11
Out 17

Pretos e negros

Ideias feitas

 

      E por falar dos pobres Bugis: na TSF, ouvi anteontem uma entrevista ao encenador Rogério Carvalho, que é negro — ou será preto? É o que vamos descobrir já de seguida. Para a peça que tem no Teatro São Luiz, escolheu treze actores, todos negros — ou serão pretos? «O Jean Genet utiliza a palavra nègre, que é mais pejorativa do que noir, mas em português é o contrário. Há conotações diferentes quando dizemos negros ou pretos. Manteve o título Os Negros», pergunta-lhe Ana Sousa Dias. «O tradutor manteve e nós também. Em Portugal, a palavra “negro” passa por não ser pejorativa, mas a palavra correcta ao referir-se a uma pessoa preta é mesmo “preto”. A palavra que identificamos como pura e que se relaciona com as pessoas nascidas em África que tenham a cor preta é a palavra “preto”. À medida que as pessoas foram adquirindo uma aproximação à cultura ocidental, entraram numa alienação porque perderam as raízes, as ligações aos movimentos culturais. Quando os europeus chegaram a África, os pretos eram os pretos, depois foram-se transformando em negros. Enquanto para os franceses nègre corresponde a uma alienação, a palavra noir não o é. Nègre é um aculturado, que tem uma relação mais próxima com a civilização ocidental, com a cultura ocidental, mesmo no que se refere ao teatro ocidental. Isso significa que houve uma passagem de noir a nègre no sentido da alienação, é um movimento alienatório, uma perda de identidade. Na própria peça, Genet faz essa transposição de um ritual em que se procura aproximar dessa identidade.» Quem é ignorante, é a pergunta que se impõe quando lemos, a propósito de preto, isto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «pejorativo designação preconceituosa, discriminatória ou ignorante de pessoa que tem a pele de cor escura, por elevada pigmentação». Por elevada pigmentação... Tem mais que ver com raça do que com cores: há pretos mais claros do que muitos brancos.

 

[Texto 8213]

Helder Guégués às 09:03 | comentar | favorito

Léxico: «Bugis»

Derrotados pelos dicionários

 

      «Indirectamente, o negócio continuou, via Macassar [Macáçar], nas Celebes do Sudeste, para onde se refugiaram muitas famílias católicas, portuguesas e malaias, depois da queda de Malaca. [...] Era uma pequena Malaca, com fortes laços macaenses, no país dos Bugis» (A Viagem de Comércio Macau-Manila, nos Séculos XVI a XIX, Benjamim Videira Pires. Lisboa: Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1994, p. 33).

      Tudo o que é histórico vai sendo varrido dos dicionários, como se fosse sucata ou um peso morto. Pobres Bugis, derrotados pelos dicionários.

 

[Texto 8212]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «bicurioso»

Safadice

 

      Ando a ver o termo aqui e ali, e os dicionários, nada: «­— Se alguém insistir numa definição – disse Simone –, diz que és bicuriosa. Isso cala toda a gente, vai por mim» (A Fortuna, Cynthia D’Aprix Sweeney. Tradução de Tânia Ganho. Alfragide: Teorema, 2016). E o que é bicurioso? É — oh abominação! — a pessoa, heterossexual, interessada em ter uma experiência sexual com alguém do mesmo sexo. A interlocutora de Simone ainda responde como muitos leitores o farão: «Isso nem parece uma palavra verdadeira.» Pois não parece, e isso justamente porque foi inventada. Mas vamos ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e encontramos, por exemplo, «fónix». Não, «dasse» não.

      «“If somebody insists on a definition,” Simone said, “tell them you’re bicurious. That will shut them up, trust me.”»

 

[Texto 8210]

Helder Guégués às 08:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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09
Out 17

Léxico: «politburo»

Há, mas ali ao lado

 

      «O líder norte-coreano Kim Jong-un promoveu a irmã Kim Yo-jung, que já a [sic] “número dois” do departamento de propaganda e agitação, ao organismo mais importante do país. Yo-jung substitui no politburo a tia do líder, Kim Kyong Hee, considerada uma figura-chave do regime quando o antigo líder Kim Jong-il ainda governava» («Irmã do líder promovida à cúpula do poder», Destak, 9.10.2017, p. 6).

      Na Infopédia, só o encontramos no Dicionário de Alemão-Português e no Dicionário de Neerlandês-Português. Politbüro, politbureau. Pontas soltas. (Mas não será, digo eu, Kim Kyong-hee?)

 

[Texto 8205]

Helder Guégués às 15:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pancá»

Às três pancadas

 

      Numa majestosa sala de tribunal, num porto do Oriente, o ar é agitado por grandes pancás, que se movem suavemente para cá e... Pára! Não está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora! Mas esperem: encontramo-lo no Dicionário de Inglês-Português da mesma editora. Pontas soltas. E como o traduzem? Assim: «pancá; ventarola grande usada entre os Índios». Tradução e explicação. O consulente é que se vê em pancas. Como o étimo é concani, está-se mesmo a ver que são índios da Índia... Isto de os dicionaristas se copiarem uns aos outros nem sempre traz bons resultados, não é?

