19
Jun 17

Léxico: «chinchada»

Como é possível?

 

      «Havia um grito de guerra que ecoava na rua vindo do peito da garotada. — Eh! malta, hoje vamos à chinchada? Ninguém se escusava, a não ser que a gripe tolhesse no leito ou outra maleita se intrometesse entre nós e essa aventura de aguar a boca» (A Malta da Rua dos Plátanos, Garcia Barreto. Lisboa: Editorial Caminho, 1981, p. 50).

      E os dicionários — nada. Ainda hoje de manhã, depois de anos sem a ouvir, a usaram na Antena 1. Até os estrangeiros a conhecem: «Pelo caminho, paragem para a “chinchada” numa ameixoeira à beira da estrada. Como explicar a um jugoslavo o conceito de “chinchada”? Deixando-o “chinchar”. E foi o que ele fez em quase todos os capítulos desta obra: “chinchou”» (Papa Quilómetros – Uma Caminhada pela Gastronomia Portuguesa, Ljubomir Stanisic. Alfragide: Casa das letras, 2011).

 

[Texto 7930]

Helder Guégués às 11:48 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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17
Jun 17

Léxico: «bioindústria»

Pontas soltas

 

      «A bioindústria portuguesa andou em contraciclo na última década. Quando tudo estava em crise, o sector das pequenas empresas que transformam o conhecimento num negócio exibia uma saúde invejável» («Startups dedicadas às ciências da vida duplicaram em cinco anos», Andrea Cunha Freitas, Público, 17.06.2017, p. 33).

    Já não é o futuro, mas o presente, e por isso tem de estar nos dicionários. Na Infopédia, só a encontramos no Dicionário de Português-Neerlandês. Pontas soltas.

 

[Texto 7926]

Helder Guégués às 20:53 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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16
Jun 17

Léxico: «rega à manta»

Quase todos os dias

 

      Quase não há dia em que não leia ou não me lembre de uma palavra ou expressão que não estão dicionarizadas. A última foi ontem: rega à manta. É o nome dado à rega por alagamento, usada em várias culturas. A rega do lúpulo, por exemplo, é à manta. Isto sim, é engenho no uso da língua. Em relação a esta cultura, também se usa, e há muitas décadas, o termo vernalização, isto é, o frio de que precisa para vingar, mas não sei se não é simples cópia do inglês vernalization. Pode não ser, como sabemos, pois há muitos e muitos termos comuns a várias línguas. Também em castelhano, muito a propósito se diga, se usa a expressão «rega à manta».

 

[Texto 7925]

Helder Guégués às 08:51 | comentar | ver comentários (2) | favorito
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15
Jun 17

Léxico: «mestre-escama»

Há, mas em italiano

 

      «Além de simples mestre-escama, era considerado, em mais alta escala, o barbeiro-sangrador e o barbeiro-dentista» (O Chiado Pitoresco e Elegante, Mário Costa. Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa, 2.ª ed., 1987, p. 122).

     Conservar-se em todos os dicionários seria demasiado bom. Na Infopédia, vamos encontrá-lo somente no Dicionário de Português-Italianobarbiere! José Leite Vasconcelos, no estudo que fez sobre a barba em Portugal, escreve que «ao barbeiro chama-se realmente em Lisboa mestre-escama, por graça, isto é, “mestre da escama” (cfr. mestre-escola), tendo-se assimilado a escamas de peixe ou de réptil os pêlos ensaboados que a navalha arranca».

 

[Texto 7922]

Helder Guégués às 11:36 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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12
Jun 17

Léxico: «cíngulo»

Não prometam nem jurem

 

      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora afiança mesmo que cíngulo é apenas o «cordão com que o sacerdote aperta a alva em volta da cintura, símbolo de continência e pureza»? Nada de garantias ou promessas imprudentes, vejam o que aconteceu a Matthew Goodwin, que teve de comer na Sky News um livro sobre o Brexit de que é autor depois de ter prometido que o faria se errasse na previsão de que o Partido Trabalhista não iria obter mais de 38 % dos votos. Pois é. Não, cíngulo também é, por exemplo (e não fica por aqui), o cinto metálico ou revestido de placas de metal que usaram os soldados romanos para defenderem o ventre ou segurar a couraça. Sim, também era o nome que em Roma se dava a uma faixa que as mulheres usavam para cingir o vestido e altear os seios. Há mais, mas fico nos seios das mulheres.

 

[Texto 7916]

Helder Guégués às 22:41 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «riscadinho»

E o tecido?

 

      A cozinheira do conselheiro, para não sujar o sobrescrito, envolveu os dedos gordurosos no avental de riscadinho azul. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, riscadinho é apenas uma variedade de pêro. Oh!

 

[Texto 7915]

Helder Guégués às 22:07 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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Léxico: «pescada-do-alto», «cienídeo»

Não a comem

 

      Sabiam que a pescada-do-alto (Macrodon ancylodon) é um cienídeo demersal? Ora, se pescada-do-alto, e assim mesmo, com hífenes, já estava na velhinha Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, no novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não a encontram, como também não encontram o vocábulo cienídeo.

 

[Texto 7914]

Helder Guégués às 13:18 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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10
Jun 17

Léxico: «trempe»

Não encontram

 

      Ora aqui temos uma família, no final do século XIX, numa festa de baptizado. Antes da ceia, começam a entreter-se com vários jogos. Um deles é a trempe. Agora vejam se o encontram no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.

 

[Texto 7912]

Helder Guégués às 23:09 | comentar | ver comentários (1) | favorito
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09
Jun 17

Lambuzar, labuzar, enlabuzar, enlambuzar

E as outras?

 

      O poeta Manuel Alegre lá ganhou o Prémio Camões. O que é que se diz? Ah, podia ter sido há mais tempo. Mas não é por tão pouco que aqui venho, interrompendo tarefas mais importantes. Porque será que os lexicógrafos nos subtraem tantas palavras? Estou aqui a ler num texto a palavra enlabuzar, mas, qual quê!, os dicionários que temos hoje em dia não a registam. Querem que todos digam «enlambuzar». Não, não aceitemos: é lambuzar, labuzar, enlabuzar, enlambuzar. Fui.

 

[Texto 7911]

Helder Guégués às 10:30 | comentar | ver comentários (4) | favorito
08
Jun 17

Léxico: «termoluminescência»

As intermitências do entusiasmo

 

     «Os investigadores dataram os fósseis [de Jebel Irhoud] com o método da termoluminescência (que detecta a “assinatura” temporal do aquecimento pelo fogo) em artefactos de silex encontrados no mesmo local dos “homo sapiens” [sic]» («Homem actual é 100 mil anos mais antigo do que se pensava», Rádio Renascença, 7.06.2017, 22h56).

     Se a encontramos no Dicionário Aulete, nos dicionários deste lado do Atlântico nem rasto. Faltam milhares de palavras nos nossos dicionários, como se pode ver a cada dia que passa. Esperemos que os lexicógrafos recuperem o entusiasmo que, com muitas intermitências, por vezes mostram.

 

[Texto 7907]

Helder Guégués às 09:23 | comentar | favorito
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