30
Set 17

Uma palavra perdida

Rocker, estrangeira, estranha

 

      Morreu o Ricky Nelson português, Daniel Bacelar, «o primeiro rocker de Portugal», como se lê em todo o lado. Agora reparem: rocker não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, e podia, porque também regista a dupla motard/motoqueiro, e a rocker, no Dicionário de Inglês-Português, fazem corresponder «músico de rock» (e o itálico, senhores lexicógrafos? Espero que não esteja proibido nos dicionários). Mas no Dicionário de Alemão-Português da mesma editora a Rocker já fazem corresponder «roqueiro». Está a falhar-me alguma coisa, ou ainda não saí completamente do recobro?

 

[Texto 8181]

Helder Guégués às 16:33 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Portugal autêntico

A telefonista académica

 

      Mal entrou naquela universidade sénior, deixou de dizer «puta» e «quenga» (esta herdada do marido, que andou na Guerra Colonial e sabe do que fala), agora sabe que se deve dizer sempre «prostiputa».

 

[Texto 8180]

Helder Guégués às 15:46 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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30
Set 17

«Arriar forte e feio»

Talvez amanhã

 

      Grande inépcia, a de Teresa Leal Coelho. (E que tal se cortasse essa franja, para começar?) Ah, mas esperem, este blogue é de questões linguísticas. Corta!

      Bem, de vez em quando continuo a ver confusões entre arriar e arrear, de que já aqui tenho tratado. Vejamos: «Nem sempre tudo corria bem e em paz com os anjos. Também sabia ser bera e arrear forte e feio» (Na Boca da Infância, António Damião. Lisboa: Editorial Caminho, 1988, p. 36). António Damião escorregou aqui: é arriar forte e feio. Bater, dar pancada. Mas hoje também li que certo picolho conspícuo (posso dizer «picolho»? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encolhe os ombros de papel) tinha «vincada preferência por homens mais velhos que lhe arriassem forte e feio». Ainda está para vir o dicionário que recolha exaustivamente todas as acepções de todas as palavras que usamos no dia-a-dia.

 

[Texto 8179]

Helder Guégués às 15:04 | comentar | ver comentários (2) | favorito
29
Set 17
29
Set 17

Léxico: «politiquês»

Ora, não calhou

 

      «O problema é tão pequeno em escala que não é notícia. Em politiquês chama-se “exercício do direito de voto antecipado por eleitores deslocados no estrangeiro”, o que, na vida real, traduz-se [sic] na bizarra dificuldade — em certos casos, impossibilidade — de os diplomatas poderem votar» («Domingo, os diplomatas não vão votar», Bárbara Reis, Público, 29.09.2017, p. 58).

     Outra pergunta inteligente pertinente: porque é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista, por exemplo, economês, mas não politiquês, sabem? As principais, as mais usadas, sim, devem ser dicionarizadas. Caramba, ainda mais (!) vazio é o discurso do futebolês, e aquele dicionário acolhe o termo.

 

[Texto 8178]

Helder Guégués às 11:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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28
Set 17

Como se escreve por aí

Meus queridos afiliados

 

      Costumam errar em português. Vejamos em latim. «O documento de 25 páginas e intitulado “Correcção de afiliados de haeresibus propagagatis” (Correcção filial em relação à propagação de heresias) terá sido enviado ao Papa no dia 11 de Agosto» («Papa responde aos críticos da exortação sobre família», Rádio Renascença, 28.09.2017, 14h44).

    Mas que trapalhada! Metade semiportuguês, metade semilatim. E escusavam de patinar em cima da sílaba ga. Mas se fosse em inglês? Já outro galo cantava, e não erravam nada: «A filial correction concerning the propagation of heresies». Something went wrong.

