22
Fev 18

Léxico: «principense»

Nem de tal se lembram

 

  Agora os senhores doutores médicos vão ficar zangados, insatisfeiticíssimos mesmo, com o Presidente da República, que, numa visita ao Parque da Biodiversidade, na ilha do Príncipe, onde se encontrou com curandeiros principenses, aceitou umas mezinhas preparadas com plantas, uma para a hérnia e outra «para aquecer o material». O nosso problema é outro: então os pobres habitantes e os naturais da ilha do Príncipe não têm direito a gentílico? E o crioulo de base portuguesa não se chama principense? Então, senhores lexicógrafos?

 

[Texto 8788]

 

P. S.: Gostaram do «insatisfeiticíssimos»? Influência de ter lido ao longo do dia vários textos de homenagem ao humorista gráfico espanhol Forges, um genial criador de palavras, algumas das quais (!) já poisaram no Dicionário da Real Academia Espanhola.

Helder Guégués às 17:02 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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21
Fev 18

Onde pára o «chatbot»

Inteligência humana

 

      «Por fim, um quarto projecto — a cargo do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra — quer criar um chatbot para interagir com empreendedores que recorram a serviços públicos (como o Balcão Empreendedor) destinados a criar empresas, registar marcas e tratar de outras burocracias» («Dez milhões para incentivar inteligência artificial no Estado», João Pedro Pereira, Público, 21.02.2018, p. 26).

      Em que dicionário da Infopédia acham que vamos encontrar o termo chatbot? Não sejam burros! Oh, perdão. Não, não: está apenas no Dicionário de Alemão-Português. «INFORMÁTICA [programa que simula artificialmente uma conversa num chat]». Porquê no de alemão? Não sei.

 

[Texto 8787]

Helder Guégués às 22:54 | comentar | favorito
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Agora vamos ter o Polocausto

Será o fim da macacada

 

      «Polónia quer museu para documentar o “Polocausto”» (Público, 21.02.2018, p. 25). Compreende-se, querem contrariar a ideia dos Israelitas (não, leitores brasileiros, não distinguimos entre «israelita» e «israelense», e, logo, nunca confundimos) de que só houve vítimas entre os judeus. Bem, mas isto pode vir a confundir ainda mais os miolos de alguns portugueses, e concretamente de alguns professores universitários, que já não distinguem entre holocausto e Holocausto. Agora, com um Polocausto, imagine-se. Nie mówię po polsku, mas sei que em polaco é «Muzeum Polokaustu».

[Texto 8786]

Helder Guégués às 22:34 | comentar | favorito

Tradução: «shop primer»

Duas questões

 

    «A certificação aconteceu em Junho passado. A partir de uma amostra, a Lloyd’s Register concluiu que as chapas apresentavam “apenas corrosão superficial devido ao desgaste do shop primer [a protecção da superfície do aço]”» («Aço dos navios encomendados pela Venezuela vai a leilão», Pedro Crisóstomo, Público, 21.02.2018, p. 20).

    E não se podia escrever, em vez de shop primer, pese embora a explicação, «protecção anticorrosiva»? E a propósito, leio aqui e ali referências a «aço jateado», mas sem encontrar nenhuma definição. Não será «jactear», porque, ao que me parece, se trata de um tratamento com areia, logo, lançada por jacto? Há por aí algum entendido nestas matérias? Seja como for, falta este verbo nos dicionários.

 

[Texto 8785]

Helder Guégués às 22:11 | comentar | ver comentários (4) | favorito
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Outro «parquear»

Mais alienígena, portanto

 

      «À venda no leilão vão estar 4400 toneladas de chapas e perfis parqueados em Viana, junto aos armazéns dos estaleiros, cujos terrenos e infra-estruturas foram subconcessionados à West Sea, do grupo Martifer, em 2013 (a operação da empresa em Viana começaria em Maio de 2014)» («Aço dos navios encomendados pela Venezuela vai a leilão», Pedro Crisóstomo, Público, 21.02.2018, p. 20).

      Parquear vem do inglês, e, assim, também esta acepção («Leave (something) in a convenient place until required», in Oxford Living Dictionaries), que não está em nenhum dos dicionários que consultei e jamais tinha antes encontrado.

