30
Jun 17

Léxico: «maçarico»

É impressionante

 

      É assim mesmo, e não precisamos de consultar o bruxo da Guiné para saber que será assim por muito tempo. Para não ir mais longe: onde é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a acepção de recruta, aprendiz no verbete maçarico? Não regista. «Os outros, infantaria, eram tropa da Metrópole e, por acréscimo, novatos — “maçaricos”, na gíria consagrada» (O Canto dos Fantasmas, João Aguiar. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990, p. 151).

 

[Texto 7964]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «paiolim»

Não percebo estas ausências

 

      «O Exército revelou na quinta-feira que uma centena de granadas de mão ofensivas e munições de calibre 9 milímetros foram roubadas de dois paiolins nas instalações militares dos Paióis Nacionais de Tancos, não revelando se haveria mais material de guerra roubado» («Lança granadas [sic] e engenho explosivos roubados da base militar de Tancos», Rádio Renascença, 30.06.2017, 00h32).

    O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encolhe os ombros: não sabe o que é um paiolim. Oh, maçarico! Paiolim é a construção destinada à armazenagem de quantidades limitadas de produtos explosivos. Estão, continuam a estar, dicionários fora dos dicionários.

 

[Texto 7963]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Jun 17

É a nossa vez: peidos e bufas

Não chega a ser escatológico

 

      Não devemos eximir-nos a falar seja do que for, não há tabuísmos para quem fala da língua. Para mostrar já o nível, diga-se que James Joyce, esse grande tarado, era adepto empenhado da eproctofilia (parafilia que não encontro no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Ontem o humorista — a quem nunca achei ponta de graça — Fernando Rocha veio aconselhar Salvador Sobral: podia dizer «peido» à vontade no Norte, carago, mas que em Lisboa teria de ser «bufa», e no Casino Estoril, «flatulência». Não me parece. O que diz a bufa ao peido? Isto: «Vai tu à frente que tens buzina.» O peido, que herdámos dos Romanos, peditus, ou seja, crepitus ventris, é habitualmente ruidoso, ao passo que a bufa é sempre silenciosa (e por isso também os bufos delatam no silêncio, ou levariam muitas nos cornos). Que fazia Salvador Sobral instantes antes daquela saída? Imitava de forma magistral o som de uma trompeta. Ora, na Divina Comédia, Dante põe um demónio menor a fazer uma trombeta do cu — ed elli avea del cul fatto trombetta.

 

[Texto 7962]

Helder Guégués às 08:53 | comentar | favorito
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29
Jun 17
29
Jun 17

Léxico: «pinking»

Rosa-salmão

 

      «Chama-se “pinking” e é uma categoria de vinho muito rara, porque não pode ser produzida todos os anos. Vai ser lançado pela Adega Cooperativa de Figueira de Castelo Rodrigo. [...] Tudo começou em em [sic] 2014. Jenny Silva, estudante de mestrado de Enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), identificou o fenómeno “pinking” em conjunto com Fernando Nunes e Fernanda Cosme, docentes e investigadores do Centro de Química da UTAD. “Pinking” quer dizer defeito e é historicamente conhecido pelo processo de “aparecimento de uma cor rosa-salmão em vinhos produzidos exclusivamente de uvas de castas brancas”. […] A criação da nova categoria de vinho, que adoptou o nome do fenómeno, vai ser lançada a 7 de Julho, pela Adega Cooperativa Figueira de Castelo Rodrigo que, entretanto, adquiriu a patente à Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro» («Defeito de produção dá origem a vinho raro», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 28.06.2017, 22h07).

      «“Pinking” quer dizer defeito»? Não me parece, Olímpia Mairos. O que eu vejo é que se diz de «of a colour intermediate between red and white, as of coral or salmon». Com essa palavra — mas não haverá também um termo português para o designar? —, designa-se esse defeito do vinho, porque é essa a cor que o vinho toma. Como é igualmente a cor do vinho rosé, e por isso em inglês pinking também significa rosé

 

[Texto 7961]

Helder Guégués às 17:34 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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28
Jun 17

Léxico: «troca o passo»/«carqueja»

Pobre selenita

 

      Ontem, a minha filha fartou-se de rir quando eu usei as expressões «troca o passo» e «carqueja» com datas, coisa inédita para ela. «Mete-se pela via rápida ou lá o que é, tão lenta em construção como era o comboio de mil oitocentos e troca o passo, vai-se por ali fora num ápice, os carros à compita, a progredirem até à cidade capital do distrito e a trocarem de posição» (O Deputado, António Modesto Navarro. Alpiarça: Garrido, 2002, p. 134). «FELÍCIA – Sou eu que falo: – Felícia do Rego, do Beco das Alcaparras. – Lisboa, tantos de tal de mil quinhentos e carqueja» (Estudos de Língua e Cultura Portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1996, p. 159).

