08
Jun 17

Representação da oralidade

‘Tou, sim? É o Zé Mário?

 

      Em declarações ao jornal Observador, José Mário Costa afirma que «‘tá-se bem» é da gíria. Talvez seja da gíria, mas a expressão, não o verbo, que é o único aspecto que pode estar em causa. Para representar a oralidade, ‘tá-se é correctíssimo. O co-fundador do Ciberdúvidas que pergunte, por exemplo, a Malaca Casteleiro, que em gramáticas de que é autor escreve, a propósito da garantia de intercompreensão, «(Es)tá (sim)» e «(Es)tou (sim)». Porque será que aquele obreiro do Acordo Ortográfico de 1990 aduziu estes exemplos? Naquele artigo, diz-se também, mas suponho que é inteiramente da lavra atrevida do jornalista, e está igualmente incorrecto, que para dar a entender que aquela grafia está errada se deve recorrer à pontuação. Que pontuação? Bem, isto serve apenas para matizar as afirmações, para ver as questões de outra perspectiva, não, que fique claro, para sancionar o uso, em todos os contextos e registos, daquela grafia.

 

[Texto 7910]

Helder Guégués às 15:00 | comentar | favorito
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Léxico: «diorama»

Erros e diarreia

 

      Com que então, #thinkbeforeyouspeak? Mas não vou falar, podem ter a certeza disso, dos D. A. M. A. «Em paralelo, será possível assistir à reprodução do fosso original em dimensão real, com 65 guerreiros, um dinorama ‘full color’ e elementos interativos que possibilitam ao visitante imaginar-se no local» («Guerreiros de Xian invadem a Cordoaria», João Moniz, Destak, 8.06.2017, p. 11).

      E o meu conselho, já o esqueceram? Quando usamos uma palavra pela primeira vez, convém assegurarmo-nos da sua ortografia e do seu significado. Para um jornalista, esta é uma regra que tem de estar no seu decálogo. É diorama, di-o-ra-ma. Tem o prefixo de diarreia, dia-, «através de». E «full color», caro João Moniz, era escusado.

 

[Texto 7909]

Helder Guégués às 14:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Tradução: «marco»

Lenho da cruz

 

      «O encontro aconteceu no marco do Ano Jubilar de Caravaca de la Cruz, junto da relíquia da Cruz de Jesus, o “lignum crucis”» («Media. Comissões Episcopais de Portugal e Espanha defendem prioridade da “comunicação digital”», Ecclesia/Rádio Renascença, 7.06.2017, 11h55).

      Nós aqui tão perto, e quem é que sabe que Caravaca de la Cruz é uma das cinco cidades santas do Cristianismo em todo o mundo? Pois... E justamente por ter decorrido em Espanha este encontro, tinha de vir para o texto um falso cognato: marco. Também temos a palavra, sim, mas sem esse sentido. Nós dizemos, por exemplo, quadro — mas também é verdade que não encontro claramente a acepção nos nossos dicionários. Quanto ao lignum crucis, é um dos fragmentos da cruz em que Jesus Cristo foi crucificado. A Lenda Dourada explica a ligação de Jesus Cristo a Noé por meio do lenho da cruz.

 

[Texto 7908]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | favorito
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08
Jun 17

Léxico: «termoluminescência»

As intermitências do entusiasmo

 

     «Os investigadores dataram os fósseis [de Jebel Irhoud] com o método da termoluminescência (que detecta a “assinatura” temporal do aquecimento pelo fogo) em artefactos de silex encontrados no mesmo local dos “homo sapiens” [sic]» («Homem actual é 100 mil anos mais antigo do que se pensava», Rádio Renascença, 7.06.2017, 22h56).

     Se a encontramos no Dicionário Aulete, nos dicionários deste lado do Atlântico nem rasto. Faltam milhares de palavras nos nossos dicionários, como se pode ver a cada dia que passa. Esperemos que os lexicógrafos recuperem o entusiasmo que, com muitas intermitências, por vezes mostram.

 

[Texto 7907]

Helder Guégués às 09:23 | comentar | favorito
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