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Jul 17

Por mim, gim

Modas

 

      «Faleceu a 18 de Janeiro de 1984, com apenas 48 anos de idade, vítima de uma cirrose (era um bebedor inveterado de gim), foi sepultado no cemitério do Alto de São João e deixou grande parte dos seus bens ao Partido [sic] a que tinha sido fiel toda a vida» (José Carlos Ary dos Santos, Paulo Marques. Lisboa: Parceira A. M. Pereira, 2008, p. 42).

      Gim, muito bem. Mas agora a moda é o gin. Não, na verdade, este já era, este Verão a bebida da moda é o vinho do Porto branco com água tónica, P&T, diz o Independent.

 

[Texto 8018]

Helder Guégués às 22:17 | comentar | ver comentários (1) | favorito

«Concelho/conselho»

Safa!

 

      Na MotoSport, li um artigo sobre a nova tetracilíndrica BMW S 1000 XR (12.07.2017, 13h47). MotoSport, «de motos percebemos nós», gabam-se eles. E quanto à língua? «Por isso, o concelho é que descubra por si próprio esta preparada atleta de aventura.»

 

[Texto 8017]

Helder Guégués às 21:45 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Infinitivo impessoal como complemento nominal

Ou preciso de um optometrista?

 

      «Tudo vai depender, como vimos hoje de manhã, da força da norma-padrão em impor suas formas de uso da língua. Por enquanto fica difícil prever de quem será a vitória final» (A Língua de Eulália: Novela Sociolingüística, Marcos Bagno. São Paulo: Editora Contexto, 15.ª ed., 2006, p. 180).

   Sim, eu sei que o autor é doutor em Filologia e em Língua Portuguesa (vénia e segue a pergunta): quando o infinitivo impessoal serve de complemento nominal a adjectivos, não é sempre precedido da preposição «de»? No caso, «fica difícil de prever». Estou a ver bem?

 

[Texto 8016]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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«Jardineta», de novo

E outra

 

      «Finalmente, enconchado no vale, dominando o vetusto casario da vila, o palácio de Sintra, coroado pelas duas enormes chaminés, campeia os seus terraços e varandins, alegrados de jardinetas e flanqueados de árvores umbrosas» (Guia de Portugal, Raul Proença (coord.). Lisboa: Biblioteca Nacional, 1924-27, p. 538). Ainda hoje a palavra é usada, e por isso seria bom vê-la nos dicionários, como já aqui desejámos.

 

[Texto 8015]

Helder Guégués às 19:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «escorreganço»

Menos uma

 

      «E alguns de nós, por nossa vez de coração compassivo para com a Sheila (ou, mais egoisticamente, temendo algum escorreganço das montadas...), imitámo-la: e parte da caravana assim atingiu as vetustas muralhas, a pé, com os cavalos à mão, como os antigos escudeiros respeitosos perante o amo» (Caça e Cavalo em Crónicas e Contos: (sensações, evocações, saudades), Eduardo Santos Silva. Lisboa: Dislivro Histórica, 2004, p. 208).

      Há estes, os escorreganços físicos, e há os escorreganços morais e os intelectuais. Ora, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, para meu máximo espanto, ignora a palavra.

 

[Texto 8014]

Helder Guégués às 18:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Acepção: «cava»

Não é só no vestuário

 

      «O veículo precipita-se sobre o leito de seixos, com as pedras a serem projetadas no ar e a provocarem ruído nas cavas das rodas» (O Regresso dos Lobos, Sarah Hall. Tradução de Beatriz Sequeira. Queluz de Baixo: Jacarandá, 2016).

      Cavas das rodas (no original, wheel arches), sim. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista esta acepção de cava.

 

[Texto 8013]

Helder Guégués às 13:56 | comentar | ver comentários (2) | favorito

Ortografia: «protomodelo»

Então, comparem

 

      «Tiago Freitas é de Braga, uma arquidiocese com 551 paróquias, onde a falta de padres começa a ser um problema, mas onde já se procuram soluções. Este sacerdote dedicou a sua tese de doutoramento a estas questões. Intitula-se “Colégio de Paróquias – um proto-modelo crítico para a paróquia da Europa Ocidental em tempo de mobilidade”, obteve recentemente classificação máxima na Pontifícia Universidade Lateranse [sic], em Roma, e com ela o seu autor espera conseguir ajudar a Igreja portuguesa» («As paróquias, tal como existem, têm os dias contados?», Ângela Roque, Rádio Renascença, 10.07.2017, 15h07).

      E será que está mesmo assim no título da tese, ou foi escorreganço da jornalista? Se foi o autor, como sacerdote já viu, com certeza, várias vezes escrita a palavra «protomártir». Como é que podia escrever-se de outra maneira que não «protomodelo»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a regista, e talvez, como é natural, nenhum dicionário a registe — mas atenção, no da Porto Editora falta uma data de vocábulos com este elemento de formação. Sabotagem.

 

[Texto 8012]

Helder Guégués às 13:18 | comentar | favorito

«Ex-», uso e abuso

Pensem

 

   «Quantas vidas tem o (ex-)líder do Estado Islâmico?» (Carolina Branco, Observador, 11.07.2017, 21h34). O uso que muitos jornalistas fazem do prefixo ex- é de morrer a rir. Estes podiam estudar melhor a língua, já que não têm de estudar dossiês (de novo a tal que «tem resistido ao aportuguesamento»!). Suponha-se (já bati três vezes na madeira da secretária, fiquem descansados, e ainda vou ler no Dicionário de Superstições de Orlando Neves que mais posso fazer) que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no regresso da visita de Estado ao México morria num acidente de aviação. Nesse caso, os jornalistas também escreveriam «morreu o ex-Presidente da República»? Vá lá, raciocinem um pouco.

 

[Texto 8011]

Helder Guégués às 08:14 | comentar | favorito
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12
Jul 17

Acepção: «abater»

Estão a brincar

 

      «Os lança-granadas-foguete que foram roubados provavelmente não terão possibilidades de ser utilizados com eficácia. Porquê? Porque eles estavam seleccionados para serem o que nós dizemos em gíria militar abatidos», disse ontem o general Pina Monteiro, chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas. Gíria militar... Enfim, isso é o que ele pensa. «Suponha-se, p. ex., que o sujeito A. vai a conduzir um seu veículo automóvel a fim de o entregar numa sucata, para abater, e com cujo proprietário já negociara um preço x pela entrega» (Dano da Perda de Chance: Responsabilidade Civil, Durval Ferreira. Porto: Vida Económica – Editorial, 2016, p. 126). Mais espantoso, se possível, é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registar esta acepção – enviar veículo, embarcação ou certo material duradouro para destruição – do verbo abater. Caramba, por esta é que eu não esperava.

 

[Texto 8010]

Helder Guégués às 07:28 | comentar | ver comentários (1) | favorito