15
Out 17

Léxico: «fumadouro»

Só nos Países Baixos

 

      «O vice-presidente conta que é neto de uma “mulher de virtude”, na altura consideradas bruxas. “Lembro-me de ser pequeno e de a acompanhar para fazer fumadouros que se deixavam nas encruzilhadas de caminhos ou de ir a casas de pessoas para curar males”, recorda, afirmando que “eram estas mulheres que tinham um dom” responsáveis por substituir a medicina» («Bruxas e demónios: o azar em Montalegre enfrenta-se com festa», André Vieira, Público, 15.10.2017, p. 15).

     Onde é que podemos encontrar fumadouro? No Dicionário de Português-Neerlandês da Porto Editora. Pois é. Fumadouro, fumo, política de tolerância, The Hash Marihuana Hemp Museum... Pronto, tinha de estar naquele e só naquele dicionário.

 

[Texto 8226]

Helder Guégués às 10:15 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Carta mandadeira

D’este viver aqui

 

      «O executivo liderado por Sócrates “ao contrário do que era prática comum na elaboração das Cartas Mandadeiras que nomeavam os seus representantes às Assembleias Gerais da PT”, sustenta a acusação, “não fez constar qualquer instrução de voto” no documento em que nomeou Sérvulo Correia» («Instruções verbais do Governo Sócrates definiram voto na PT», Mariana Oliveira, Público, 15.10.2017, p. 12).

      A jornalista pensa que é o título de uma obra, como Cartas da Guerra — D’este Viver Aqui Neste Papel Descripto, de Lobo Antunes. Valha-me Deus. São cartas mandadeiras, isto é, cartas em que há uma procuração outorgada para efeitos de representação voluntária. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que regista mandadeiro, podia muito bem registar a locução carta mandadeira — sobretudo porque a Infopédia já a regista no Dicionário de Português-Francês (lettre missive). Pontas soltas.

 

[Texto 8225]

Helder Guégués às 10:00 | comentar | ver comentários (8) | favorito
Etiquetas: ,
12
Out 17

Léxico: «bem-pensante»

Isso é o que vamos ver

 

      Algumas almas bem-pensantes ficaram muito impressionadas com o número de páginas do despacho final do processo da Operação Marquês. Como tem mais de 4000 páginas, inferem — nem precisaram de ler sequer uma página — que é uma coisa articuladíssima, fundamentadíssima, infalível, devastadora. Isso é mau, e também não é bom que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não registe o vocábulo bem-pensante.

 

[Texto 8219]

Helder Guégués às 08:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,
11
Out 17

Léxico: «pescada-do-cabo»

Êxitos

 

      Ontem comi — previra, erradamente, que não seria grande coisa — lombos de pescada-do-cabo (Merluccius capensis/Merluccius paradoxus) em papelotes. Já ofereci (só os invejosos é que se lembram, aposto) uma pescada-do-alto ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora; agora, generoso, ofereço-lhe uma pescada-do-cabo. Não quero que lhe (e vos) falte nada.

 

[Texto 8217]

Helder Guégués às 17:38 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

E o politburo?

Fracassos

 

       Fracasso atrás de fracasso: a grande derrota do PCP nas autárquicas (e quando é que o tovarich Jerónimo vai para Pirescoxe tratar das galinhas?), o politburo que não chega ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a previsão de abrandamento da economia em 2018... Olhem, escrevam Politbüro ou politbureau.

 

[Texto 8216]

Helder Guégués às 17:18 | comentar | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «Salomonenses/salomonense»

E estes?

 

      Ah, sim, os Canacas encontraram refúgio no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves. A mesma sorte não tiveram os Salomonenses, os naturais das ilhas Salomão. Seremos incapazes de fazer um vocabulário melhor, quando aquele já tem dezenas de anos? Não teremos inteligência, instrumentos, vontade? De que temos medo?

 

[Texto 8215]

Helder Guégués às 16:20 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «Canacas/canaca»

Ah, com dois kk...

 

      «V., por exemplo, o estudo de Maurice Leenhardt sobre a sociedade melanésica e a concepção de pessoa entre os Canacas, onde o corpo não é concebido como forma e matéria isoladas do mundo natural (Leenhardt [1947] 1971)» (Itinerários: a investigação nos 25 anos do ICS, Manuel Villaverde Cabral et al. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2008, p. 675).

    Sim, podemos ver esse estudo de Maurice Leenhardt; o que não podemos ver é os Canacas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Por isso, numa obra, o tradutor escreveu Kanacas e pôs-lhe uma nota de rodapé... Um homem não é de ferro: com dois kk, quem ia conseguir resistir? E, contudo, e estranhamente, encontramo-lo no Dicionário de Inglês-Português e no Dicionário de Neerlandês-Português.

