05
Jun 17

Tradução: «Büttenpapier»

E as farpas?

 

      No original, alemão, está Büttenpapier. O tradutor afirma que é papel farpado, que eu, confesso, não conhecia. Nem conheço agora. Papel farpado, leio num glossário, é o «papel que apresenta as extremidades recortadas em forma de farpa». Pois, faz sentido... mas: em dicionários de alemão-inglês, aquela palavra é traduzida por «hand-made paper». E num dicionário de alemão-espanhol leio que é «papel de tina». Sendo assim, não seria melhor dizer-se «papel artesanal»?

 

[Texto 7898]

Helder Guégués às 19:44 | comentar | favorito

Léxico: «teratoma»

Tumor monstruoso

 

      «Um tumor com dentes foi descoberto no cemitério gótico do Largo do Carmo, em Lisboa. A investigadora da Universidade de Coimbra Sofia Wasterlain fala num achado raro, que se junta a apenas mais três casos conhecidos mundialmente. […] Este tipo de tumor é denominado de teratoma e foi encontrado nas escavações arqueológicas realizadas no cemitério gótico que existia perto do Convento e da Igreja do Carmo, cuja utilização decorreu entre “o século XV e o século XVIII”, tendo sido interrompida pelo terramoto de 1755, explicou a responsável pelo estudo» («Um tumor com dentes? Achado raro descoberto no Largo do Carmo», Rádio Renascença, 8.10.2015, 9h59).

      Tão raro, na verdade, que alguns dicionários nem sequer registam a palavra, deixando desamparado quem os consulta. Teratoma vem do grego e significa «tumor monstruoso», e não é para menos, pois, como no caso da notícia, podem conter dentes, mas também cabelos, ossos, olhos e até mãos.

 

[Texto 7897]

Helder Guégués às 12:22 | comentar | favorito
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Léxico: «ter palavra»

É pena

 

    A avaliar pelo que me perguntou ontem uma tradutora muito conceituada, e pelo que vemos no dia-a-dia, os nossos dicionários ainda têm de melhorar muito. Uma das vantagens, largamente subaproveitada, da actualidade é a facilidade com que se modificam, corrigem e aumentam os dicionários. A pergunta era se existe em português a expressão ter palavra. Existe, como sabemos, e, se estava nos dicionários no século XIX, deixou de estar nos que se publicam hoje em dia. É pena que preconceitos e questiúnculas ridículas impeçam os lexicógrafos de fazerem o seu trabalho.

 

[Texto 7896]

Helder Guégués às 11:12 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Uma chacota diferente

Assim, desprezam-nos

 

      «Por isso, este Figo é uma transposição, uma adaptação de uma obra Paula Rego [sic] em cerâmica, com a sua alquimia apaixonante — “estamos a pintar com uma colecção enorme de cinzentos e de brancos e essas cores, ao misturarem-se, ao fundirem-se no fogo, é que fazem as cores que queremos”, explica Elsa Barreto, enquanto fala de chacota (o barro que resulta da primeira cozedura), de banhos ou ornamentação. […] São três as texturas características de Bordallo que o Figo guarda na sua polpa: “a verguinha”, técnica centenária utilizada para imitar a cestaria nas peças com mariscos ou com frutos, “o areado, que o Bordallo utilizava para o fundo dos pratos onde punha répteis”, e “o musgado”, um relevo usado no fundos dos pratos marinhos» («Paula Rego meets Bordallo Pinheiro: “Há algum Figo a sair do forno?”», Joana Amaral Cardoso, Público, 5.06.2017, p. 26).

    Se fossem termos estrangeiros, já estavam todos nos dicionários. Assim, acham que não vale a pena.

 

[Texto 7895]

Helder Guégués às 10:21 | comentar | favorito
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05
Jun 17

Léxico: «omento»

Entendam-se

 

      «Omento: este é o nome de um órgão que tem funções imunitárias, mas quase nem falamos dele. E não é porque seja propriamente invisível. O omento é uma cobertura adiposa que está na zona do abdómen, mesmo à frente dos órgãos viscerais. Já se sabe da sua importância desde o início do século XX, mas agora dois cientistas da Universidade do Alabama, em Birmingham (nos Estados Unidos), publicaram um artigo na revista Trends in Immunology em que voltam a realçar as funções imunitárias determinantes deste órgão tão particular. […] No corpo humano, pode variar de forma e é “consideravelmente largo”, como refere o artigo, podendo ir dos 300 aos 1500 centímetros quadrados. É um autêntico avental. Mas nos ratinhos, por exemplo, é apenas uma pequena tira» («Eis o omento, o órgão mais peculiar do corpo humano», Teresa Serafim, Público, 5.06.2017, p. 23).

      Nunca me tinha cruzado com a palavra omento — e porquê? Pois porque o nome mais comum é epíploo(n). Na pressa de remeterem para epíploo(n), os dicionários até se esquecem de indicar a etimologia do vocábulo, que é latina, omentum. Contudo, o dicionário da Real Academia Espanhola remete para «mesentério», reflexo talvez de os especialistas nem sequer saberem exactamente quais as funções deste órgão.

 

[Texto 7894]

Helder Guégués às 09:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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