18
Out 17

«Moção de censura/moção de confiança»

Não é isso

 

      Com a moção de censura na ordem do dia (boa altura para Assunção Cristas se pôr em bicos de pés), vamos ver o que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz. Moção de censura: «proposta pela qual um ou mais grupos parlamentares criticam a política do governo, procurando levar à sua demissão, caso a moção obtenha a maioria dos votos». Está ou mal redigido ou incompleto, como quiserem. Nos termos da Constituição (artigo 194.º), a Assembleia da República pode votar moções de censura apresentadas por iniciativa de um quarto dos deputados em efectividade de funções ou por iniciativa de qualquer grupo parlamentar. Agora é um quarto como, numa eventual revisão constitucional, pode ser outra percentagem. Sobre moção de confiança, regista: «proposta apresentada pelo governo ou por um grupo parlamentar com o objectivo de levar a assembleia a adoptar um voto de confiança em relação a uma medida ou a um programa político». O artigo 193.º (cuja epígrafe é, significativamente, «Solicitação de voto de confiança»), contudo, que prevê esta matéria, não nos diz que essa proposta pode ser apresentada por um grupo parlamentar ­— logo, é porque não pode, o que faz sentido. «O Governo pode solicitar à Assembleia da República a aprovação de um voto de confiança sobre uma declaração de política geral ou sobre qualquer assunto relevante de interesse nacional.»

 

[Texto 8235]

Helder Guégués às 17:16 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pedogenético»

Também não estão

 

      A minha filha está aqui a fazer os TPC, uma ficha sobre o solo, e há pelo menos uma palavra que não encontramos nos dicionários: pedogenético. E mesmo o substantivo, pedogénese, não está, nesta acepção, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Neste, está assim: «reprodução (partenogenética) de um animal no estado larvar». Ora, em relação ao solo, a pedogénese diz respeito à sua formação. Mais. Na definição de horizonte, lê-se naquele dicionário: «cada uma das camadas do solo, com espessura relativamente pequena, que se distinguem entre si pela cor, textura e composição química». Talvez essa «espessura relativamente pequena» seja correcta no respeitante aos horizontes O, A e até B, mas não a todos eles.

 

[Texto 8234]

Helder Guégués às 16:17 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «horrorismo»

Fingimos?

 

      «O suicídio-assassínio em massa é mais do que terrorismo: é horrorismo» (O Segundo Avião, Martin Amis. Tradução de Jorge Pereirinha Pires. Lisboa: Quetzal Editores, 2011, p. 76). Claro, sim, é tradução: «Suicide-mass murder is more than terrorism: it is horrorism.» Acontece que de vez em quando topo com a palavra. Que faço, que fazemos: fingimos que não existe? Ao que parece, foi a filósofa italiana Adriana Cavarero (n. 1947) quem inventou o termo para designar a violência contemporânea.

 

[Texto 8233]

Helder Guégués às 09:48 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Dicionários: faltas e anomalias

Teratologia dicionarística

 

      Estive a pesquisar nos dicionários aranha no sentido de pele do escroto. Nada. No Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora, encontrei, no verbete dartos (e porque não está este no Dicionário da Língua Portuguesa, pode saber-se?), esta coisa estranha: «Membrana do escroto, situada a seguir à pele, composta por fibras musculares lisas, fibras conjuntivas e fibras elásticas, que se prolonga para o abdómeneo, e períneo, onde se insere.» «Abdómeneo»? Não será antes «para o abdómen e o períneo»?

 

[Texto 8232]

Helder Guégués às 09:19 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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17
Out 17

As agruras de um lisboeta

Final feliz

 

      É impressionante! Pensei que, porque moro na capital, seria fácil encontrar quem fizesse drenagem linfática manual. Ilusões. De fora da corrida ficam, pois claro, cabeleireiras e esteticistas. Pelo menos aqui em Benfica, a cada esquina há é massagens tântricas e prostáticas. Procuro alívio para as dores, mas só me querem proporcionar orgasmos. A uma que anunciava massagens terapêuticas perguntei, por correio electrónico, se fazia drenagem linfática. «Nao fazo.» (Russa?) Muitas brasileiras prometem final feliz, mas, para mim — cada um acode ao que mais lhe dói, já escreveu Camões —, final feliz era que o edema pós-cirúrgico e as dores desaparecessem rapidamente e para sempre.

