13
Dez 17

Léxico: «Hanucá»

Matam-nos

 

      «A Comunidade Israelita de Lisboa assinala na quarta-feira, dia 13, de forma pública, a festividade do hanucá, ou a festa das luzes, com uma cerimónia pública no Parque Eduardo VII. Durante a cerimónia, aberta a todos, acender-se-á a segunda luz da menorá, o candelabro de nove braços que se tornou um dos símbolos da resistência dos judeus à assimilação» («Judeus em Portugal continuarão a florescer. “Já sobrevivemos a desafios bem maiores”», Rádio Renascença, 12.12.2017, 22h16).

      Não devia ser tudo com maiúsculas iniciais? Sim: Hanucá ou Festa das Luzes. E feminino ou masculino? Na Infopédia, só a encontramos no dicionário de Alemão-Português. Lichterfest. Peçamos, então, como o outro: «Mehr Licht, mehr Licht.» Isto é mais do que frustrante, é apoplexante.

 

[Texto 8470]

Helder Guégués às 12:41 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «tintar»

Podia ser pior

 

      «De resto, a mesma Unidade Nacional Contraterrorismo que, na madrugada desta segunda-feira, depois de o gang ter sido apanhado por mais um assalto à bomba a caixas multibanco, apreendeu ao chefe do grupo sacos do lixo cheios de notas das ATM – que os bancos continuam a não tintar» («Carros de luxo lavam fortuna das explosões», João Tavares, Correio da Manhã, 12.12.2017, p.12).

    Está, vi-o agora, em alguns dicionários, nanja no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. De facto, não se pode dizer pintar; mas podia, ao que me parece, usar-se o verbo tingir. Mas esperem: na Infopédia vamos encontrar o verbo tintar no verbete «inchiostrare» do dicionário de Italiano-Português. Isto é mau, e até péssimo por se repetir tanto: um dicionário não pode usar, nas definições, vocábulos que não regista, que não define. (Mas festejemos: a maioria dos jornalistas já sabem que é «contraterrorismo» que se tem de escrever. Só é pena o «gang», pois temos, por exemplo, «quadrilha»; por sorte, o jornalista lembrou-se de usar «chefe» e não «líder».)

 

[Texto 8469]

Helder Guégués às 11:50 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Como se escreve nos jornais

Ou neste, concretamente

 

      Vejam este título do Correio da Manhã de ontem: «IURD exporta crianças com aval do Estado». É como se estivessem a referir-se a melões ou a pastéis de nata. Exportar crianças... Querem pior? Está bem: «Edi tem apenas 17 anos, mas já está em prisão preventiva pelo homicídio de Nuno Cardoso, o segurança da discoteca Barrio Latino executado com um tiro na cabeça, na sexta-feira» («Preventiva para jovem homicida de segurança», João Carlos Rodrigues, p. 48). Executado...

 

[Texto 8468]

Helder Guégués às 11:23 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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Mais tempestades

O nome diz tudo (ou não)

 

      «Não se sabe ao certo quando acontecerão mas, pelo menos, já têm nome. Agências meteorológicas de Portugal, Espanha e França criaram uma lista de nomes, alternando femininos com masculinos, para identificar fenómenos extremos que venham a atingir o sul da Europa. [...] Depois disso, virão a Carmen, o David, a Emma e por aí adiante, seguindo a ordem do alfabeto. A primeira foi Ana: mais de 3 mil ocorrências, uma vítima mortal, voos cancelados, barras encerradas. [...] Com recurso a modelos estatísticos, os cientistas concluem que as tempestades com nomes femininos causam o triplo das vítimas mortais do que as baptizadas com nomes masculinos» («Bruno e Carmen. As próximas tempestades a atingir Portugal já têm nome», André Rodrigues, Rádio Renascença, 13.12.2017).

      Ficamos assim a saber mais. E também rimos mais: «os cientistas concluem que as tempestades com nomes femininos causam o triplo das vítimas mortais do que as baptizadas com nomes masculinos». O jornalista, contudo, acrescenta: «O estudo é controverso. Até porque a hipótese inicialmente avançada por estes investigadores toca na sensível questão do sexo forte.»

 

[Texto 8467]

Helder Guégués às 10:28 | comentar | favorito
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Bufos fora dos dicionários

Pelo menos as principais

 

      Ontem, a menina *** teve o prazer de pegar, devidamente protegida com uma luva de falcoeiro, num bufo-real (Bubo bubo) e num mocho-pigmeu (Glaucidium passerinum), nenhum deles no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Como é que bufo-real, uma ave de rapina portuguesa, com os seus fantásticos olhos cor de laranja e os dois penachos na cabeça, quais orelhas, não está dicionarizado?

 

[Texto 8466] 

Helder Guégués às 00:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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12
Dez 17

Léxico: «feature phone»

Se tem de ser

 

      «Ao longo de 2017, a empresa vendeu 370 mil telemóveis. Cerca de um terço foram smartphones, enquanto os restantes foram os telemóveis com teclas tradicionais, que na gíria do sector se chamam hoje feature phones. Tipicamente, estes aparelhos são baratos e destinam-se a mercados em desenvolvimento e a utilizadores mais velhos (o mais barato da Iki Mobile custa 17 euros)» («Telemóvel made in Portugal arranca a partir de Janeiro em Coruche», João Pedro Pereira, Público, 12.12.2017, p. 18).

