14
Jul 17

«Baseball/beisebol/basebol»!?

Chegam duas, ou até uma

 

      Sim, concordo: faz muita impressão escrever-se icebergue, um semiaportuguesamento, e ler-se /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. Para isso, contudo, há remédio: escrever aicebergue, que se lê da mesma maneira, /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, iceberg, o termo inglês. Semelhantemente, também faz impressão escrever-se basebol e ler-se /bɐjzəˈbɔɫ/; mais uma vez, para isso há remédio: escrever beisebol. E novamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, baseball, o termo inglês. Salvo melhor opinião, as formas em inglês não fazem sentido nenhum neste dicionário. Alguém procura nele, por exemplo, «football»? Mas há aqui diferenças: em «beisebol» remete para «basebol», mas em «aicebergue» não remete para «icebergue». A meu ver, uma vez que já não são o que eram, as remissões têm de ser sempre mútuas; um dicionário bom também diria sempre qual a forma preferencial. Esse seria um dicionário para os nossos dias.

 

[Texto 8026]

Helder Guégués às 18:38 | comentar | favorito

Léxico: «progesterónico»

Dizer tudo

 

      «Os hospitais portugueses autorizados para a realização de abortos adquiriram nos últimos dez anos 134.564 comprimidos de mifepristona, conhecida como “pílula abortiva”, desde que a interrupção da gravidez até às dez semanas foi despenalizada» («Dez anos de despenalização do aborto. Hospitais compraram 130 mil pílulas abortivas», Rádio Renascença, 14.07.2017, 10h15).

     Só vamos encontrar mifepristona no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora («Fármaco antigestacional, administrado por via oral, exclusivamente em meio hospitalar, que tem uma ação antiprogesterónica»), o que pode não ser o mais acertado, pois o leitor comum vai procurá-lo apenas no Dicionário da Língua Portuguesa. Seja como for, as dificuldades não acabam aí: neste dicionário não encontrará progesterónico nem, embora menos útil, antiprogesterónico. E mais: eu acrescentaria, porque o dicionário não é para farmacêuticos, que o fármaco é vulgarmente conhecido como pílula abortiva.

 

[Texto 8025]

Helder Guégués às 18:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Um político (demasiado) próximo

Não só afecto, igualdade

 

      Agora sim, chegou a igualdade: um político que insiste que o tratemos por tu. A juntar às vinte novas estações do Metropolitano que promete, é capaz de dar muitos votos, não? Infelizmente, como não gosto de tutear estranhos nem ser tuteado por estranhos e além disso Teresa Leal Coelho afirmou que «quando tomar posse como presidente da Câmara Municipal de Lisboa» (ou seja, é como se já estivesse eleita) vai fazer não sei o quê, lamento, Assunção, mas daqui não leva(s) nada. E vejo, com desgosto, que te esqueceste, perdão, se esqueceu da vírgula antes do vocativo. Assim não, Assunção.

 

[Texto 8024]

 

Cristas.jpg

Foto: Mário Cruz/Lusa

Helder Guégués às 16:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «gramata-branca»

Apresento-te a gramata-branca

 

      «Uma nova espécie de bactéria descoberta por três biólogos da Universidade de Aveiro (UA) recebeu o nome ‘Saccharospirillum correiae’, em homenagem ao microbiólogo António Correia, falecido em 2016. Esta nova bactéria, que foi descrita recentemente na revista científica International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, é uma, entre muitas outras novas espécies, que vive no interior de uma planta comum na ria de Aveiro, mais conhecida por gramata-branca» («Microbiólogo português dá nome a nova espécie de bactéria», Rádio Renascença, 14.07.2017, 13h07).

      Está muito bem, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não sabe o que é a gramata-branca (Halimione portulacoides).

 

[Texto 8023]

Helder Guégués às 15:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «cravar»

É para corrigir

 

      «Mas foi mesmo assim e tanto gostava de apagar aqueles dias em que a tensão das aulas me levava a cravar um cigarro ao meu querido compulsivo fumador Fernando Miranda, sentado à minha direita, e depois a ir comprando eu própria um maço de vez em quando para não estar sempre a cravar, e depois menos de vez em quando, e depois» (Onde está J.?, Julieta Monginho. Prior Velho: Campo das Letras, 2002, p. 224).

      Sim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista cravar e até cravanço, que hoje li num título do Destak que o Oleksandr, o meu motorista (e vosso, porque da Uber), aceitou e me passou para o banco de trás: «“Cravanço” impera na hora de fazer férias». Muito bem, mas a definição – «acção de cravar, de pedir dinheiro» – não está correcta, como se pode comprovar pela citação mais acima e sabemos do dia-a-dia.

 

[Texto 8022]

Helder Guégués às 15:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Jul 17

«Pára-arranca»

Perceberam

 

      «Perdemos qualidade de vida com a situação atual. É muito resultante do pára-arranca dos carros e veículos pesados» («Condutores circulam a alta velocidade e causam acidentes», João Saramago, Correio da Manhã, 12.07.2017, p. 20).

      Vá lá, perceberam que, se seguissem à letra o Acordo Ortográfico de 1990, o leitor ia atrapalhar-se um pouco.

 

[Texto 8021]

Helder Guégués às 15:21 | comentar | favorito
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