17
Jul 17

Léxico: «crenco»

Esquecem meia bicicleta

 

      Ontem fui ao aniversário do Quico, na Margem Sul. Ah, vocês não conhecem... Mas quico: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ainda não registou um aportuguesamento como este que é usado há muito (falámos aqui dele). Devem preferir que se escreva e diga kick ou kick-starter. Outro aportuguesamento usado todos os dias e que aquele dicionário também não regista: crenco. Estão a ver do que se trata? É cada uma das peças que se vai encaixar no pedaleiro e a que se fixam os pedais, nas bicicletas. Adivinharam: vem do inglês crank. E, contudo, regista cranque, do mesmo étimo, «eixo mecânico em forma de cotovelo».

 

[Texto 8033]

Helder Guégués às 12:35 | comentar | ver comentários (5) | favorito
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E o sujeito é...?

Isto é pior

 

      «Com 17,8% do buzz [sic] social do ano, correspondente a 378 mil menções, o setor automóvel foi aquele que mais vezes foi referenciado ao longo de 2016. […] Para isso, a empresa baseou-se nas mais de 2 milhões de menções às marcas que compõem o seu painel fixo monitorizado (denominado Barómetro de Marcas)» («Automóveis dominam as redes sociais», Destak, 17.07.2017, p. 4).

    Eles sabem lá o que é ou qual é o sujeito! E isto propinado aos milhares, deve deixar alguma mossa nos já escassíssimos conhecimentos linguísticos da população.

 

[Texto 8032]

Helder Guégués às 12:03 | comentar | favorito
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Como se escreve nos jornais

Essa é boa

 

      «A produção de banana na Região Autónoma da Madeira deverá atingir este ano as 22 toneladas, sendo que 85% se destina à exportação para o mercado nacional» (Destak, 17.07.2017, p. 5).

      Exportação para o mercado nacional... Bem, parece que temos de alargar o sentido de «exportar», não? Isso, ou contratar um bom revisor.

 

[Texto 8031]

Helder Guégués às 09:28 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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16
Jul 17

Acepção: «dezena»

Pouco católico

 

      «Maria do Castelo explica que o projecto é de cariz comunitário, uma vez que as “irmãs ensinaram os Amigos do Mosteiro a fazer Dezenas e nós, agora, ensinamos as pessoas”. Essas Dezenas são, posteriormente, colocadas em pequenos sacos juntamente com uma pagela adequada a cada Mistério do Terço» («Monjas de Belém. A obra que cresce no silêncio da natureza», Rosário Silva, Rádio Renascença, 14.07.2017, 11h44).

      Dezena, pois, mas não perguntem o que é ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É claro que não se escreve com maiúscula inicial. Os jornalistas até são meninos para escreverem «deus» e «Dezena». Para não ir mais longe: no título do artigo está «natureza» com minúscula, quando é tradição e boa prática grafá-lo, nesta acepção, com maiúscula.

 

[Texto 8030]

Helder Guégués às 11:31 | comentar | ver comentários (1) | favorito
15
Jul 17

«Caçar/cassar»

Uma triste confusão

 

      «“Graças a Deus, as pessoas ainda não têm consciência que mudou para o melhor [sic] do infractor. Antes de 1 de Junho de 2016, se eu cometesse três contra-ordenações muito graves no mesmo dia, era condenada por elas, ficava imediatamente com a carta caçada e, durante dois anos, não podia tirar uma nova. Hoje em dia, cometo no mesmo dia cinco contra-ordenações graves e três muito graves e tenho seis pontos retirados da carta”, critica Maria Teresa Lume [advogada que acaba de publicar um livro sobre contra-ordenações ao Código da Estrada]» («Os portugueses estão a morrer mais na estrada. Porquê?», Rádio Renascença, 15.07.2017, 9h00).

      Como se fala habitualmente em caça à multa, o jornalista nem pensou uma vez; mas não: é carta cassada, isto é, anulada. É uma vergonha que um jornalista dê estes erros. E ninguém o corrige, ninguém vê.

 

[Texto 8029]

Helder Guégués às 11:13 | comentar | favorito
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Símbolo de quilotonelada

Analfabetismo funcional

 

      «Na nota do município, pode ainda ler-se que este investimento engloba a engenharia, projeto e construção de uma caldeira de biomassa de última geração, com 90 MW de potência de combustão, equivalente a 266kTon biomassa por ano, que utilizará como combustível biomassa florestal residual» («Central de biomassa em Mangualde vai custar 54 milhões de euros», TSF, 15.07.2017, 00h16).

      O símbolo da quilotonelada não é kt, afinal? O jornalista não deve saber que existem dicionários e prontuários. E para quê aquela amálgama amalucada, quando uma linha atrás escreveu «90 MW»?

