      Transplantes alogénicos. Está certo. O que está errado é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que em alogénico, que diz pertencer ao domínio da petrologia, remete para alotigénico, que define assim: «relativo a detritos». Na acepção do artigo, «alogénico» há-de ser usado todos os dias, mas quem consulta o dicionário para saber o seu significado fica desamparado; na acepção dicionarizada, poucas vezes será usado. Segundo o tipo de doador, os transplantes podem ser autotransplantes (transplantes autólogos), alotransplantes (transplantes alogénicos) ou xenotransplantes (transplantes xenogénicos). E mais: «autólogo» e «xenogénico» só os podemos encontrar no Dicionário de Termos Médicos, mas com uma incompreensível diferença no tratamento da definição.

 

[Texto 7877]

Helder Guégués às 12:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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