05
Set 17

Um estranho Führer

Grandes enganos

 

      «“Este é um acto cheio de simbolismo”, disse ao diário espanhol El Mundo o ministro das Antiguidades egípcio, Khaled al Anani, evocando o aniversário e o facto de esta gruta — que os romanos usavam para armazenar cereais e que hoje guarda artefactos militares e objectos pessoais do homem que o Führer nomeou marechal de campo [sic] e depois forçou ao suicídio — ter estado fechada boa parte da última década. O material exposto, esclareceu Al Anani, “foi cedido pela família, pela polícia local e pelo Ministério das Antiguidades”» («Egipto reabre museu dedicado a um dos favoritos de Hitler», Lucinda Canelas, Público, 30.08.2017, p. 30).

      Führer, pois claro, mas vejam: «As pessoas importantes do regime nazi, casos de Goering, Goebbels ou Himmler, sempre me trataram com carinho e respeito, pois sabiam que eu era a cadela do Fuehrer, e que qualquer desconsideração que me fosse feita seria entendida por ele como um insulto pessoal, o que podia até corresponder a uma pena de morte» (Amados Cães, José Jorge Letria. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Cruz Quebrada: Oficina do Livro, 3.ª ed., 2008, p. 142). Uma coisa é escrever, por exemplo, Messkirch em vez de Meßkirch (mesmo que eu prefira esta última); outra, bem diferente, é optar por um estranho «Fuehrer». Bem, não é o pior erro deste livro. Quanto a marechal-de-campo — que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora —, Lucinda Canelas não sabe que se escreve com hífen.

 

[Texto 8126]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Cuidado com os números

Reincidentes

 

      Pode não ser apenas descuido, mas um grave problema com números. Sobre a Índia: «O país de mais de um milhão de pessoas tem dezenas de milhares de gurus» («A estranha paixão da Índia pelos seus gurus», Maria João Guimarães, Público, 29.08.2017, p. 30).

 

[Texto 8125]

Helder Guégués às 09:58 | comentar | favorito
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E a revisão que diz?

De más contas

 

      «Na Agricultura, o primeiro-ministro garantiu que “até ao final da legislatura haverá mais 90.00 hectares de regadio”, uma medida que já estava no programa do Governo. A intenção é “fazer pequenos Alquevas”» («Promessas de Costa na rentrée», Vítor Costa e David Dinis, Público, 28.08.2017, p. 2).

      Os jornalistas atrapalham-se facilmente com números e acharam que tinha de haver ali um ponto — que por acaso, só por acaso, não é o que exige a norma portuguesa, mas vírgula. Pormenores. Na Matemática para Totós, estaria aqui um aviso, uma bomba com o rastilho aceso. António Costa, apontem aí, prometeu 90 mil hectares de regadio.

 

[Texto 8124]

Helder Guégués às 09:55 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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É o fim

Tu quoque, Juli?

 

      Até Júlio Isidro, jurado no programa A Capella, na RTP1, diz «à séria». Agora é que perdi a esperança na humanidade. (Estar em convalescença, sem me poder movimentar, também ajuda.)

 

[Texto 8123]

Helder Guégués às 09:47 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Goreia, Goreia, Goreia — escreva vinte vezes

Sempre actual

 

      «Ocasionalmente, este torpor sofre abalos. O mais recente ocorreu há meses, no rescaldo das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa em Gorée que refletem os estereótipos dessa amnésia: a evocação de um alegado “pioneirismo” – mais um – de Portugal na abolição da escravatura, como reflexo da sua “vocação humanista”. A reação às suas palavras traduziu-se, fundamentalmente, num apelo a um debate aberto – e livre das velhas retóricas – sobre a nossa memória coletiva do período colonial e, em particular, do tráfico de escravos» («Torres de marfim e poeira amnésica», Paulo Jorge de Sousa Pinto, Público, 28.07.2017, p. 44).

      Para um historiador, não está mal — está péssimo. Em francês é Gorée, mas em português é Goreia. É, pois, o ensejo para republicar um texto de 2007 do Assim Mesmo sobre esta questão: «Os topónimos estrangeiros por vezes dão a volta à cabeça das pessoas. Sobretudo dos revisores. Há certo tempo, um autor insistia em escrever “Gorée”, a pequeníssima ilha ao largo de Dacar que foi entreposto de escravos e é actualmente Património Mundial da Humanidade. Descoberta em 1444 pelos Portugueses, o nome foi-lhe dado pelos Franceses, que se assenhorearam dela no final do século XVII. Desde então, decorreu tempo suficiente para o topónimo ter sido, como foi, aportuguesado para Goreia. Em Fevereiro de 1992, o Papa João Paulo II visitou a ilha, pedindo então, em nome dos Europeus, perdão por todo o mal causado a África ao longo dos séculos. Também George W. Bush esteve, em 2003, na Goreia, assim como, antes dele, Bill Clinton. Durante a visita de Bush, as autoridades de Dacar decidiram limpar as ruas de vendedores e de outras personagens igualmente conspícuas, concentrando-as num campo de futebol. Que ironia. Como acto simbólico, a visita é muito comovedora, sim, mas o pior é o que os Estados Unidos fizeram e continuam a fazer em África. O Darfur é um exemplo bem claro.»