 

[Texto 8028]

Helder Guégués às 09:34 | comentar | ver comentários (6) | favorito
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Acepção: «exoesqueleto»

Já foi

 

      «Os dois primeiros exoesqueletos produzidos em Portugal foram apresentados no Centro de Reabilitação do Norte, em Valadares, Vila Nova de Gaia, para recolher contributos dos profissionais daquela área» («Primeiros exoesqueletos portugueses apresentados no Centro de Reabilitação do Norte», Rádio Renascença, 14.07.2017, 18h25).

      Exoesqueleto (ou exosqueleto) há muito que já não é somente aquilo que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e outros dicionários dizem.

 

[Texto 8027]

Helder Guégués às 09:32 | comentar | ver comentários (1) | favorito
14
Jul 17

«Baseball/beisebol/basebol»!?

Chegam duas, ou até uma

 

      Sim, concordo: faz muita impressão escrever-se icebergue, um semiaportuguesamento, e ler-se /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. Para isso, contudo, há remédio: escrever aicebergue, que se lê da mesma maneira, /ajsəˈbɛrɡ(ə)/. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, iceberg, o termo inglês. Semelhantemente, também faz impressão escrever-se basebol e ler-se /bɐjzəˈbɔɫ/; mais uma vez, para isso há remédio: escrever beisebol. E novamente o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista ainda uma terceira (!) forma, baseball, o termo inglês. Salvo melhor opinião, as formas em inglês não fazem sentido nenhum neste dicionário. Alguém procura nele, por exemplo, «football»? Mas há aqui diferenças: em «beisebol» remete para «basebol», mas em «aicebergue» não remete para «icebergue». A meu ver, uma vez que já não são o que eram, as remissões têm de ser sempre mútuas; um dicionário bom também diria sempre qual a forma preferencial. Esse seria um dicionário para os nossos dias.

 

[Texto 8026]

Helder Guégués às 18:38 | comentar | favorito

Léxico: «progesterónico»

Dizer tudo

 

      «Os hospitais portugueses autorizados para a realização de abortos adquiriram nos últimos dez anos 134.564 comprimidos de mifepristona, conhecida como “pílula abortiva”, desde que a interrupção da gravidez até às dez semanas foi despenalizada» («Dez anos de despenalização do aborto. Hospitais compraram 130 mil pílulas abortivas», Rádio Renascença, 14.07.2017, 10h15).

     Só vamos encontrar mifepristona no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora («Fármaco antigestacional, administrado por via oral, exclusivamente em meio hospitalar, que tem uma ação antiprogesterónica»), o que pode não ser o mais acertado, pois o leitor comum vai procurá-lo apenas no Dicionário da Língua Portuguesa. Seja como for, as dificuldades não acabam aí: neste dicionário não encontrará progesterónico nem, embora menos útil, antiprogesterónico. E mais: eu acrescentaria, porque o dicionário não é para farmacêuticos, que o fármaco é vulgarmente conhecido como pílula abortiva.

 

[Texto 8025]

Helder Guégués às 18:06 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Um político (demasiado) próximo

Não só afecto, igualdade

 

      Agora sim, chegou a igualdade: um político que insiste que o tratemos por tu. A juntar às vinte novas estações do Metropolitano que promete, é capaz de dar muitos votos, não? Infelizmente, como não gosto de tutear estranhos nem ser tuteado por estranhos e além disso Teresa Leal Coelho afirmou que «quando tomar posse como presidente da Câmara Municipal de Lisboa» (ou seja, é como se já estivesse eleita) vai fazer não sei o quê, lamento, Assunção, mas daqui não leva(s) nada. E vejo, com desgosto, que te esqueceste, perdão, se esqueceu da vírgula antes do vocativo. Assim não, Assunção.

 

[Texto 8024]

 

Cristas.jpg

Foto: Mário Cruz/Lusa

Helder Guégués às 16:42 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «gramata-branca»

Apresento-te a gramata-branca

 

      «Uma nova espécie de bactéria descoberta por três biólogos da Universidade de Aveiro (UA) recebeu o nome ‘Saccharospirillum correiae’, em homenagem ao microbiólogo António Correia, falecido em 2016. Esta nova bactéria, que foi descrita recentemente na revista científica International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology, é uma, entre muitas outras novas espécies, que vive no interior de uma planta comum na ria de Aveiro, mais conhecida por gramata-branca» («Microbiólogo português dá nome a nova espécie de bactéria», Rádio Renascença, 14.07.2017, 13h07).

      Está muito bem, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não sabe o que é a gramata-branca (Halimione portulacoides).

 

[Texto 8023]

Helder Guégués às 15:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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