 

[Texto 8784] 

Helder Guégués às 22:08 | comentar | favorito
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Léxico: «encaixe financeiro»

Antes estar

 

     «É um último esforço lançado na recta final do processo de liquidação da empresa para garantir algum encaixe financeiro que permita aos ENVC amortizar empréstimos e reduzir dívida à Empordef, a holding do sector empresarial da Defesa, também ela em processo de extinção» («Aço dos navios encomendados pela Venezuela vai a leilão», Pedro Crisóstomo, Público, 21.02.2018, p. 20).

      Gostava de ver a expressão encaixe financeiro nos dicionários. Nunca se deve pecar por defeito, no que respeita a dicionarizar termos e expressões.

 

[Texto 8783]

Helder Guégués às 22:06 | comentar | favorito
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A magna questão da Saúde

Senhor Dr. médico

 

      «O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, defende que a palavra “médico” deve fazer parte da identificação dos profissionais do setor. “Independentemente de usarem o título académico, que é o ‘doutor’, têm que usar o seu título profissional. É uma matéria que eu vou discutir internamente”, anunciou Miguel Guimarães, na Renascença. [...] Apesar de também ter uma carga de ironia, como reconhece, exigência prende-se com a criação de uma licenciatura para a chamada medicina tradicional chinesa, que já mereceu a oposição da Ordem. “É um bocado de ironia e um bocado de proposta. Nos EUA, os médicos são tratados por MD: ‘medical doctor’. Esta expressão aqui não se poderia adotar, mas a verdade é que hoje os licenciados são muitos, são cada vez mais – como se vê, criam-se licenciaturas de uma forma absolutamente espantosa – de maneira que os médicos, para serem devidamente identificados no seu local de trabalho, nomeadamente devem ser tratados por médicos também”, sustenta» («“Senhor Dr. médico”. Bastonário não quer confusões com outras formações académicas», Rádio Renascença, 21.02.2018, 11h45).

       Salta à vista que é a medida mais importante no domínio da Saúde, porventura até a única via para salvar o SNS. «Senhor Dr. médico» não vai pegar; tentem medical doctor.

 

[Texto 8782] 

Helder Guégués às 20:15 | comentar | ver comentários (3) | favorito

«Onde» e «aonde», a confusão

Persiste

 

      «“Não é nenhuma beatinha nem nenhuma santinha”, exclama-me a abadessa do convento aonde reside, no alto de Coimbra» (Nascido no Estado Novo, Fernando Dacosta. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, pp. 191-92).

      Não, não. Temos onde, aonde e donde, três advérbios. Estes últimos dois implicam movimento, para onde e de onde, respectivamente. Ora, «residir» indica permanência, quietação, não movimento. Difícil?

 

[Texto 8781]

Helder Guégués às 20:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Cascais (ainda) é vila

Por enquanto

 

      Nada pior do que um jornalista desinformado: «A própria vila de Cascais, hoje cidade, viu serem-lhe colados rótulos estigmatizadores» (Nascido no Estado Novo, Fernando Dacosta. Lisboa: Círculo de Leitores, 2002, pp. 183-84). No dia 7 de Junho, cumprir-se-ão 654 anos desde que Cascais é vila. Vila, Fernando Dacosta. Mesmo hoje, dezasseis anos depois da edição do seu livro, é assim. Não é a primeira vez, eu bem sei, que lembro aqui isto, mas tem de ser, enquanto errarem, tenho de corrigir.

 

[Texto 8780]

Helder Guégués às 17:55 | comentar | favorito
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Léxico: «recesso»

É a palavra do dia

 

      «Ao PÚBLICO a comunista Ana Mesquita diz que o PCP recomenda o recesso, porque, depois de terminado o prazo de transição, o acordo não foi comummente aceite e aplicado por todos os países — o que era uma das exigências centrais de 1990» («PCP pede recesso do acordo ortográfico e estudo para novo», Maria Lopes, Público, 21.02.2018, p. 31).

      De recesso, nesta acepção jurídica, diz-nos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora que é a «situação em que uma das partes se retira de um contrato, convenção, tratado, etc.». Não sei porque se diz que é a «situação», quando é o direito, o direito de saída voluntária. Estará previsto no Acordo Ortográfico de 1990? Alguém que veja, por favor. Se não estiver, poderá ainda, e no limite, como ensina Jorge Miranda (Curso de Direito Internacional Público. Parede: Princípia Editora, 3.ª ed., 2006, p. 239), usar-se a cláusula rebus sic stantibus. Mas deixemos isso para os juristas.

 

[Texto 8779]

Helder Guégués às 14:26 | comentar | ver comentários (1) | favorito