27
Jun 17

Léxico: «repositório»

Espanta-te mais

 

      Quando regressava do duelo em que se batera com o cavaleiro de Beauvoisis, Sorel viu uma coisa que o deixou de boca aberta, tal o espanto: no meio da rua, estava a ser construído um repositório para a procissão do Corpo de Deus que obrigou a carruagem a parar por uns instantes. Ah, Sorel, Sorel, espanta-te ainda mais: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção da palavra repositório. Perderam parte do verbete quando ainda não havia computadores.

 

[Texto 7954]

Helder Guégués às 17:20 | comentar | favorito
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«Brexit»: como se pronuncia?

Boa desculpa

 

      Há meses que ando a reparar que nem toda a gente pronuncia a palavra brexit da mesma maneira. David Shariatmadari, jornalista do jornal The Guardian, reparou no mesmo e escreveu um artigo sobre a questão. Por cá, a palavra até já foi para alguns dicionários gerais da língua. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, regista a pronúncia /ˈbrɛɡzit/, que por acaso não é a que eu uso. E digo sempre /'brɛk.sɪt/. Bem sei que «um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua terra: todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro», mas se a palavra já está nos nossos dicionários...

 

[Texto 7953]

Helder Guégués às 16:23 | comentar | favorito
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O processo dos Távoras

O azar dos Távoras

 

      No programa Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro, agora com o cabelo mais domado, para alívio dos nossos nervos, levou-nos ao Museu Nacional dos Coches (MNC), instalado em novo edifício. «Foi num carro destes», disse, apontando para uma carruagem, «que o rei D. José sofreu [em 3 de Setembro de 1758] o atentado que viria depois a servir de argumento para o processo dos Távora.» Lamentável, tanto mais que, no caso, habitualmente até se vê o apelido pluralizado — como todos o devem ser. Aqui há uns anos, passou na RTP uma minissérie, da autoria de Francisco Moita Flores, com o título O Processo dos Távoras. E também não faltam obras com o mesmo título. A meu ver, até devia dicionarizar-se a expressão azar dos Távoras.

 

[Texto 7952]

Helder Guégués às 10:37 | comentar | favorito
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O verbo «haver», mais uma vez

Já é azar

 

    O quê, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista o adjectivo estarrecedor? É estarrecedor! Ainda mais estarrecedor: o Mata-Bicho de ontem voltou a escorregar no verbo haver, esse malvado que tem de ser descomplicado por decreto. Eu não acredito que João Quadros seja indocível, mas também já é azar que Bruno Nogueira padeça da mesma ignorância e não corrija o texto. E na RDP ninguém diz nada? Muito estranho. «No jornal espanhol El Mundo, apareceu uma notícia onde dizem que o incêndio em Pedrógão pode pôr em causa o futuro de António Costa como primeiro-ministro, e que provavelmente vão haver eleições no fim do Verão.»

 

[Texto 7951]

Helder Guégués às 09:54 | comentar | favorito
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27
Jun 17

De novo o verbo «haver»

Nem tudo vai bem

 

      Não fui eu que vi, mas confio como Passos Coelho não devia ter confiado: um amigo meu viu anteontem um DVD do drama político Tout va bien, de Jean-Luc Godard e Jean-Pierre Gorin, numa edição de 2013. Tudo correcto, com o selo da IGAC, mas quem vê capas, já se sabe, não vê o conteúdo. Logo no início, uma sequência diabólica de frases: «Nessa cidade haveriam casas»; «Haveriam muitas pessoas»; «Haveriam trabalhadores»; «Haveriam agricultores». Para a posteridade: tradução e legendagem de Elisa Pires de Carvalho. Quantos anos de exercício da actividade teria quando traduziu este filme? Vinte ou mais, e eis este erro estarrecedor. Pode ser o pior erro da tradução, mas não é o único.

 

[Texto 7950]

Helder Guégués às 09:14 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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26
Jun 17

Léxico: «jardineta»

Era de noite, não viram

 

      Acabei de a ouvir na Antena 1. «Comecei a tratar de uma jardineta nas trazeiras [sic], para onde dá o meu quarto, e onde tenciono renovar as hortênsias e ir mudando as outras flores e as outras plantas ao sabor das estações» (Meu Amor, Era de Noite, Vasco Graça Moura. Lisboa: Quetzal, 2002, p. 24).

