17
Set 17

«Naturais», de novo

Mas sabia

 

      Aqui da gaveta dos retroses tirei esta frase de Alçada Baptista: «Cada cidade tinha um bocadinho reservado para os exilados doutras cidades que, com alguns naturais, bebiam amarguras e absintos, em boémias que acabavam em livros e em conspirações» (A Cor dos Dias ­— Memórias e Peregrinações, António Alçada Baptista. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2003, p. 103). Lá está — naturais, não, como agora se lê em traduções e na imprensa, «locais». Alçada Baptista não era um escritor dado a apuros formais, muito longe disso, mas gosto de ler algumas das suas obras. No fundo, era apenas um excelente contador de histórias — e estas até num vídeo se podem contar.

 

[Texto 8156]

Helder Guégués às 12:52 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
16
Set 17

Léxico: «stemfie»

Pode ser útil

 

      «O voto é feito com um lápis vermelho e cada eleitor — residente no país com mais de 18 anos — tem direito a fazer uma única cruz. Se quiser, pode tirar uma selfie (ou stemfie) na cabine de voto e mostrar nas redes sociais o boletim preenchido, desde que não viole o segredo de voto de terceiros. Porém, não pode eleger o presidente do município onde vive. Como? Já lá vamos» («Maastricht. Onde a vida corre devagar sobre duas rodas», Público, 16.09.2017, p. 13).

      Se forem para os Países Baixos, é útil saberem que ao auto-retrato com o boletim de voto na cabina de voto se dá o nome de stemfie.

 

[Texto 8155]

Helder Guégués às 19:25 | comentar | favorito
Etiquetas:

Léxico: «prevalente»

Antes dois

 

      «José Carreira [presidente da Alzheimer Portugal] diz que os dados sobre a doença em Portugal são oscilantes e apenas estimativas, mas apontam para mais de 180 mil pessoas com demências, 150 mil delas com Alzheimer, a forma de demência mais prevalente» («A cada três segundos, uma pessoa no mundo recebe diagnóstico de demência», TSF, 16.09.2017, 10h57).

      É exactamente o mesmo que prevalecente, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não o regista. Quem sabe se ontem não estava lá. Afinal, há quatro dias, a propósito de retinógrafo, de que falei aqui, vi que o Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora acolhia retinografia. Dois dias depois, este verbete desapareceu.

 

[Texto 8154]

Helder Guégués às 11:32 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Tradução: «procureur»

É melhor à letra

 

      «Patrick Henry está há quase 40 anos na cadeia. Há quatro meses foi-lhe diagnosticado cancro, pelo que invocou o estado de saúde para poder sair da prisão. O promotor público aceitou» («Diagnosticado com cancro, o preso mais antigo de França vai para casa», António Pinto Rodrigues, TSF, 15.09.2017, 23h43).

      O promotor público... Mas isso não é assim nem em França nem em Portugal, já pensou nisso, António Pinto Rodrigues? Pois, não. Leia a imprensa francesa: é a «procureure de Melun (Seine-et-Marne)», Béatrice Angelelli. Faz-lhe lembrar alguma palavra portuguesa relacionada?

 

[Texto 8153]

Helder Guégués às 11:03 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
15
Set 17

Até na França

Unidade à força

 

      Um tribunal de Quimper, na Bretanha, recusou que a um bebé de Finisterra fosse dado o apelido Fañch, em tudo conforme com a ortografia tradicional bretã. Motivo? O til, pois claro: vai contra a unidade nacional francesa. Que juízes de vistas largas...

 

[Texto 8152]

Helder Guégués às 21:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas:
14
Set 17

«Cônjuge», agora estropiada na escrita

Era previsível

 

     «Viajar com companheiro ou conjugue (31%), viajar com toda a família (30%) e tirar um curso/aprender uma nova competência (26%) são outras motivações que convencem os portugueses» («Licença sabática fora do alcance», João Moniz, Destak, 14.09.2017, p. 4).

