07
Jun 17

«Eu corto-te a cabeça fora»?

Língua trucidada

 

      Um dos terroristas do último atentado de Londres, aqui há uns meses, embrulhou-se à pancada com um toxicodependente numa farmácia de Barking, e acabou por lhe dizer: «I cut your head off!» Já era uma vocação amadurecida. Edgar Caetano, o repórter do Observador que escreveu uma reportagem sobre o caso, acha — e é convicção, porque o repete várias vezes — que se traduz assim (e que Alá lhe valha): «Eu corto-te a cabeça fora.» Talvez isto seja português de Barking.

 

[Texto 7906]

Helder Guégués às 16:09 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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«Armários da EDP»?

Palavra de chefe

 

      «Uma estrutura de 15 metros caiu em cima de pelo menos quatro carros em Lisboa, na Praça João do Rio, ao Areeiro. A informação já foi confirmada pela Sapadores Bombeiros de Lisboa e pela Renascença no local. “Toda a peça localizada na torre da fachada principal, com cerca de 15 metros de largura e que pesa várias toneladas, colapsou, projectando-se sobre o passeio, danificando quatro veículos, dois armários da EDP”, descreveu à Renascença o Chefe Rocha, dos Sapadores Bombeiros de Lisboa» («Lisboa. Estrutura de 15 metros cai em cima de carros», Rádio Renascença, 7.06.2017, 9h39).

      Não sabia que se chamavam tão simplesmente armários. Armários da EDP... Bem, mas também referem uma estrutura a que não dão nome, quando se trata da platibanda do prédio. Talvez, afinal, os «armários da EDP» tenham outro nome.

 

[Texto 7905]

Helder Guégués às 10:51 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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«Wap billing»

Serviços adicionais

 

      «Já lhe apareceram “serviços adicionais” na factura de comunicações e não sabia do que se tratava? Provavelmente, subscreveu um serviço sem saber. Sim, isso é possível. Trata-se de um serviço chamado de “Wap Billing”, ou seja “serviços da sociedade de informação”» («Pagou 3,99 euros a mais na conta de telemóvel? Pode ter sido vítima de “wap billing”», Fátima Casanova, Rádio Renascença, 6.06.2017).

    Vamos lá aprender um pouco mais de inglês e de esquemas de extorsão. Isto só é possível com a conivência das operadoras, pois claro. Assinem aqui a petição que vai levar esta pouca-vergonha ao Parlamento.

 

[Texto 7904]

Helder Guégués às 10:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Desabonar em desfavor...

Repita, por favor

 

      «Até ao momento não tomei conhecimento de qualquer facto, nem confirmei nada que pudesse desabonar em desfavor do embaixador» (António Costa sobre o embaixador José Júlio Pereira Gomes). O pior orador dos últimos cento e cinquenta anos da política portuguesa, dizia-me ontem um amigo. Mas quanto a esta frase, com aquele «desabonar em desfavor», não há uma regra matemática para decifrar estas coisas?

 

[Texto 7903]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | favorito
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Mais Clooneys

Talvez da cesariana

 

     No jornal Destak: «Nasceram ontem os gémeos Ella e Alexander, primeiros filhos do ator George Clooney e da sua mulher, Amal» («Clooneys», p. 10). Clooneys, viram? Muito bem. Na Rádio Renascença, esta ingenuidade: «“Esta manhã [de dia 6], Amal e George deram as boas-vindas a Ella e Alexander Clooney. Ella, Alexander e Amal estão bem de saúde e felizes. George está sedado e deverá recuperar dentro de dias”, refere um comunicado do porta-voz do casal» («Gémeos de George e Amal Clooney já nasceram», 7h57). Reli a notícia, para me assegurar de que não saltara nenhum parágrafo em que se explicasse o que tinha acontecido ao actor. Nada. Na edição digital do Diário de Notícias: «Stan Rosenfield, o publicista do casal, questionado sobre a reação de George Clooney, não resistiu e até fez uma piada: “O George está sedado e deve recuperar nos próximos dias”, ironizou.» Estão a ver os perigos da ironia? Pobre jornalista, pobres leitores...

 

[Texto 7902]

Helder Guégués às 09:33 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «polimedicação/polimedicado»

Uns sim, outros não

 

      «É um grave problema nos idosos, com tendência para aumentar quando Portugal, em 2060, será o país da União Europeia com o maior decréscimo de natalidade e o maior aumento no número de seniores com doenças crónicas. Ainda assim, não há qualquer política pública para lidar com a polimedicação. […] Um estudo europeu, que teve a colaboração de investigadores da Universidade de Coimbra e consultado pelo Destak, salienta que “cerca de 40% das pessoas que toma 5 ou mais medicamentos não o faz de forma apropriada e cerca de 50% das hospitalizações que acontecem devido a medicação excessiva seriam evitáveis se existisse um plano de revisão da polifarmácia”» («Uso múltiplo de medicações», João Moniz, Destak, 7.06.2017, p. 8).

      Não me parece que faça muito sentido o termo polifarmácia, que o Dicionário Aulete, por exemplo, acolhe. Já polimedicação e até polimedicado parecem-me tão legítimos como politraumatismo e politraumatizado.

 

[Texto 7901]

Helder Guégués às 09:30 | comentar | favorito
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07
Jun 17

Léxico: «autoconstrução»

Com as próprias mãos

 

    «A Câmara Municipal de Lisboa vai arrancar com a operação de legalização do Bairro São João de Brito “logo que seja aprovada a proposta do loteamento daquele núcleo habitacional, proposta essa que deverá ser agendada até ao final do corrente mandato”. Este é um dos mais antigos bairros de auto-construção da cidade, localizado junto ao Aeroporto de Lisboa e à Mata de Alvalade» («São João de Brito vai ser legalizado até às eleições», Destak, 7.06.2017, p. 2).

      É mais do que uma mera palavra, é um conceito, e por isso mais se lamenta que não esteja em todos os dicionários. E o jornalista não a saber escrever ainda é mais lamentável. Vá, escreva autoconstrução 50 vezes.

 

[Texto 7900]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | favorito
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