07
Ago 17

E neste caso, que significa?

Deixá-los

 

    «Almeirim sem abastecimento de água por colapso em furo de captação» (Rádio Renascença, 7.08.2017, 19h54).

     Colapso, meu Deus!, parece ser uma coisa má. Mas o que é isso, exactamente, podem dizer-nos? «“Esta madrugada entrou areia no sistema da rede de canalização, uma avaria que acontece de 20 em 20 anos, e está a afectar o normal abastecimento a toda a cidade”, disse à Lusa Pedro Miguel Ribeiro [presidente da autarquia], referindo que a avaria “obriga a fazer descargas da água que já se encontra na rede para limpeza das areias, o que, tendo em conta o seu volume e as dezenas de quilómetros de conduta, poderá demorar várias horas ou mesmo todo o dia.”» É como implementação: significam tudo e não significam nada. São ambas muito apreciadas por semiletrados e presunçosos.

 

[Texto 8084]

Helder Guégués às 20:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bucha»

Já não é

 

      Qualquer dicionário nos diz que bucha, numa das acepções, é um pedaço de madeira ou de plástico que se embute numa superfície para nela se introduzir um prego ou, mais habitualmente, um parafuso. Pois é, mas também há buchas líquidas ou químicas. Tenho aqui à minha frente uma embalagem de bucha líquida da Baufix. É verdade que na embalagem também se lê que é massa de enchimento, mas em maior destaque está, e por duas vezes, a indicação de que se trata de bucha líquida. O líquido propriamente tem 25 g e vem acompanhado de uma seringa e duas ponteiras e tubos flexíveis, para facilitar a introdução do produto, que seca em menos de um minuto, na furação.

 

[Texto 8083]

Helder Guégués às 16:09 | comentar | favorito

«Tessela/téssera»

Se fosse apenas no Verão...

 

      «Noutra zona foram ainda descobertas peças de vidro dourado que compunham uma tessela (um conjunto decorativo), um indicador de que a cidade teve, mais tarde, uma igreja importante» («Descoberta a cidade perdida onde nasceram três apóstolos?», Rádio Renascença, 5.08.2017, 9h36). Hum..., mas no jornal que citam, o Haaretz, lê-se isto: «The excavators found walls with gilded glass tesserae for a mosaic, an indication of a wealthy and important church.» É o mesmo, téssera e tessela? Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, téssera tem três acepções: «1. pequena placa de metal ou marfim que, na antiga Roma, servia de bilhete de voto ou de entrada nos teatros; 2. nome dado aos objectos que serviam de senha, entre os antigos cristãos; 3. dado com marcas em todas as seis faces». Nenhuma se aplica, pois, ao contexto. Já de tessela diz isto: «1. pedra quadrangular para revestir pavimentos; 2. peça de mosaico». Não podia ficar por aqui a indagação. Vejamos o que se lê sobre tessera no Collins English Dictionary: «(Ceramics) a small square tile of stone, glass, etc, used in mosaics». Ainda que sejam sinónimos nesta acepção, está ausente do termo téssera no dicionário da Porto Editora, além de que no verbete de tessela a definição não é, nem de perto nem de longe, clara. Voltando à notícia da Rádio Renascença, repare-se na equívoca e, em qualquer caso, paupérrima explicação do que é: «um conjunto decorativo». Isto é preguiça, que seria desculpável se fosse apenas um fenómeno estival.

 

[Texto 8082]

Helder Guégués às 13:45 | comentar | favorito
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Léxico: «roda de Genebra»

À roda das palavras

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «pensão de alimentos», e bem (não concordo com o nosso leitor J. C.), porque o faz no verbete de «pensão». Não devia também registar «roda dos alimentos», um conceito também muito usado? E, se acolhe «roda de Knight», não devia acolher igualmente «roda de Genebra» (Geneva stop, para a legião de anglófonos que nos segue), uma engrenagem que transforma um movimento de rotação contínuo numa rotação intermitente? O melhor dicionário da língua portuguesa teria tudo isto.

 

[Texto 8081]

Helder Guégués às 11:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Ago 17

Léxico: «cagagésimo»

Não o corrijam, não

 

      «A nenhum de nós, fique claro, alguma vez passou pela cabeça duvidar das mirabolâncias que o Pires contava. Muito menos deixar transparecer um cagagésimo de incredulidade» (O Fim das Bichas é o Princípio das Filas, Alface. Lisboa: Fenda, 1999, p. 33).

    É incrível, mas não o encontramos no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Resultado: um dos nossos cronistas da moda (?) escreve-o à sua maneira, «cagajésimas», e o jornal, é claro, não o corrige, pois isso seria coarctar a sua liberdade criativa. Apre!

 

[Texto 8080]

Helder Guégués às 10:39 | comentar | favorito