      Pronto, aprendamos, já que os jornalistas insistem diariamente em escrever em inglês. Imagino que os que têm o tamanho de um cartão bancário também são feature phones. Ah, não, não: de certeza que encontramos uma forma de o dizer em português. Telemóvel básico. 

 

[Texto 8465]

Helder Guégués às 23:42 | comentar | favorito
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Léxico: «subtecto»

Sem dúvida

 

      «A queda de chuva intensa acompanhada por fortes rajadas de vento deu-se em várias zonas de Lisboa. “Houve um grande remoinho e terá sido isso que fez cair as telhas no subtecto”, descreve a responsável, ressalvando, no entanto, a fragilidade da estrutura do edifício» («Ruína parcial do telhado lembra urgência de obras no Camões», Liliana Borges, Público, 12.12.2017, p. 14).

      Se existe, se se usa, registe-se nos dicionários, ou um dia destes ainda alguém dirá que é o subroof.

 

[Texto 8464]

Helder Guégués às 09:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Sobre «patrulheiro» e «arvorado»

Olhem que não

 

      «Para este reforço do policiamento de visibilidade, a Polícia de Segurança Pública vai ter no terreno patrulheiros, elementos do trânsito, das Equipas de Intervenção Rápida, das Equipas de Prevenção e Reação Imediata, da investigação criminal (à civil) e de fiscalização, além dos elementos da Unidade Especial de Polícia, como o Corpo de Intervenção e Cinotécnica, e pessoal policial que está atualmente nos serviços administrativos» («PSP reforça policiamento a partir de terça-feira no âmbito da operação “Festas Seguras”», TSF, 11.12.2017, 17h10).

      De patrulheiro, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só diz que é o «indivíduo que patrulha», o que me parece escasso. Outro termo ligado às forças de segurança é arvorado, que aquele dicionário define como o «soldado raso que exerce provisoriamente atribuições de cabo». Ora, na PSP, por exemplo, e talvez até noutras forças desta natureza, há arvorados. Ou seja, a definição tem de ser mais genérica e não pode estar no domínio MILITAR.

 

[Texto 8463]

Helder Guégués às 08:54 | comentar | ver comentários (1) | favorito
11
Dez 17

Léxico: «galgamento»

Se até temos o verbo

 

      Afinal, não houve alarmismo nenhum nos avisos sobre a tempestade Ana. Um dos dez conselhos da Autoridade Nacional de Protecção Civil à população era este: «Ter especial cuidado na circulação junto da orla costeira e zonas ribeirinhas mais vulneráveis a galgamentos costeiros, evitando-se circular e permanecer nesses locais.» Qualquer engenheiro civil já ouviu algum vez o termo galgamento. Há até estudos, como este aqui, da autoria de Sofia Ferreira de Brito, sobre o galgamento em estruturas marítimas. Logo, o vocábulo tem de ser dicionarizado. No estudo citado, define-se assim o termo: «O galgamento de estruturas marítimas é um fenómeno caracterizado pelo transporte de massa de água sobre o seu coroamento.»

 

[Texto 8462]

Helder Guégués às 14:45 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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10
Dez 17

Léxico: «quebra-gelo»

Ora, não me parece

 

      «Com tal abundância de hipóteses, porque não um quebra-gelo?» («Não é nenhum barco do amor mas quebra-gelo desde 1961», Marco C. Pereira, «B. I.»/Sol, 9.12.2017, p. 30).

      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, quebra-gelo é o «navio munido de um dispositivo para quebrar o gelo, facilitando a navegação nas regiões frias». Não sou engenheiro naval, mas não me parece que esteja correcta esta definição. A característica mais distintiva é a forma da proa, ao que creio. Aquele de que fala Marco C. Pereira e foi fotografado por Sara Wong parece-me igual a qualquer outro navio — mas o casco foi reforçado e foi carregado com 100 toneladas de água para conseguir levar a cabo o seu trabalho de quebrar o gelo do golfo da Bótnia.

 

[Texto 8461]

Helder Guégués às 16:27 | comentar | ver comentários (1) | favorito

Léxico: «suómi»

Faz-me espécie

 

      «Em termos cénicos, Kemi não corta a respiração a ninguém. Também não é uma cidade finlandesa qualquer. Fica no píncaro do Golfo de Bótnia, junto ao único lugar onde a Suécia e a nação suómi se encontram à beira-mar, umas meras centenas de quilómetros a sul do Círculo Polar Ártico» («Não é nenhum barco do amor mas quebra-gelo desde 1961», Marco C. Pereira, «B. I.»/Sol, 9.12.2017, p. 28).

      Isto de nomes de povos e línguas não estarem nos dicionários faz-me muita impressão. Ah, mas vejo que está — com a grafia suômi — no VOLP da Academia Brasileira de Letras. Querem ver que o Brasil tem mais relações com a Finlândia do que Portugal...

 

[Texto 8460]

Helder Guégués às 15:57 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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