    Em francês diz-se jardinet. Seja como for, tenho aqui a anotação de que Fidelino de Figueiredo, por exemplo, a usou. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece. («Trazeiras»... Isto de autores e revisores só terem um dicionário do século XIX não é muito boa ideia.)

 

[Texto 7949]

Helder Guégués às 21:07 | comentar | favorito
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Vem aí o Lexionário

Artigo 6.º

 

      Uma das sábias medidas do Simplex+ 2017 é a criação, no quarto trimestre de 2017, do Lexionário. Vá lá, não é sempre em inglês, também gostam de recorrer ao galego: lexionario, «soldado que pertencía a unha lexión romana». Estou a brincar, isto é da lex, legis, um dicionário jurídico de Direito Público e Civil no portal Diário da República Electrónico (www.dre.pt), para que se torne ainda mais certa a regra de que a ignorância da lei não aproveita a ninguém, excepto, naturalmente, aos chicos-espertos endinheirados que têm advogados para os safarem.

 

[Texto 7948]

Helder Guégués às 11:23 | comentar | favorito
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26
Jun 17

Léxico: «resposta aberta/fechada»

Só para prevenir

 

      «Segundo os dados a que a Renascença teve acesso, o governo prevê que a medida acelere os tempos de classificação, pois parte dos itens das provas são em processo de classificação automática, nomeadamente os itens de resposta fechada» («Governo quer provas de aferição online para o oitavo ano», Susana Madureira Martins, Rádio Renascença, 26.06.2017, 00h08).

      Aposto que muitos falantes não sabem exactamente o que é uma resposta fechada (nem, é claro, uma resposta aberta). Até nos arriscávamos a receber uma resposta torta, se nos atrevêssemos a perguntar. Também não sei se os que não sabem iriam procurar num dicionário, mas, ainda assim, na minha opinião, a expressão devia ser dicionarizada — não vá dar-se o caso de usarem close-ended question...

 

[Texto 7947]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | favorito
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25
Jun 17
25
Jun 17

Léxico: «iaveísmo/iaveísta»

Ganha Jeová

 

      «A meu ver, o AT documenta a existência de dois sistemas iaveístas diferentes: um fundamenta-se no mito da criação e o outro, na história da relação de Iavé com Israel. Simplificando, poderia chamar-se iaveísmo cósmico ao primeiro e iaveísmo histórico ao segundo. Contrariamente à opinião comum, a fé na criação não é um elemento recente, mas constitui a vaga de fundo do universo religioso do AT”» («Um investigador original», Frei Bento Domingues O.P., Público, 25.06.2017, p. 31).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora desconhece iaveísmo e iaveísta, e é pena. Ficam a perder os pobres partidários do tetragrama hebraico Iavé, tanto mais que jeovista e jeovismo estão naquele dicionário. Muitas pontas soltas.

 

[Texto 7946]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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24
Jun 17
24
Jun 17

Léxico: «caralhota»

Comprido como um

 

      «Caralhotas é a designação popular para os borbotos das camisolas. Como os restos que ficavam nos alguidares onde era preparada a massa do pão faziam lembrar borbotos, foi dada há longos anos essa designação aos pequenos pães feitos a partir desses restos. As caralhotas são bolas de pão caseiro, cozidas em forno de lenha» («Caralhotas», «Radar terra a terra»/Diário de Notícias, 24.06.2017, p. 13).

      Desconhecia o vocábulo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o como regionalismo: «pão cozido em forno de lenha, típico da região de Almeirim». Mas será um regionalismo, se é usado somente em Almeirim? Não é antes um localismo? Seja como for, o termo tem outros sentidos: em Miranda do Corvo e na zona da Lousã, é o nome que se dá a uma espécie de ameixa comprida. Ou registam todas as acepções ou não registam nenhuma.

 

[Texto 7945]

Helder Guégués às 23:18 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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