 

[Texto 8177]

Helder Guégués às 23:30 | comentar | favorito
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Léxico: «escolástico»

Desempoeirem-no

 

      Em cinco anos, 94 membros abandonaram certa congregação, «(26 sacerdotes, 16 irmãos e 52 escolásticos)». Uma sangria? Talvez. Mas reparem na palavra «escolástico». Nos dicionários modernos, nem rasto. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, leva o pobre leitor ao equívoco total. ↯↯↯ O Aulete salva a honra dos lexicógrafos: «Antq. O aluno, o estudante em geral». Antigo, decerto, mas não o relegaram para o sótão dos obsoletismos — porque depois faz falta, não é?

 

[Texto 8176]

Helder Guégués às 23:02 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Incultura geral

Antes surdo

 

      Perdido na gaveta dos retroses, encontrou um porta-chaves com o símbolo ☮ . «Nonô, queres este porta-chaves da Mercedes?»

 

[Texto 8175]

Helder Guégués às 22:17 | comentar | favorito
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Como se escreve por aí

Que no domingo vão andar à mocada

 

      A Motor 24 vem hoje falar das consequências de deixarmos o carro fora da garagem. Ah, são tantas. Por exemplo: «Riscos e moças: se calhar é dos perigos mais habituais.» Não quero alarvejar, mas, francamente, tomara-me a mim uma moça a valer no carro. Eu sei, eu sei: depende. As leitoras do Linguagista — mas haverá excepções, e não estamos aqui para julgar ninguém — hão-de preferir um valente moço. Já as catalãs decerto preferirão um belo mosso d’esquadra. Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.

 

[Texto 8174]

Helder Guégués às 20:40 | comentar | favorito
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Léxico: «frijoca»

Se souberem

 

      «O almoço confecionado por um grupo de cozinheiras da freguesia é a prova disso. Foram, pelo menos, uma dezena as mulheres que se juntaram para confecionar a Frijoca: prato típico da matança do porco» («“Frijoca”, a “caldeirada” política da CDU no Couço», Rádio Renascença, 28.09.2017, 17h40).

     Ai as aspas, ai as maiúsculas... A frijoca, ao que parece — já conheciam? —, é carne de porco frita com batata cozida e salada. Localismo? Regionalismo? Invencionismo?

 

[Texto 8173]

Helder Guégués às 20:24 | comentar | favorito
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28
Set 17

Léxico: «madista», «madismo»

Para trás ou para a frente?

 

      Há falhas nos dicionários que dificilmente se compreendem. Por exemplo, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista — e bem — mádi (habitualmente com maiúscula), nome por que é conhecido, na tradição muçulmana, o messias aguardado. Ora, o adjectivo, madista, que já estava na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (que acolhe madi ou made), está ausente do dicionário da Porto Editora, assim como também não encontramos nele madismo. Avançamos ou retrocedemos?

 

[Texto 8172]

Helder Guégués às 13:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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27
Set 17
27
Set 17

Léxico: «galena»

E o mais importante?

 

      «As peças mais antigas, um Stomberg-Carlson [sic] e um Federal Telephone (galena), recuam a 1922. O exemplar mais recente data de 1980 e tem o selo da Grundig. Todos funcionam. Os aparelhos estavam guardados em casa de familiares, em Vagos, e eram apreciados a pedido. Um protocolo de depósito do espólio, assinado este ano entre a família e a Autarquia, permitiu a constituição do museu» («Coleção de 1500 rádios deu origem a museu», Zulay Costa, Jornal de Notícias, 27.09.2017, p. 38).

      Na citação de artigos de jornais, tem de haver sempre um sic, não é? Por vezes, até fingimos que não têm erros, ou desculpamos a incúria. No caso, porém, é da definição de galena no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que nos temos de ocupar: «minúsculo e primitivo receptor de rádio em que se emprega um cristal deste mineral». Primitivo, rudimentar, sem dúvida (creio que seria capaz de construir um), mas não minúsculo. A miniaturização, nestas coisas, é feito mais recente. É habitualmente pequeno, sim, não minúsculo, mas não dizem o mais importante: não necessita de energia eléctrica nem de baterias. Nada.

 

[Texto 8171]

Helder Guégués às 13:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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