 

[Texto 8214]

Helder Guégués às 16:05 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Pretos e negros

Ideias feitas

 

      E por falar dos pobres Bugis: na TSF, ouvi anteontem uma entrevista ao encenador Rogério Carvalho, que é negro — ou será preto? É o que vamos descobrir já de seguida. Para a peça que tem no Teatro São Luiz, escolheu treze actores, todos negros — ou serão pretos? «O Jean Genet utiliza a palavra nègre, que é mais pejorativa do que noir, mas em português é o contrário. Há conotações diferentes quando dizemos negros ou pretos. Manteve o título Os Negros», pergunta-lhe Ana Sousa Dias. «O tradutor manteve e nós também. Em Portugal, a palavra “negro” passa por não ser pejorativa, mas a palavra correcta ao referir-se a uma pessoa preta é mesmo “preto”. A palavra que identificamos como pura e que se relaciona com as pessoas nascidas em África que tenham a cor preta é a palavra “preto”. À medida que as pessoas foram adquirindo uma aproximação à cultura ocidental, entraram numa alienação porque perderam as raízes, as ligações aos movimentos culturais. Quando os europeus chegaram a África, os pretos eram os pretos, depois foram-se transformando em negros. Enquanto para os franceses nègre corresponde a uma alienação, a palavra noir não o é. Nègre é um aculturado, que tem uma relação mais próxima com a civilização ocidental, com a cultura ocidental, mesmo no que se refere ao teatro ocidental. Isso significa que houve uma passagem de noir a nègre no sentido da alienação, é um movimento alienatório, uma perda de identidade. Na própria peça, Genet faz essa transposição de um ritual em que se procura aproximar dessa identidade.» Quem é ignorante, é a pergunta que se impõe quando lemos, a propósito de preto, isto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «pejorativo designação preconceituosa, discriminatória ou ignorante de pessoa que tem a pele de cor escura, por elevada pigmentação». Por elevada pigmentação... Tem mais que ver com raça do que com cores: há pretos mais claros do que muitos brancos.

 

[Texto 8213]

Helder Guégués às 09:03 | comentar | favorito

Léxico: «Bugis»

Derrotados pelos dicionários

 

      «Indirectamente, o negócio continuou, via Macassar [Macáçar], nas Celebes do Sudeste, para onde se refugiaram muitas famílias católicas, portuguesas e malaias, depois da queda de Malaca. [...] Era uma pequena Malaca, com fortes laços macaenses, no país dos Bugis» (A Viagem de Comércio Macau-Manila, nos Séculos XVI a XIX, Benjamim Videira Pires. Lisboa: Centro de Estudos Marítimos de Macau, 1994, p. 33).

      Tudo o que é histórico vai sendo varrido dos dicionários, como se fosse sucata ou um peso morto. Pobres Bugis, derrotados pelos dicionários.

 

[Texto 8212]

Helder Guégués às 08:39 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,

Léxico: «bicurioso»

Safadice

 

      Ando a ver o termo aqui e ali, e os dicionários, nada: «­— Se alguém insistir numa definição – disse Simone –, diz que és bicuriosa. Isso cala toda a gente, vai por mim» (A Fortuna, Cynthia D’Aprix Sweeney. Tradução de Tânia Ganho. Alfragide: Teorema, 2016). E o que é bicurioso? É — oh abominação! — a pessoa, heterossexual, interessada em ter uma experiência sexual com alguém do mesmo sexo. A interlocutora de Simone ainda responde como muitos leitores o farão: «Isso nem parece uma palavra verdadeira.» Pois não parece, e isso justamente porque foi inventada. Mas vamos ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e encontramos, por exemplo, «fónix». Não, «dasse» não.

      «“If somebody insists on a definition,” Simone said, “tell them you’re bicurious. That will shut them up, trust me.”»

 

[Texto 8210]

Helder Guégués às 08:26 | comentar | ver comentários (2) | favorito
Etiquetas: ,
09
Out 17

Léxico: «politburo»

Há, mas ali ao lado

 

      «O líder norte-coreano Kim Jong-un promoveu a irmã Kim Yo-jung, que já a [sic] “número dois” do departamento de propaganda e agitação, ao organismo mais importante do país. Yo-jung substitui no politburo a tia do líder, Kim Kyong Hee, considerada uma figura-chave do regime quando o antigo líder Kim Jong-il ainda governava» («Irmã do líder promovida à cúpula do poder», Destak, 9.10.2017, p. 6).

      Na Infopédia, só o encontramos no Dicionário de Alemão-Português e no Dicionário de Neerlandês-Português. Politbüro, politbureau. Pontas soltas. (Mas não será, digo eu, Kim Kyong-hee?)

 

[Texto 8205]

Helder Guégués às 15:52 | comentar | ver comentários (1) | favorito
Etiquetas: ,