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Jul 17

Léxico: «interprofissional»

Interprofessionnel

 

      «Ouvida no parlamento [sic], a dirigente Manuela Paupério sublinhou que os juízes têm uma soberania “limitada”, numa resposta às críticas de quem considera que os magistrados não deviam recorrer à greve. […] Depois da Associação Sindical dos Juízes, os deputados da comissão de Assuntos Constitucionais ouviram também o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. José Albuquerque lembrou que, para evitar conflitos, o sindicato há muito propôs a criação de uma comissão interprofissional na área da justiça» («“Os juízes têm uma soberania limitada”», TSF, 11.07.2017, 18h51).

      Talvez quisessem soberania ilimitada. Queriam. Esqueçamo-los por agora. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista interescolar, por exemplo (mas já vi escrito, em documentos de escolas, «inter-escolar», como também acham que se escreve «extra-curricular»), também devia acolher interprofissional — tanto mais que a encontramos no Dicionário de Francês-Português —, assim como intersectorial, muito usada.

 

[Texto 8009]

Helder Guégués às 21:24 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «lança-granadas-foguete»

Eles é que (desta vez) sabem

 

      Ora vejamos: «Os lança-granadas foguete furtados na base de Tancos “provavelmente não poderão ser utlizados [sic] com eficácia”, revela o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas (CEMGFA), Pina Monteiro» («Algum material de guerra furtado em Tancos “provavelmente não poderá ser utilizado com eficácia”», Rádio Renascença, 11.07.2017, 20h07).

      Não pode escrever-se assim. Será antes lança-granadas-foguete, por vezes referido pela sigla LGF. E um lança-granadas-foguete não é o mesmo que uma bazuca? Parece que sim: «Os lança-granadas-foguete (vulgo bazuca), de que existiam modelos de 6 cm e de 8,9 cm, foram extensivamente empregues [sic], mau-grado só disporem de munições anticarros (Heat), consequentemente de pouca eficácia antipessoal, o que era compensado pelo forte efeito neutralizante da sua potente granada» (Guerra Colonial, Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. Lisboa: Editorial Notícias, 2000, p. 362). Mais uma coisinha: não é Estado-Maior-General, com hífenes, portanto, que se escreve? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que não regista lança-granadas-foguete, grafa-o de forma diferente na lista de siglas e abreviaturas: «Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas». Na Internet, porém, encontramos a página do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que é precisamente a forma como eu grafo esta palavra composta.

 

[Texto 8008]

Helder Guégués às 21:03 | comentar | ver comentários (2) | favorito

«Bombardeiros de água»?

Especialista, procura-se

 

      «Os incêndios obrigaram à retirada de cerca de 10.000 pessoas no Canadá e de 8.000 nos Estados Unidos, após uma vaga de calor na costa oeste do continente, com milhares de bombeiros a combater dezenas de fogos florestais. Nos Estados Unidos, mais de 5.500 bombeiros combatem vários incêndios ativos de norte a sul da Califórnia, com a ajuda de helicópteros bombardeiros de água, tendo três dos fogos considerados como contidos [sic]» («Dezenas de fogos florestais na América do norte [sic]», TSF, 10.07.2017, 21h29).

      Menos mal, já aprenderam que não se diz «evacuação de pessoas». Mas dir-se-á mesmo «helicópteros bombardeiros de água»? Sim, eu sabia que há não apenas aviões bombardeiros, mas também helicópteros bombardeiros — mas bombardeiros de água? Que algum especialista nos acuda aqui.

 

[Texto 8007]

Helder Guégués às 19:18 | comentar | favorito
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Léxico: «tomossíntese»

Apontai aí

 

      «Rastreio usa o método de Tomossíntese, com recurso a imagens a três dimensões. Governo lança também o projeto-piloto do Programa Regional do Cancro do Cólon e Reto para alargar a todo o país em 2018» («Rastreio do Cancro da mama com técnica inovadora no Algarve», Maria Augusta Casaca, TSF, 11.07.2017, 15h03).

      A tomossíntese — palavra que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora — é a mamografia a três dimensões (3D).

 

[Texto 8006]

Helder Guégués às 18:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Como falam os políticos

Os demissionários e os outros

 

     «Nunca tive conhecimento que [sic] ia ser constituído como arguido» (secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Rocha Andrade, perante a comissão parlamentar de Orçamento, Finanças e Modernização Administrativa). É assim que se deve dizer, «constituído como arguido»? Claro que não, mas, se estudam os dossiês (olha, cá está a tal que «tem resistido ao aportuguesamento»!), não sobra tempo para estudar a língua.

 

[Texto 8005]

Helder Guégués às 16:32 | comentar | favorito
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Dativo de interesse

E agora?

 

      «E agora, menino, lava-me essa cara, veste-me roupa lavada e toca a trabalhar!» (Ondas sobre a Areia, Fausto Lopo de Carvalho. Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1960, p. 220).

      Uso muito esta construção, que deixa a minha filha a rir a bandeiras despregadas, e garanto que nunca é qualquer coisa semelhante a «limpa-me essas trombas!», não. Agora, talvez até já nem faça parte das gramáticas, sei lá. Dantes, dava-se-lhe o nome, que aprendi em Latim, de dativo de interesse (dativus commodi et incommodi). Repare-se que, e por muito estranho que pareça, aquele me não tem função sintáctica.

 

[Texto 8004]

Helder Guégués às 16:12 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «apical»

Não têm

 

      De manhã, levei a minha filha a uma clínica dentária Smile.up — em breve uma em cada esquina, como a Padaria Portuguesa. Tudo bem, mas tiveram de lhe fazer uma radiografia apical, para verificar melhor. São aquelas radiografias em que a placa fotográfica se introduz na boca, estão a ver? Há três tipos: apical, oclusal e interproximal. Não sei se pela leitura da definição de apical no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora se chega a perceber do que se trata. Creio que não. Este dicionário nem sequer regista o vocábulo interproximal.

 

[Texto 8003]

Helder Guégués às 15:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Empréstimos e aportuguesamento

Depende, não é?

 

      «É de notar que não existe um critério ou conjunto de critérios que permitam prever se uma palavra estrangeira vai sofrer adaptação ou não. Dossier, por exemplo, tem resistido ao aportuguesamento (dossiê), enquanto o ateliê tem mais adeptos (de atelier)» (Gramática Descomplicada, Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite. Lisboa: Planeta, 2015, p. 93).

      A experiência de cada falante é, por natureza, diversa, mas a minha, contudo, e no que respeita a esta questão, é precisamente a contrária: usa-se mais e há mais tempo o aportuguesamento «dossiê».

 

[Texto 8002]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
11
Jul 17

«Bem haja/bem-haja», de novo

Fica para a próxima

 

     Entre as interjeições de agradecimento, acabo de ver na Gramática Descomplicada, de Sandra Duarte Tavares e Sara Almeida Leite (Lisboa: Planeta, 2015, p. 79), «bem-haja!» e «obrigado!». Está errado, como vimos aqui. (Entretanto, graças à minha sugestão, já foi corrigido no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.) Não, senhoras professoras: equivalente a obrigado é bem haja, e não bem-haja. As autoras também afirmam que as interjeições «têm uma função exclusivamente emotiva», o que não é, evidentemente, verdade. Aliás, nem se percebe bem o que pretendem dizer com «função emotiva».

 

[Texto 8001]

Helder Guégués às 14:40 | comentar | favorito
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