15
Nov 17

«Desencriptar/descriptar/decriptar»...

Então o que fazemos?

 

      «Numa reportagem feita pela Renascença há cinco anos, Alberto Luís contou como Agustina escrevia os seus romances à mão e ele decifrava a letra e escrevia à máquina.

      “Todos os romances dela eram escritos em três meses. Ela por ano só trabalhava três meses, mas trabalhava a sério, como um operário, todos os dias fazia uma página destas e eu passava à máquina. Decifrava, descriptava, às vezes ia perguntar-lhe o que era aquilo e ela só revia quando vinham as provas tipográficas, que eu lhe lia em voz alta e ela seguia pelo manuscrito”, disse Alberto Luís. “Era a única intervenção dela na correcção. Alterava, às vezes, uma frase, umas palavras. Toda a minha vida a decifrar, a descriptar, porque aquilo é muito difícil para quem não está habituado sobretudo em certas fases, porque ela tem fases de letra minúscula e outra de letra maior”, recordou o marido de Agustina Bessa-Luís» («Morreu Alberto Luis [sic], marido de Agustina Bessa-Luís», Rádio Renascença, 14.11.2017, 22h23).

      Acabei de ver a reportagem, não estivesse o jornalista — o que é raríssimo — enganado. Não está: Alberto Luís usa três vezes o verbo descriptar. Nunca eu o vi mais gordo, confesso. Já tenho lido, mas não me soa bem nem me parece português, decriptar, que o Aulete regista. Para dizer tudo: sempre empreguei apenas, nesta acepção, o verbo desencriptar, que alguns dicionários acolhem. Estranhamente (ainda nem me recompus da surpresa), o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista nenhum! Entretanto, procuramos e vemos que no Dicionário de Inglês-Português da Porto Editora está descriptar. Não pode ser. E atenção: o sentido não está relacionado somente com a informática.

 

[Texto 8341]

Helder Guégués às 11:53 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Léxico: «mar chão»

Para evitar isto e pior

 

      «– Está mar-chão. A Lua deitou-se na água. Nem se mexe! Está aqui está a dormir. Chiu...» (O Guarda da Praia, Maria Teresa Maia Gonzalez. Lisboa: Babel, 16.ª ed., 2013, p. 38).

      Uns momentos antes, o revisor adormeceu. É mar chão (flat sea, para a legião de anglófonos que nos segue), que não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8340]

Helder Guégués às 00:01 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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14
Nov 17

Léxico: «chapão»

Para variar

 

      «– Que grande chapão! – riu-se o meu instrutor. – Entraste mal. Agora tens de repetir» (O Guarda da Praia, Maria Teresa Maia Gonzalez. Lisboa: Babel, 16.ª ed., 2013, p. 33).

      Chapão (belly flop, para a legião de anglófonos que nos segue) não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista, isso sim, a locução de chapa, «em cheio, directamente», mas não é o mesmo. Mais uma abonação: «Ele levantou-se e correu um pouco com ela nos braços até se sentir cansado e voltar a cair de costas num chapão lindo de água a sorrir-se, — a água nesta parte era gasosa, parecia Pedras ou Castelo nas suas épocas de primitiva pureza» (Caranguejo, Rúben A. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 88). 

[Texto 8339]

Helder Guégués às 23:21 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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Léxico: «galo-da-índia»

E o galo?

 

      «Uma folha de caderno dobrada, sem envelope, um búzio, duas penas de galo-da-índia, uma lupa e uma perna de estrela-do-mar» (O Guarda da Praia, Maria Teresa Maia Gonzalez. Lisboa: Babel, 16.ª ed., 2013, p. 13).

      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, só galinha-da-índia. Discriminação de género. Galos revoltados queimam as esporas em frente ao n.º 365 da Rua da Restauração. Polícia de choque, chamada a intervir, assa-os com tasers. Ah, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda só regista laser e maser.

 

[Texto 8338]

Helder Guégués às 22:02 | comentar | favorito
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Léxico: «classismo»

Porque ele existe

 

     «António Araújo, jurista e historiador, acrescenta que “o classismo que levou a que todas aquelas pessoas morressem e fossem esquecidas perdura até aos nossos dias porque não houve destruição de centros de poder ou locais simbólicos. O simbolismo dali eram as barracas.”» («Cheias de 1967. A tragédia que Salazar quis esconder», Dina Soares e Joana Bourgard, Rádio Renascença, 14.11.2017).

    Excelente trabalho da Rádio Renascença sobre a maior catástrofe natural em Portugal desde o terramoto de 1755 — as cheias de 1967. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que não vemos classismo.

 

[Texto 8337] 

Helder Guégués às 11:45 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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13
Nov 17

Léxico: «tubarão-anequim/tubarão-sardo»

Ainda vamos a tempo

 

      «O tubarão-anequim (Isurus oxyrinchus), também conhecido por tubarão-sardo, poderá desaparecer do Atlântico, caso a pesca desta espécie não seja aí proibida já a partir de Janeiro de 2018, alerta uma equipa de investigadores portugueses, que recolheu e analisou os dados da última década de descargas de tubarões e raias em Portugal» («Cientistas portugueses defendem fim da pesca do tubarão-anequim», Raquel Dias da Silva, Público, 13.11.2017, p. 26).

