23
Set 17

Léxico: «esfoladeira»

Palavra do dia

 

      No programa Aqui Portugal, na RTP1, David Alves, o proprietário das Cutelarias AF, em Seramena, Sobral de Monte Agraço, mostrou alguns dos objectos que fabrica, facas, catanas, esfoladeiras, rachadeiras, etc., tudo primorosamente construído. Sim, rachadeira até está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não esfoladeira, que é um instrumento cortante que serve para esfolar, tirar a pele a peças de caça.

 

[Texto 8167]

Helder Guégués às 20:05 | comentar | favorito
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23
Set 17

Peróxido de hidrogénio

Obstupefacto

 

      «A ASAE apreendeu esta semana seis toneladas de queijo por suspeita de adição de água oxigenada. [...] A acção decorreu após confirmação laboratorial da presença de peróxido de hidrogénio (água oxigenada) em leite cru de ovelha utilizado como matéria-prima para a confeção do queijo apreendido» («ASAE apreende seis toneladas de queijo por suspeita de adição de água oxigenada», Rádio Renascença, 23.09.2017, 10h17).

      E não devia o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, no verbete peróxido, acrescentar uma subentrada para «peróxido de hidrogénio»? Claro que sim: se alguns (só alguns, nada de exageros) inspectores da ASAE sabem do que se trata, o falante médio ignora-o totalmente. Pode-lhe soar, jurar que sabe, mas não se lembrar, garantir que sabia na semana passada, etc. Contudo, «peróxido de hidrogénio» encontra-se em alguns verbetes. Um deles deixou-me obstupefacto: «água-oxigenada»! Depois disto, não me surpreenderá se passar a ver «vinho-tinto» e outras que tais. Mas peróxido de hidrogénio também está — embora o seu uso não seja somente medicinal — no Dicionário de Termos Médicos, e neste aparece com a seguinte definição (por assim dizer): «H2O2 (água oxigenada).» Assim mesmo, com a fórmula química grafada incorrectamente. É, como se sabe, assim: H2O2. E aqui já escreveram «água oxigenada». Pois é.

 

[Texto 8166]

Helder Guégués às 16:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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22
Set 17
22
Set 17

Lá longe, em nenhures

Nâmbia?!

 

      O contributo de Donald Trump para o anedotário mundial não pára de aumentar. O último é a invenção de um país africano chamado... Nâmbia. Deve ser um belo país para andar aos gambozinos.

 

[Texto 8165]

Helder Guégués às 19:29 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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21
Set 17

«Temerosamente/temerariamente»

Mas não queremos

 

      «Vários especialistas recusaram fazer a perícia às músicas de Tony Carreira por receio da dimensão do artista, indica a resposta da Inspecção das Actividades Culturais enviada quase dois anos após o pedido de perícia feito pelo Ministério Público. [...] No documento, o inspector-geral da IGAC explica as razões das recusas: “Por um lado, pela especialidade dos conhecimentos musicais exigíveis, por outro, porque nos contactos efectuados a pessoas com conhecimentos desta natureza, estas têm temerariamente recusado a colaboração ou demonstrado indisponibilidade, fundamentalmente alegando a dimensão do artista, sucesso comercial das obras e receio de futuro litígio em que se possam ver envolvidos”» («Ministério Público propôs acordo entre Tony Carreira e editora que se queixou do cantor», Rádio Renascença, 21.09.2017, 15h07).

      Nenhum especialista aceita fazer a perícia por receio — logo não é temerariamente que o fazem, mas temerosamente. Isto é temerar a língua, isso sim. Não tanto, mera confusão, mais uma. Se quiséssemos enviesar o sentido da frase, diríamos que os especialistas recusaram temerariamente o pedido/proposta da IGAC. Sem receio.

 

[Texto 8164]

Helder Guégués às 20:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito (1)
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Léxico: «noz-de-cola»

E estas?

 

      Então a noz-de-cola (Cola accuminata), tão importante na África Ocidental, onde é (ou era?) consumida como excitante, e até chegou a servir de moeda, não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? E no Brasil é conhecida como obi, outro vocábulo que aquele dicionário não regista. O VOLP, da Academia Brasileira de Letras, por exemplo, regista ambos.

 

[Texto 8163]

Helder Guégués às 16:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Set 17

Léxico: «Viosinho»

Outra esquecida

 

      «As castas utilizadas para elaboração do vinho são “autóctones, de vinhas velhas da Região Demarcada do Douro, como a Malvasia Fina Branca, Viosinho, Códega do Larinho, Gouveio Branco ou Verdelho”» («Ice Wine. O “chamado vinho dos deuses” é produzido a partir de uvas congeladas», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 21.09.2017, 8h47).