     Se chegasse agora aqui o tal selenita, não as encontraria em nenhum dicionário, quando era facílimo, e bastava indicar-se que são expressões jocosas.

 

[Texto 7960] 

Helder Guégués às 18:12 | comentar | favorito

Léxico: «haxe»

Dez euros de louro

 

      «Traficante preso com 2 mil doses de ‘haxe’» (T. V. P., Correio da Manhã, 28.06.2017, p. 15). Tem de ir, como legítima redução vocabular de haxixe que é, para os dicionários. Poucas vezes passo pelas Portas de Santo Antão que não me venham oferecer, altruístas, haxe (na realidade, louro prensado). E podem dizer a T. V. P. que não precisa de aspas; vá lá, não tenha receio que isso não lhe salta para a boca.

 

[Texto 7959]

Helder Guégués às 17:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Cuidado com as teclas!

Ai a pressa

 

      Parece-me que José Mário Costa se esqueceu de rever o texto («“O Cuidado com a Língua” e a realidade», p. 46) que mandou para publicação no Público de hoje. Cinco amostras. Aqui, atrapalhou-se com as vírgulas, pondo uma no pior sítio, entre sujeito e verbo: «O facto de a RTP, desta vez, ter preferido contratualizar com a produtora um “pacote” de 26 episódios, em nada alterou a estrutura-base do Cuidado com a Língua!, que assenta em 13 episódios por série, emitidos semanalmente.» Mais: «de que sou autor e responsável pelos conteúdos, juntamente com professora Maria Regina Rocha»; «faltavam ser emitidos dois episódios»; «as suas particularidades próprias e especificas»; «foi sendo interrompida, sempre — e não “pontualmente”, como escreveu Deusdado —, de 15 em dias».

 

[Texto 7958]

Helder Guégués às 15:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «miotónico»

Está metade

 

      «Um cientista português [Mário Gomes Pereira] faz parte da equipa que identificou, pela primeira vez, anomalias em células de glia (células nervosas que não são neurónios) que estão associadas à distrofia miotónica, uma doença hereditária sem cura» («Identificada e corrigida anomalia no cérebro de ratinhos com distrofia miotónica», Andrea Cunha Freitas, Público, 28.06.2017, p. 28).

      Pois é, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista miotonia, mas não miotónico, e, contudo, acolhe miotomia e miotómico. Pontas soltas.

 

[Texto 7957]

Helder Guégués às 14:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Jun 17

Etimologia: «floresta»

Explicando melhor

 

      «Florestas contínuas e contíguas não são floresta, são monoculturas. Floresta veio do latim forestis, derivado de foris (“fora”), que significa “mata exterior” com árvores, arbustos e plantas rasteiras, fora dos limites comunitários, onde só o rei estava autorizado a explorar a caça e a extracção de madeira» («Depressa e bem não há quem», Maria Amélia Martins-Loução [bióloga, professora catedrática da Universidade de Lisboa], Público, 28.06.2017, p. 47).

      Está certo, sim, mas faltou dizer alguma coisa mais: floresta quase de certeza veio do francês forêt, e este proviria de um adjectivo latino forestis ou ƒoresta, que significa o que se lê no texto, mas, dado que é um adjectivo, fica subentendido silva; assim silva forestis é que propriamente significa bosque exterior, fora dos limites comunitários.

 

[Texto 7956]

Helder Guégués às 13:59 | comentar | favorito
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27
Jun 17

Léxico: «dickensiano»

Peço eu

 

   Oh, diabo, estamos a precisar de outra palavra no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se o tradutor escreveu «relatos dickenseanos», quer dizer que está mais do que na hora de aquele dicionário registar o adjectivo dickensiano.

 

[Texto 7955]

Helder Guégués às 23:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Jun 17

Léxico: «repositório»

Espanta-te mais

 

      Quando regressava do duelo em que se batera com o cavaleiro de Beauvoisis, Sorel viu uma coisa que o deixou de boca aberta, tal o espanto: no meio da rua, estava a ser construído um repositório para a procissão do Corpo de Deus que obrigou a carruagem a parar por uns instantes. Ah, Sorel, Sorel, espanta-te ainda mais: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção da palavra repositório. Perderam parte do verbete quando ainda não havia computadores.

 

[Texto 7954]

Helder Guégués às 17:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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