      Tal como o camarão-japonês, desconhece as águas do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8336]

Helder Guégués às 21:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «camarão-japonês»

Agora já é nosso

 

      «O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) divulgou hoje que existe camarão japonês no estuário do Tejo. Numa nota hoje divulgada, o IPMA refere que desde 2000 que previa o estabelecimento do camarão japonês (Marsupenaeus (Penaeus) japonicus) no estuário do Tejo por ter sido objeto de cultivo experimental nessa área na década de 80 do século passado» («Há camarão japonês no Tejo», TSF, 13.11.2017, 14h40).

      Há camarão-japonês (Marsupenaeus (Penaeus) japonicus) no Tejo, mas ainda não chegou ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 8335]

Helder Guégués às 19:35 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «fogacho»

Fogachos e delíquios

 

      «O relatório do ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas] indica um total de 16.981 ocorrências (3.653 incêndios florestais e 13.328 fogachos), com 264.951 hectares de povoamentos e 177.467 hectares de mato ardidos. Até 31 de Outubro de 2017 há registo de 1.446 reacendimentos, menos 8% do que a média anual dos últimos 10 anos» («Mais de 442 mil hectares arderam no pior ano de sempre em Portugal», Rádio Renascença, 13.11.2017, 8h55).

      Eu até pensava que fogacho fosse uma palavra usada só na poesia, parece tão pouco científica, não é?

 

[Texto 8332]

Helder Guégués às 19:13 | comentar | favorito
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Léxico: «holandinha»

Têm de estar as duas

 

      Ontem vi o programa Os Cárceres do Império, da série «História a História África», de Fernando Rosas, na RTP2. A propósito da Colónia Penal do Tarrafal (1936-1954), mais tarde, em 1961, rebaptizada, cinicamente, Campo de Trabalho de Chão Bom, Fernando Rosas mostrou e falou da holandinha, o nome que os presos davam à cela disciplinar, sucessora da frigideira, um cubículo de betão armado, bem exposto ao sol, de 90x90x165 (segundo Victor Barros, in Campos de Concentração em Cabo Verde. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2009, p. 161). É caso para dizer que os presos saíram da frigideira para cair no lume. Ora, se frigideira está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, de holandinha esqueceram-se. Vamos lá contar tudo bem. Eu até nem sei se os dicionários gerais, como este, não deviam também registar o termo Flechas, a milícia africana privativa da polícia portuguesa de então. Já se sabe: não aparece, esquece.

 

[Texto 8331]

Helder Guégués às 19:08 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «hollywoodiano»

Ah, assim está bem

 

      «Dali a dez minutos estavam a relaxar junto à piscina azul, as palmeiras a oscilarem na brisa, a beberricar vinho e a tentar descobrir rostos de celebridades, hollywoodianos, como lhes chamavam em Saint-Tropez» (Férias em Saint-Tropez, Elizabeth Adler. Tradução de Inês Castro. Alfragide: Quinta Essência, 2013, p. 278). E também li, recentemente, algo sobre a «aristocracia hollywoodiana». Com certeza que não queres, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que use nestes casos o adjectivo, único que registas, hollywoodesco. Ah, assim está bem.

 

[Texto 8330]

Helder Guégués às 19:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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12
Nov 17

Léxico: «desmonta-pneus» e «descrava-corrente»

Pontas soltas no ciclismo

 

      Ontem ofereceram-me um estojo com uma ferramenta multifunções da Berg, um par de desmontas, um descrava-corrente Var, remendos e cola. Agradeci, pois claro, porque devemos sempre agradecer seja o que for que nos derem, mas, na verdade, costumo sair de casa apenas com... um cartão de débito. Isso mesmo, nem identificação, nem bomba, nem elos rápidos, nem abraçadeiras, nem barras energéticas, nem corta-vento, nem luvas de látex, nem água, nem... nada. Por vezes, levo o telemóvel. Mas, é claro, toda a diferença é que não sou um ciclista de estrada, e o máximo que ando numa volta é 20 quilómetros e, num dia, o dobro disto.

      Agora os dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem sequer regista desmonta (ou, mais raro, desmonta-pneus), nem tão-pouco descrava-corrente. E, no entanto, vamos encontrar desmonta-pneus nos dicionários bilingues: tyre lever no de Inglês-Português; Reifenheber no de Alemão-Português; bandenlichter no de Neerlandês-Português. Do descrava-corrente (rivet chain em inglês) nem rasto em toda a Infopédia. Isto não pode ser assim: se se usa um qualquer vocábulo português nos dicionários bilingues — ou, porque também é erro que já vimos, em definições do mesmo dicionário —, esse vocábulo tem de estar obrigatoriamente no Dicionário da Língua Portuguesa.

 

[Texto 8325]

Helder Guégués às 11:24 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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