      Já aqui tínhamos visto que os nomes de algumas castas de uvas não estavam registados no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. O mesmo sucede desta vez: Viosinho não o encontram lá.

 

[Texto 8162] 

Helder Guégués às 12:06 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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20
Set 17
20
Set 17

Plural de «Júpiter»

Comem toda a luz

 

      «O telescópio espacial “Hubble”, da NASA, descobriu um planeta que parece “asfalto negro”, por ter a capacidade “única” de absorver 94% da luz que recebe, em vez de a refletir para o espaço. [...] Faz parte do grupo de “júpiteres quentes”, que são um conjunto de planetas gigantes e gasosas [sic] que orbitam muito próximos da estrela-mãe» («Descoberto planeta que “come” toda a luz que recebe», Rádio Renascença, 19.09.2017, 22h56).

      Seria espantoso que acertassem nisto. O artigo tem muitos outros erros e descuidos, mas interessa agora este em especial. Há certos plurais, e já vimos aqui alguns — entre os quais o de Júpiter —, com deslocação do acento tónico. Assim, o plural de piter é Juteres. Se nem os jornalistas sabem isto, o que se pode esperar do zé-povinho, ultimamente mais perito em telemóveis e parvoíces feicebuquianas?

 

[Texto 8161]

Helder Guégués às 15:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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19
Set 17
19
Set 17

«Fez fazer»

Poupem os músculos

 

      «Ser burguês não me fez fazer uma ideia irreal do mundo» (A Cor dos Dias ­— Memórias e Peregrinações, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2003, p. 52).

      Por vezes, vemos certas pessoas levantarem o sobrolho quando ouvem construções como esta. Poupem os músculos — e poupem-nos a paciência.

 

[Texto 8160]

Helder Guégués às 19:52 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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18
Set 17

«Enfermeira circulante»

E agora enfermeiros

 

      «A equipa que fez pela “primeira vez” em Portugal esta operação foi composta por António Costa Ferreira (cirurgião principal), Inês Insua Pereira (cirurgião principal), Antónia Trigo Cabral (anestesista), Jorge Carvalho (cirurgião ajudante), Sérgio Teixeira (cirurgião ajudante), Paula Martins (enfermeira instrumentista), Joana Monteiro (enfermeira de anestesia) e Patrícia Vieira (enfermeira circulante)» («Hospital de São João realizou cirurgia “inédita” para tratamento da enxaqueca», Rádio Renascença, 18.09.2017, 14h09).

      Já um dia — mas quando, onde? — andei às voltas com esta função de enfermeira circulante. Creio que foi numa tradução. Fica aqui, pode ser útil a mais alguém.

 

[Texto 8159]

Helder Guégués às 18:22 | comentar | favorito
18
Set 17

Enxaquecas e inglês

Uma dor de cabeça

 

      «Uma equipa do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Centro Hospitalar São João, do Porto, anunciou ter realizado “com sucesso” um tratamento cirúrgico minimamente invasivo (endoscópio) de enxaqueca, que é “inédito em Portugal”. A intervenção em causa é realizada por meio de técnica endoscópica na região frontal e é dirigida aos chamados “trigger points”, isto é, pontos desencadeantes das crises dolorosas. A técnica consiste em “seccionar os músculos situados na região frontal do crânio (corrugador e procerus), e libertar os nervos adjacentes, nomeadamente o nervo supraorbitário e supratroclear (situados na parte superior do olho), com técnica endoscópica. A estimulação desses nervos era o factor desencadeante das cefaleias. A cirurgia é realizada através de três pequenas incisões (15 milímetros) localizadas no couro cabeludo, com anestesia geral e obriga a internamento de apenas um dia (one day surgery)”, explica o cirurgião [António Costa Ferreira]. [...] A utente submetida a esta técnica, afirmou que “há 25 anos que não estava dois meses sem tomar analgésicos e sem cefaleias”, sublinhando que esta intervenção “mudou” a sua vida» («Hospital de São João realizou cirurgia “inédita” para tratamento da enxaqueca», Rádio Renascença, 18.09.2017, 14h09).

      Farto-me de rir com estes médicos: trigger points, one day surgery... A «utente» não passava dois meses sem tomar analgésicos e sem cefaleias. Ora, eu não passava duas semanas sem tomar analgésicos e sem cefaleias. A diferença: curei-me a mim mesmo. Graças, é verdade, a um livro de um médico, um génio, Oliver Sacks. (E já viram os termos que faltam no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Ih, Jasus, tantos. Corrugador, supraorbitário, supratroclear.)

 

[Texto 8158]

Helder Guégués às 17:59 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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