 

[Texto 8231]

Helder Guégués às 19:26 | comentar | favorito
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Léxico: «eparca/arcieparca/arquieparquia»

Logo três

 

      Sabiam que a arquieparquia metropolitana de Asmara é presidida pelo arcieparca etíope Menghesteab Tesfamariam, um missionário comboniano? Não precisam de gaguejar, já sei que não. E sabiam que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista eparca, arcieparca ou arquieparquia? (Ah, sim, e tem pontas soltas, o pior que pode acontecer.) Já sei a resposta. Pouco faltou para nos dicionários de língua portuguesa só acolherem palavras estrangeiras. Vamos ver se isto se endireita.

 

[Texto 8230]

Helder Guégués às 19:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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O particípio de «intervir»

Todas as opiniões

 

      «Os Estados têm intervido ao investir em infra-estruturas e em indústrias de base, etc.» Estamos sempre, todos nós, não é?, a corrigir este erro. Ora, há quem defenda (Helena Mateus Montenegro, por exemplo, nas Questões de Gramática do Português, pp. 25-26) que, para desambiguar e por ser mais eufónico nas formas compostas com o verbo «ter», o particípio passado de «intervir» é intervido. E não defende o mesmo Rodrigo de Sá Nogueira, na página 272 do seu Dicionário de Verbos Portugueses Conjugados?

 

[Texto 8229]

Helder Guégués às 11:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Out 17

Léxico: «acetre»

Mas quando faz falta...

 

      O grupo espanhol, de Olivença, Acetre acaba de publicar um novo trabalho, um duplo álbum, que, talvez não por acaso, abre com uma música bem portuguesa, de Idanha-a-Nova: Senhora do Almurtão. Pois bem, interessa-me mais o nome do grupo: Acetre. A palavra também é nossa (veio do árabe), mas os dicionaristas há muito a asparam dos dicionários. Acetre ou acéter designa o vaso ou recipiente com asa, geralmente metálico ou de marfim, destinado a tirar água dos poços; mas também pode designar uma pequena caldeira para transportar água benta, ou um púcaro para beber água ou um pequeno lavatório portátil.

 

[Texto 8228]

Helder Guégués às 19:59 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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15
Out 17

Léxico: «protomártir»

Brasiliae protomartyres

 

      «O Papa Francisco preside este domingo a uma cerimónia de canonizações na qual vai proclamar como santo o sacerdote português Ambrósio Francisco Ferro, morto no Brasil a 3 de Outubro de 1645 durante perseguições anticatólicas, por tropas holandesas. O santo faz parte do grupo dos chamados “protomártires do Brasil”, que foram mortos no actual território da Arquidiocese de Natal, então sob jurisdição portuguesa» («Papa canoniza padre português martirizado no Brasil», Rádio Renascença, 15.10.2017, 9h36).

      Já estive para o dizer noutras ocasiões: a definição de protomártir no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora precisa de um retoque, pois diz que é o «primeiro mártir (numa religião, seita ou movimento político)», o que não confere com o que conhecemos. Tem de se acrescentar que é o primeiro mártir cristão num determinado país.

 

[Texto 8227]

Helder Guégués às 15:48 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «fumadouro»

Só nos Países Baixos

 

      «O vice-presidente conta que é neto de uma “mulher de virtude”, na altura consideradas bruxas. “Lembro-me de ser pequeno e de a acompanhar para fazer fumadouros que se deixavam nas encruzilhadas de caminhos ou de ir a casas de pessoas para curar males”, recorda, afirmando que “eram estas mulheres que tinham um dom” responsáveis por substituir a medicina» («Bruxas e demónios: o azar em Montalegre enfrenta-se com festa», André Vieira, Público, 15.10.2017, p. 15).

     Onde é que podemos encontrar fumadouro? No Dicionário de Português-Neerlandês da Porto Editora. Pois é. Fumadouro, fumo, política de tolerância, The Hash Marihuana Hemp Museum... Pronto, tinha de estar naquele e só naquele dicionário.

 

[Texto 8226]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Carta mandadeira

D’este viver aqui

 

      «O executivo liderado por Sócrates “ao contrário do que era prática comum na elaboração das Cartas Mandadeiras que nomeavam os seus representantes às Assembleias Gerais da PT”, sustenta a acusação, “não fez constar qualquer instrução de voto” no documento em que nomeou Sérvulo Correia» («Instruções verbais do Governo Sócrates definiram voto na PT», Mariana Oliveira, Público, 15.10.2017, p. 12).

      A jornalista pensa que é o título de uma obra, como Cartas da Guerra — D’este Viver Aqui Neste Papel Descripto, de Lobo Antunes. Valha-me Deus. São cartas mandadeiras, isto é, cartas em que há uma procuração outorgada para efeitos de representação voluntária. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista mandadeiro, podia muito bem registar a locução carta mandadeira — sobretudo porque a Infopédia já a regista no Dicionário de Português-Francês (lettre missive). Pontas soltas.

 

[Texto 8225]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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