     Era previsível: de tanto a pronunciarem mal, tinham de começar a escrevê-la mal. E que tal um ano sabático para aprender o bê-á-bá da língua?

 

[Texto 8151]

Helder Guégués às 19:47 | comentar | favorito
Etiquetas: ,
13
Set 17

«Tratar-se de», novamente

Lamentável

 

      O Ministério Público acusou o cantor Tony Carreira de plagiar onze músicas de autores estrangeiros, com a colaboração do compositor Ricardo Landum. Querida mãezinha! Mas vejamos como se escreve no Ministério Público, porque isso interessa-nos mais: «“Os arguidos publicaram e divulgaram trabalhos mesmo sabendo que se tratavam de meras reproduções, ainda que parciais, de obras alheias, sem individualidade própria, tendo representado a possibilidade de estarem a plagiar obras de outros artistas, e ainda assim conformaram-se com tal resultado”, sublinha o MP» («Ministério Público acusa Tony Carreira de plagiar 11 músicas», Rádio Renascença, 12.09.2017, 14h12).

      Pois, não melhoraram nadinha. No Limoeiro não lhes ensinam isto. Senhor magistrado autor do texto, está errado: tratar-se é um verbo defectivo e impessoal, pelo que se usa sempre na 3.ª pessoa do singular. Do Ministério Público, já aqui tivemos uma amostra do mesmo jaez.

 

[Texto 8150]

Helder Guégués às 15:09 | comentar | ver comentários (3) | favorito
Etiquetas: ,

Ainda o latim

Do lado contrário

 

      «Como se sabe, há pessoas que nascem como [sic] os órgãos todos do lado contrário (situs inversus) e outras ainda com tudo desarrumado, como, por exemplo, o coração do lado certo, mas o fígado do lado errado (heterotaxia)» («Como é que o coração vai parar ao lado esquerdo?», Público, 13.09.2017, p. 28).

      Afinal, o latinzinho ainda faz falta. Situs incertus, situs inversus, situs perversus... É a forma reduzida da expressão situs inversus viscerum.

 

[Texto 8149]

Helder Guégués às 15:02 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Topónimos

É escolher

 

      «Emmanuel Macron andou pelas ruas de St. Martin e garantiu que a ilha “vai renascer”» («Furacão “​Irma”. Presidente francês foi ver o que resta de St. Martin», Rádio Renascença, 13.09.2017, 1h16). «O Presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu reconstruir rapidamente as ilhas de São Martinho e São Bartolomeu, nas Caraíbas, destruídas pelo furacão Irma» («Macron promete reconstruir ilha de São Martinho», Público, 13.09.2017, p. 25).

 

[Texto 8148]

Helder Guégués às 11:39 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,

Como se escreve e pensa por aí

Equívocos e parvoíces

 

      «Na apresentação do iPhone 8, também com câmara melhorada, ficámos a saber que um protótipo andou por terras lusas. Uma das fotos exibidas tinha uma modelo de costas com vestido laranja, virada para a ponte 25 de abril (em grande plano) com o Cristo Rei ao fundo» («O novo iPhone é a cara do dono», António Pinto Rodrigues, TSF, 12.09.2017, 21h34). «A Apple aperfeiçoou as suas câmaras para tirar melhores fotos e usou Lisboa para o mostrar. A tecnológica de Cupertino veio a Lisboa tirar fotos à Ponte 25 de Abril e ainda teve tempo para uma brincadeira: “This is not San Francisco” (isto não é São Francisco, em português), disse-se em palco, enquanto se mostrava uma foto de Lisboa» («Há novos iPhones. Dois oitos e um X marcam a novidade (e Lisboa serve para mostrar a câmara)», Rádio Renascença, 12.09.2017, 17h52).

 

[Texto 8147]

Helder Guégués às 11:22 | comentar | favorito
Etiquetas: ,