31
Ago 17
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Ago 17

Léxico: «câmara de voto»

Não custava nada

 

      «A época é de promoções e já começou a corrida às compras, neste caso, de equipamento eleitoral. O site base.gov.pt, que disponibiliza a lista dos anúncios e concursos lançados por entidades públicas, dá conta de três compras recentes de urnas e câmaras de voto por parte da Secretaria-geral da Administração Pública» («Dois concursos para comprar urnas de votos», S. S., Público, 19.08.2017, p. 16).

      Acho que sim, acho que podia muito bem estar registada no verbete «câmara».

 

[Texto 8111]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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30
Ago 17
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Ago 17

Como se escreve nos jornais

Minusculizai

 

      «O Verão faz-se sentir com intensidade neste enclave abraçado entre a cordilheira da serra da Marofa, do vale do Côa e os socalcos do Douro, onde o Côa e o Águeda rasgam a paisagem que se desenha entre profundas escarpas graníticas. A reserva da Faia Brava vai à escarpa (faia significa escarpa) buscar o nome mas também a sua razão de ser. É que aquelas grandes rochas são um porto seguro para o grifo, o abutre-do-Egipto, a águia-de-Bonelli ou a águia-real que ali acabam por nidificar, e foram mesmo estes bichos que acabaram por animar o trabalho de conservação e de gestão sustentável desta área protegida cujos responsáveis acreditam que a preservação da natureza também depende dos cidadãos» («Reserva da Faia Brava pede apoio para manter o fogo à distância», Cristiana Faria Moreira, Público, 20.08.2017, p. 12).

      Quase, Cristiana Faria Moreira, quase: abutre-do-egipto, águia-de-bonelli. (Na Infopédia, o primeiro encontramo-lo no Dicionário da Língua Portuguesa e o segundo no Dicionário de Português-Espanhol. É impressionante!) E, ao que me parece, faial é que significa despenhadeiro, alcantil, e não faia.

 

[Texto 8110]

Helder Guégués às 06:45 | comentar | favorito
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29
Ago 17
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Ago 17

Léxico: «neoárabe»

Bons conselhos

 

      «O relações-públicas [Paulo Pereira] da praça do Campo Pequeno sublinha que há outras manifestações de estilo neoárabe em Portugal como, por exemplo, a Casa de Macau, o pátio interior da Casa do Alentejo, os salões do Palácio da Bolsa e o Mercado Municipal de Loulé, mas a “grandiosidade que o Campo Pequeno tem levou a que fosse classificado como Imóvel de Interesse Público” pela Direção-Geral do Património Cultural» («Estilo neoárabe da praça do Campo Pequeno “é muito raro em Portugal”», TSF, 18.08.2017, 9h39).

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apressado, vai a corta-mato de «neo-» para «neoárico», esquecendo-se de neoárabe, entre muitas, muitas outras. Meus senhores, pessoal, rapaziada, dêem uma olhadela ao VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 8109] 

Helder Guégués às 05:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Ago 17
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Ago 17

Léxico: «pluma»

Pobreza

 

      «Há uma equipa de investigadores a tentar traçar a pluma do Douro na foz utilizando submarinos. A pluma, que se forma quando águas de diferentes densidades (como o rio e o mar) se encontram, tem uma espessura que varia entre os dois e dez metros e a sua forma está constantemente a mudar, consoante o vento e o caudal do rio. Esta massa de água localizada perto da costa é o principal modo de transporte de nutrientes — ou poluentes — dos rios para o oceano» («Seguindo a pluma do Douro (foz acima, foz abaixo) com submarinos autónomos», Beatriz Silva Pinto, Público, 18.08.2017, p. 18).

      Plumas destas é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem. Nem outros dicionários, aliás.

 

[Texto 8108]

Helder Guégués às 06:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
27
Ago 17
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Ago 17

Léxico: «arabizante»

Pois, não conhecem

 

      «Dos palacetes arabizantes à ópera e à poesia, nomes como Alfredo Keil, Garret [sic], Gonçalves Crespo, Soares de Passos, Serpa Pimentel, João Lúcio ou Cândido Guerreiro, por exemplo, deram expressão a essa sensibilidade» (A Escrava de Córdova, Alberto S. Santos. Porto: Porto Editora, 2008, p. 11).

      Não é o único, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora perdeu este verbete. Regista arabista, e já não é mau (é péssimo). Estão a contá-las?

 

[Texto 8107]

Helder Guégués às 06:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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26
Ago 17
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Ago 17

Léxico: «bala tracejante»

É pena

 

      «À noite, Alice ia à janela e via balas tracejantes por todo o lado a cruzarem o céu. Tornou-se demasiado arriscado andar na rua a partir do pôr do Sol e era impossível ficar imune às histórias de violações de mulheres que se ouvia contar» (Os Que Vieram de África, Rita Garcia. Alfragide: Oficina do Livro, 2012, p. 136).