 

[Texto 8204]

Helder Guégués às 09:37 | comentar | ver comentários (3) | favorito
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08
Out 17

Léxico: «cosmetologista»

Acautelem-se

 

    Apareceu-me agora aqui — não na vida real, na virtual — uma cosmetologista. O quê!? Estão aqui a dizer-me que até há mestrados em cosmética e dermofarmácia. Se estão organizadas num sindicato e descobrem que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista a palavra, vão à Rua da Restauração, 365, e escavacam tudo o que encontrarem.

 

[Texto 8201]

Helder Guégués às 09:08 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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Léxico: «proeiro»

Mais simples

 

      Vai aqui um rapazola como proeiro de um escaler que pertence a um navio-escola. Está, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas com alguma megalomania: «marinheiro que vigia a proa do navio». Navio... Mas se for um simples escaler? É o marinheiro que vai na proa, por vezes o encarregado ou chefe da tripulação.

 

[Texto 8199]

Helder Guégués às 09:04 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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07
Out 17

Léxico: «escravagista»

A terceira via

 

      «Padre António Vieira, um “escravagista selectivo”?» Carlos Maria Bobone, Observador, 6.10.2017).

    Como sabemos, é pior do que «escravista», mas melhor do que «esclavagista». Já não é mau. Esta terceira via não é a do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que, se não regista escravagista, o que o faz ombrear com o melhor dos dicionários prescritivos, não deixa de acolher esclavagista. Por isso, no sobe e desce, ⤥⤥⤥.

 

[Texto 8194]

Helder Guégués às 10:28 | comentar | favorito
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Léxico: «relé»

Estão a brincar

 

       Ontem estive a instalar um módulo Sonoff sem fios para ligar e desligar um candeeiro numa aplicação no telemóvel. Correu bem, e os módulos (também os há RF e GSM) são baratíssimos. É a minha entrada na domótica e na Internet das Coisas. Bem, estes módulos em alguns sítios são anunciados como relés, o que, tanto quanto sei, está correcto. Ora vejam — mas prometam-me que não se riem — a definição de relé no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «instrumento eléctrico que serve para mostrar como um fenómeno eléctrico pode controlar a interrupção ou o começo de outro fenómeno eléctrico independente».

 

[Texto 8193]

Helder Guégués às 06:00 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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06
Out 17

Acepção «ilha»

Tomem estas duas

 

      «O Ministério Público (MP) acusou 18 pessoas por tráfico de droga, em “ilhas” de Vila Nova de Gaia (bairros típicos do Porto), e posse ilegal de arma, anunciou a Procuradoria-Geral Distrital do Porto. Segundo a acusação, os factos terão ocorrido entre 2013 e março deste ano e estão relacionados com a aquisição e comercialização de droga, nomeadamente canábis, cocaína, heroína e anfetaminas, a partir de “ilhas” de Gaia» («Ministério Público acusa 18 pessoas de tráfico de droga em “ilhas” de Gaia», Destak, 6.10.2017, p. 4).

      Uma ilha é mesmo um bairro? Não o diria assim; não o diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; não o disse Leite de Vasconcelos, para quem eram «agrupamentos iguais, ou muito semelhantes, entre si, de moradias». Mas, reparo agora, aquele dicionário não acolhe acepções correntes de «ilha». Por exemplo, esta: «Peg e Harry estavam parados ao pé da ilha da cozinha, com sorrisos rasgados no rosto» (O Que Ela Deixou para Trás, Ellen Marie Wiseman. Tradução de Susana A. Lopes. S. Pedro do Estoril: Chá das Cinco, 2015). (No original, island counter.) E não só: não têm os supermercados e hipermercados ilhas, o nome dado aos frigoríficos horizontais com tampas deslizantes transparentes?

 

[Texto 8192]

Helder Guégués às 11:05 | comentar | ver comentários (5) | favorito
05
Out 17

Léxico: «criomicroscopia»

Não se atrasem, por favor

 

      «Jacques Dubochet, Joachim Frank e Richard Henderson ganharam ontem o Prémio Nobel da Química de 2017 pelo desenvolvimento desta técnica chamada criomicroscopia electrónica» («Nobel da Química para novo olhar das moléculas da vida», Andrea Cunha Freitas, Público, 5.10.2017, p. 26).

      Nestes casos, não temos como fugir: claro que é um neologismo que vem do inglês, mas é necessário e não podemos substituí-lo. Um bom serviço é o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora entesourá-lo. De qualquer maneira, já regista outros semelhantes, como biomicroscopia, que é a observação microscópica de tecidos vivos.

 

[Texto 8191]

Helder Guégués às 17:49 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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