 

[Texto 8122]

Helder Guégués às 09:44 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «epóxi»

O Diabo, a cola, a língua

 

      Preciso de colar uma base de Lego de 32 por 32 (espigas, como dizem os Espanhóis? Tudo menos studs ou pegs, como se diz em inglês), e a dificuldade é encontrar a cola adequada. Do que pesquisei, parece que o indicado é uma cola epóxi. Espero que a base não se funda. Resolver-se-á. Mas agora reparem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista epóxi e epóxido, mas somente como substantivos. E o adjectivo? No Dicionário da Real Academia Espanhola, podemos ver epoxi como substantivo e adjectivo. E também já vi, em português, «epóxico». Em suma, estamos entregues a nós mesmos, nenhuma instituição defende a língua. Agora que, com as primeiras chuvas, o Diabo já se foi embora, o Presidente da República não devia pensar nesta questão?

 

[Texto 8121] 

Helder Guégués às 09:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «mentirómetro»

Ora, e porque não?

 

      «“Mentirómetro”. ​Trump ultrapassou as mil declarações falsas ou enganosas» (Rádio Renascença, 23.08.2017, 23h24). Claro que é um termo inventado, jocoso, mas há anos que o vejo por aí, e até em livros. Trump, para significar o mesmo, tem de dizer o quê?, talvez bullshit meter. Senhores lexicógrafos, ponham lá a palavra nos dicionários.

 

[Texto 8120]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | favorito
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Como se escreve inglês nos jornais

Se nem em português...

 

      «“A ideia é, no fundo, melhorar a qualidade de vida dos doentes”, enfatiza Marcos Mariz. Contudo, por agora, a prioridade dos investigadores não é seduzir doentes, mas sim a indústria farmacêutica. “Este projeto, sendo um medicamento, vai precisar de passar por muitas etapas até à submissão final e entrada no mercado. A nossa ideia é desenvolver e patentear a tecnologia, para depois a licenciar a uma empresa farmacêutica grande, uma multinacional, que dê os passos mais caros, os ensaios clínicos, a submissão nos diferentes mercados e tudo isso”, explica. E, para as big pharma’s, os argumentos também são claros: “esta é uma mais-valia face às outras que estão no mercado, porque é uma nova tecnologia; tem a vantagem de usar menos fármaco e permitir poupar na produção; e eliminam-se os efeitos sistémicos [efeitos secundários]”, que mais facilmente podem surgir se as gotas não são absorvidas da forma correta» («In Eye, a pérola que substitui as gotas para os olhos», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 23.08.2017, p. 13).

      Para um jornalista, não está mal — está péssimo. Então o plural de big pharma não é big pharmas, raios?! E porquê em inglês, quando podia dizer «grandes farmacêuticas»? Isto não é normal.

 

[Texto 8119]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Conhecimento incerto

 

      «A solução está na ponta dos dedos. É milimétrica, do tamanho e do aspeto de uma pérola. O In Eye, dispositivo que está a ser desenvolvido no departamento de Engenharia Química da Universidade de Coimbra, promete substituir a aplicação diária de gotas para olhos, por exemplo, em doentes com glaucoma ou em recuperação de cirurgias às cataratas: em vez disso, bastará colocar o pequeno inserto junto ao olho, na pálpebra inferior, para dosear e distribuir o medicamento pelo organismo, por um longo período de tempo» («In eye, a pérola que substitui as gotas para os olhos», Rui Marques Simões, Diário de Notícias, 23.08.2017, p. 12).

      Nunca antes vi este uso do adjectivo (?) «inserto». Para mim, é mais do que incerto, é completamente duvidoso. Terá o jornalista ouvido bem? Sim, porque só pode estar a reproduzir o que ouviu, e, como tantas vezes sucede, ouvem mal.

 

[Texto 8118]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «soninquê»

Apagam a História

 

      E a propósito de Farim: junto desta povoação viviam os Soninquês. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista este gentílico (e nome da língua, do ramo mandinga); o Michaelis regista-o. A Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira regista-o; Rebelo Gonçalves não o regista. Copiamos os bons ou os maus?

 

[Texto 8117]

Helder Guégués às 09:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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05
Set 17

«Coli Sare»

Queremos saber

 

      Se virmos um mapa da Guiné-Bissau, o que encontramos é Coli Sare, e não Cóli-Sari, ali no triângulo formado por Farim, Olossato e Mansabá. Surpreende, no entanto, haver tão poucas referências à toponímia das ex-colónias portuguesas, isto num momento em que se publicam tantos livros sobre a Guerra Colonial. As aldeias dos Fulas com sare ou sara no nome significa que eram antigas; se tinham sintchã ou sintcham no nome, eram de fundação recente.

 

[Texto 8116]

Helder Guégués às 06:15 | comentar | favorito
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