     Balas tracejantes ou traçantes (tracer bullets, para a legião de anglófonos que nos segue). Nos nossos dicionários é que nem traço, nada. Depois exalçam as outras línguas, com léxicos infindáveis. Pois é... E já viram o espectáculo das balas tracejantes durante a noite? É pena aquela merda matar. Demónios na noite.

 

[Texto 8106]

Helder Guégués às 05:30 | comentar | favorito
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25
Ago 17
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Ago 17

Magnitude dos sismos

Aprendamos

 

      «O sismo registado pelas 7h44 em Sobral de Monte Agraço, Lisboa, não provocou danos pessoais ou materiais, e foi “sentido com intensidade máxima IV (escala de Mercalli modificada)”, adiantou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). [...] Os sismos são classificados segundo a sua magnitude como micro (menos de 2,0), muito pequeno (2,0-2,9), pequeno (3,0-3,9), ligeiro (4,0-4,9), moderado (5,0-5,9), forte (6,0-6,9), grande (7,0-7,9), importante (8,0-8,9), excecional (9,0-9,9) e extremo (superior a 10)» («Sismo de Sobral de Monte Agraço não provocou danos», TSF, 17.08.2017, 9h11).

 

[Texto 8105]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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24
Ago 17
24
Ago 17

Léxico: «sinalizar»

Pessoas e árvores

 

   «Madeira. Árvore que caiu não estava sinalizada» (Rádio Renascença, 15.08.2017, 19h22). Já segundo o Diário de Notícias da Madeira, «a árvore que caiu é um carvalho com 200 anos que estava sinalizado desde 2014». Estava, não estava. Já repararam no verbo? Sinalizar. Ora, na definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, sinalizar é «registar oficialmente, para seguimento institucional, pessoas em situação de risco, visando as suas protecção e segurança sociais (menores, idosos, vítimas de violência doméstica, etc.)». Têm de ir pensando numa nova redacção.

 

[Texto 8104]

Helder Guégués às 05:45 | comentar | ver comentários (5) | favorito
23
Ago 17
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Ago 17

Léxico: «enchedeira»

Já extintas, para eles

 

      «“É uma obra de arte que só elas a fazem. Uma pinça, uma tesoura e fio nas mãos, e elas querem é trabalhar”, diz o artesão António Almeida. Ourives desde os nove anos, mas prefere que lhe chamem “filigraneiro”. Com as suas mãos cria a estrutura das filigranas, mas depois é preciso encontrar quem, com o fio que tem a espessura de um cabelo as possa encher. São as “enchedeiras”, cada vez menos e cada vez mais velhas» («Filigrana, uma moda em vias de extinção», Miguel Midões, TSF, 14.08.2017, 9h31).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, morreram há muito, pois de enchedeira diz somente isto: «1. espécie de funil para encher chouriços; 2. mulher que enche chouriços».

 

[Texto 8103]

Helder Guégués às 05:30 | comentar | ver comentários (1) | favorito
22
Ago 17

Léxico: «Ísquia»

Quão diferentes

 

      «Abalo de 4.0 atingiu a ilha de Ischia. Primeiro balanço aponta para dois mortos e 39 feridos» («Sismo em Itália. Bebé resgatado com vida dos escombros», Rádio Renascença, 22.08.2017, 6h59). «Um sismo de magnitude 4 na escala de Richter abalou a ilha de Ísquia, no Golfo de Nápoles, sul de Itália, provocando a morte de duas pessoas, além de danos materiais» («Sismo na ilha de Ísquia, em Itália», TSF, 21.08.2017, 22h36).

      Talvez só se encontre a grafia Ísquia na segunda metade do século XX — Rebelo Gonçalves, por exemplo, não regista o topónimo —, mas basta pensar: o que está em harmonia com a nossa língua, Ischia ou Ísquia? Não, não não sabemos todos o mesmo. Não, não temos todos o mesmo cuidado.

 

[Texto 8102]

Helder Guégués às 08:35 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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22
Ago 17

Os «scientificos»

Fracotes

 

      «O resto eram oficiais do Exército. Alferes, tenentes e capitães. Tinham o apoio de veterinários e alguns eram eles próprios oficiais veterinários. Daí a preferência do povo por José Tanganho e pelo seu cavalo, o Favorito. Em 1925, no estertor da I República, fartos de revoluções e golpes de Estado, os portugueses não morriam de amores pelos militares e simpatizavam claramente com um civil de origem humildes que disputava o pódio com os chamados “scientíficos” que possuíam cartas militares e conhecimentos técnicos para enfrentar a prova. Aliás, entre os 39 cavaleiros, só Tanganho e mais dois eram civis» («Tanganho: o herói do povo que ganhou a Volta a Portugal a cavalo», Carlos Cipriano, Público, 14.08.2017, p. 13). Que bazófia, realmente. E, afinal, só dois «scientificos» («scientifico» não levava accento, fique sciente d’isso, Carlos Cipriano — vamos escrever como o outro maluco) chegaram ao final da prova. Quase a propósito: porque é que o Dicionário da Real Academia Espanhola não regista científico, na acepção de cientista, como substantivo?

 

[Texto 8101]

Helder Guégués às 06:45 | comentar | favorito